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domingo, 19 de abril de 2009

Uma história de Deus

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ARMSTRONG, Karen. Uma história de Deus. Quatro milênios de busca do judaísmo, cristianismo e islamismo. São Paulo: Cia. das Letras, 1994.

É um livro muito instrutivo, que serve para repensar muito da idéia que temos de Deus. No Ocidente, temos uma visão pautada pelo racionalismo, uma noção de um Deus pessoal controlando a história e usando seu imenso poder para garantir o sucesso de um texto canônico e de uma ortodoxia a ele associada.

O estudo da história do conceito de Deus nas principais culturas monoteístas leva a uma dimensão mais correta dessa noção de Deus como uma das possíveis e existentes.


O surgimento de Deus: do judaísmo ao cristianismo

Para a autora, a noção de Deus único, universal e criador, consolidou-se entre os judeus no exílio babilônico. É uma idéia claramente semita, desenvolvendo-se a partir do Deus tribal dos patriarcas, e chegando a um Deus nacional institucionalizado pelo clero do tempo do rei Josias (séc. VIII a.C.) e do 2º templo (séc. V a.C.). A este Deus “domesticado” pelo interesse clerical, se opôs o Deus revelado, mistério terrível e fascinante que levou compulsivamente ao ministério de pregação de homens radicais como Isaías (o primeiro e o segundo), Ezequiel, Jeremias ou Oséias. Todos atuantes neste período exílico.

Depois a autora estuda como se desenvolveu o conceito de Deus no círculo dos seguidores de Jesus, em trechos que os ortodoxólatras considerariam anátema, pois a autora sugere que Paulo não tenha afirmado a divindade de Cristo.

A noção de um Cristo divino e humano foi sendo elaborada junto com a ortodoxia e o cânon cristãos, bem como a noção de trindade. Aliás, o cristianismo de fala grega e o de fala latina desenvolveram noções completamente diferentes para cada um desses conceitos.

Para mim foi uma verdadeira epifania a explicação que Armstrong fez do conceito de trindade para os pais gregos do século IV, também conhecidos como “os três capadócios” por causa de sua região de origem – na atual Turquia. Para eles, a trindade era forma de ver Deus como mistério absoluto e inalcançável ao homem. Nenhuma de nossas categorias de pensamento ou análise seria capaz de apreender ou explicar Deus. O ministério da trindade era uma ferramenta pedagógica para lembrar o homem de sua incapacidade diante dessa divindade suprema.

No Ocidente, o conceito foi usado às avessas, principalmente a partir de Agostinho. A cristandade latina desenvolveu a noção de que o conceito de trindade era uma dogma, entendendo essa palavra como sinônimo de uma explicação perfeita, acabada e inquestionável. Assim, Deus passou a ser, no Ocidente, algo que o homem pode conceber racionalmente, aprender-apreender-prender. Daí foi um passo às concepções utilitárias de um Deus a nosso serviço.


Alá: o mesmo Deus numa nova revelação

Em contraposição à consolidação da noção de trindade do cristianismo, a autora narra a história de uma nova revelação de Deus. Após o surgimento do conceito de Deus supremo no mundo semita, e de sua adaptação ao mundo helênico mediterrâneo e, posteriormente, ao mundo latino-germânico europeu, agora eram os árabes que teriam sua própria revelação do ser supremo. Alá era, na revelação recebida por Muhamad (Maomé) o mesmo Deus de judeus e cristãos, que agora se revelava diretamente aos árabes, que aliás, eram também filhos de Abraão.

Para mim que sou cristão de longa tradição familiar e cultural, foi de grande importância aprender com o livro de Karen Armstrong o quanto as três religiões de Deus são próximas e interligadas.

A partir desse momento o livro passa a descrever o pensamento teológico nas três grandes religiões com seus entrelaçamentos e influências mútuas, maiores do que eu poderia pensar. No livro aparece então um capítulo sobre “o Deus dos filósofos” e outro sobre “o Deus dos místicos”, que traçam um histórico dos pensamentos teológicos nas três religiões entre os séculos IX e XIV. Tudo que ela escreveu ali sobre o islã e sobre o judaísmo foram para mim novidades absolutas e intrigantes. Algo que preciso investigar mais para entender melhor.

Segue-se um capítulo sobre “o Deus dos reformadores”, que ressalta a necessidade de reformulação nas teologias das três grandes religiões. Os cristãos, que a essa altura já tinham uma divisão bem consolidada entre cristianismo ocidental e oriental, viram a cristandade medieval fragmentar-se em múltiplas confissões. Este processo é analisado superficialmente pela autora.


O Deus dos modernos

Quando o livro chegou a temas e períodos históricos que me são mais familiares percebo quão limitado pode ser um livro que se pretende escrever uma história de 4 mil anos. Imprecisões e generalizações são inevitáveis, ainda mais que a autora se baseia em grande parte em material de segunda mão. Ou seja, como o livro é uma obra de “vulgarização” científica, não leu as fontes ou estudos originais, mas sempre a partir de outros autores. É sempre perigoso fazer história a partir de compilações, mas obviamente é humanamente impossível fazer pesquisa em arquivos para um “recorte temporal” de 4 milênios.

A partir daí percebe-se que a autora segue um “programa” ou “pregação” doutrinária: propor, e defender, a partir da compreensão da diversidade de concepções do divino, uma visão menos restritiva de Deus. Assim, o racionalismo, que se erigiu a partir do século XVIII como categoria máxima e absoluta de compreensão do mundo e como fundamento da modernidade capitalista, teve como efeito colateral uma simplificação da idéia de Deus. Deus passa a ser o totalmente explicável, redutível a dogmas confessionais, aprisionável a explicações “científicas”.

A história de Deus deveria ser, para alguns, a história dogmática dessa ação divina no mundo. Mas para a autora é a história de como os homens construíram suas noções de uma divindade única. A modernidade seria então a história não de homens que lutam para se libertar de Deus, mas para libertar Deus do homem, combatendo essa noção de Deus fruto da mente racional.


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terça-feira, 14 de abril de 2009

Sigismund Neukomm

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Foi um importante compositor que viveu no Rio de Janeiro durante o período da corte joanina. É apontado por Maurício Monteiro como um dos integrantes da "trindade tropical", juntamente com José Maurício Nunes Garcia e Marcos Portugal.

Para uma introdução à biografia do músico austríaco, recomendo o verbete que estou ajudando a construir na wikipedia.

Aqui vou dar apenas algumas dicas interessantes para ouvir na internet a música deste importante mas pouco conhecido personagem, tudo em vídeos disponíveis no youtube.

Em duas partes, os vídeos da execução do Libera me Domine que Neukomm compôs para integrar o programa de concerto no qual foi estreado no Brasil o Requiem de Mozart, em 1819.







Cena da ópera Misera, dove son? de 1804. O vídeo foi montado com imagens ilustrativas, a partir da obra gravada neste CD.




E mais um víedo, com trecho de uma peça para flauta e forte-piano, composta no Brasil. A obra também faz parte deste CD gravado por Rosana Lanzelotte e Ricardo Kanji para a Biscoito Fino.




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quarta-feira, 1 de abril de 2009

Reavaliando o legado da ditadura

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Acompanhei de longe a polêmica sobre o papel ridículo da Folha de São Paulo no episódio da "ditabranda".

Há importantes setores da classe média brasileira que são saudosos do tempo dos milicos. Não é difícil identificar nesta turma os leitores da Veja. O episódio da Folha indica que ela tem percepção de que são também uma parte importante do seu público (a Folha já não é como nos anos 1980 e 1990, quando se consolidou como um jornal em favor da democratização). Aliás, acompanhar, como eu faço, esporadicamente estes dois veículos é constatar a perda de massa encefálica deste estrato social no Brasil.

Nos últimos dias duas matérias interessantes reavaliando o legado da "ditadura". (Coloco o termo entre aspas devido à impropriedade sociológica do termo para um regime que teve eleições e troca de governantes, economia de mercado e funcionamento normal do judiciário - na verdade continuamos quase tão arbitrários como naquela época, e os figurões da política são quase os mesmos até hoje.)

Recomendo as duas:

Os anos de proibir são de ontem. Matéria de Flávio Tavares para o Zero Hora, repercutida pelo Luis Nassif. Demonstra a origem da corrupção endêmica nas práticas políticas do regime militar. E comenta os tímidos esforços para superar a impunidade nos extratos superiores da política e das finanças.

"Milagre" pós-64 concentrou renda em período de expansão econômica
. Matéria da Agência Brasil feita com acadêmicos e estatísticos que analisam estudos mostrando que o fantástico crescimento do período militar foi apropriado por setores da elite e da classe média. Aos pobres sobrou apenas porrada.

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No tempo da "ficção científica" - o serviço doméstico

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Um dia desses li no Ágora com dazibao no meio um post chamado Para além do meu campo semântico. Tudo que o Ricardo fez foi postar uma charge do Quino que mostra um mendigo ganhando uma polpuda esmola para comer num restaurante de luxo, mas preferindo gastar a quantia em hambúrgueres. O mais interessante é a proverbial caixa de comentários que este post suscitou.

A questão de fundo é a incapacidade humana de compreender conceitos com os quais não está acostumado a lidar. Que valor tem a alta gastronomia para quem não tem papilas capazes de perceber suas nuances? (Na verdade não tem nada a ver com as papilas, mas com o processamento da informação gustativa no cérebro.)


Tá.

E o que isso tem a ver com "ficção científica"?


Acontece que achei outro dia, no Favoritos, uma dica do site Paleo-future, dedicado a mostrar as antigas visões de como seria o futuro. Entre as muitas coisas interessantes que se pode encontrar lá, me chamou a atenção uma cozinha do futuro, cheia de apetrechos para facilitar o trabalho de uma "dona de casa".



Em 1943 os gringos eram capazes de imaginar apetrechos de cozinha para facilitar o serviço doméstico. Provavelmente para que as mulheres pudessem desempenhar melhor a dupla jornada que a guerra lhes impôs: enquanto os maridos foram lutar na Europa, elas assumiram os postos nas fábricas, lojas e escritórios, e continuaram desempenhando os serviços domésticos.

Mas acho que ninguém imaginava ainda uma cozinha sem "dona de casa".

Seria uma coisa muito além do campo semântico...

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segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Na senzala uma flor

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Já publiquei isso antes aqui no blog, mas como tinha sido em três partes sem os devidos links de ligação, acho que alguns leitores saíram prejudicados. Agora conserto a besteira.


SLENES, Robert. Na senzala uma flor. Esperanças e recordações na formação da família escrava – Brasil. Sudeste, século XIX. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.


Eu li este livro como parte da minha preparação para o exame de seleção do mestrado em História da UFPR, em 2001. Àquela época o livro estava esgotado, ignoro se teve nova edição.

Trata-se de um livro já clássico, que originou uma série de debates na historiografia sobre a escravidão. O historiador Jacob Gorender, militante do partido comunista, foi o que mais se opôs à tese de Slenes, considerando que ela contribuía para “suavizar” a escravidão. Historiadores que pesquisam a escravidão se juntaram a Slenes e fizeram severas críticas a Gorender, pelo fato de ele nunca ter pesquisado diretamente com fontes em arquivos.

À parte as polêmicas que todas as novas interpretações costumam causar em relação a interpretações estabelecidas, trabalhos como o de Slenes têm servido para trazer uma nova concepção da cultura brasileira, especialmente no que toca à influência das classes populares, ainda considervelmente subdimensionada.

Faço aqui no blog uma resenha em três partes, seguindo o roteiro de estudo que fiz quando li o livro para a prova do mestrado:



A família escrava


Um viajante francês do século XIX afirma não ter visto nenhuma flor nas senzalas brasileiras, julgando por isso não haver esperanças nem recordações, e até mesmo negava a exsitência da família no meio dos escravos.

O título da obra de Slenes é a negação da afirmativa deste viajante. Através de sua pesquisa o autor comprova a existência da família escrava, formada por marido e mulher, com filhos morando com o casal, que possui sua própria casa e até uma atividade econômica independente (caça e pesca, criação de animais, cultivo de roça, trabalho assalariado nos dias de folga, artesanato), que lhe permite economizar para melhorar o padrão de vida e até comprar sua liberdade em alguns casos.

Slenes também compara as habitações dos escravos com as da África Central (origem da maioria deles, demonstrando as permanências culturais africanas na arquitetura das habitações e no hábito de ter sempre dentro delas um fogo aceso. Para o autor, é este fogo aceso a flor que o viajante europeu não foi capaz de enxergar nas senzalas.

Com este estudo, Slenes demonstrou que a escravidão no Brasil não pode ser vista apenas como um imposição dos senhores, mas construiu-se um sistema de relações negociado. Os escravos conquistaram um espaço familiar que, apesar de precário e instável, não foi irrelevante. Em meio aos sofrimentos da escravidão, os negros conseguiram formar famílias, nas quais cultivaram suas esperanças (refletidas na sua dedicação à economia doméstica) e recordações (a manutenção e adaptação de importantes traços culturais comuns às sociedades bantus da região do Congo e Angola).



Arquivos e fontes sobre a escravidão


Slenes trabalhou na sua pesquisa com fontes primárias e secundárias. As primárias foram as que ele usou para traçar os padrões demográficos dos escravos do Sudeste do Brasil no século XIX. São registros de casamento e batismo de escravos, inventários pós-morte de fazendeiros (que incluíam a relação de escravos – arrolados entre os “bens” do senhor), processos-crime, anúncios de fuga de escravos nos jornais. Com estas fontes, pesquisadas em Campinas, Sorocaba e Vassouras (RJ), ele deduz percentagens de africanos entre os escravos (haviam os trazidos da África e os nascidos aqui), de homens, de casados, taxas de mortalidade, expectativa de vida, etc.

Comparando os dados obtidos com os resultados de outros pesquisadores para outros municípios do sudeste no mesmo período, o autor faz generalizações possíveis para obter um padrão regional. Com isto ele comprovou a existência de uma família escrava, composta de pai, mãe e filhos.

Outro tipo de fonte primária são os relatos de viajantes europeus, recordações de fazendeiros e imagens literárias da época (romances). Dessas fontes o autor tira a visão branca sobre a escravidão. Comparando com os resultados dos estudos demográficos, Slenes demonstra o quanto esta visão branca é etnocêntrica, distorcida e pouco confiável (como aliás qualquer fonte histórica – que deve ser tratada com o devido treino e muitos cuidados). Uma análise mais profunda pode ler nas entrelinhas informações importantes sobre a cultura negra: padrão de construção das senzalas, alimentação, economia doméstica.

Comparando estas observações de viajantes com estudos etnológicos de sociedades centro-africanas (fontes secundárias), Slenes traçou um panorama da cultura escrava, demonstrando as permanências culturais na família cativa e suas estratégias de resistência.



A história dos vencidos


A partir da década de 1970 houve uma explosão de estudos de historiadores dedicados à vida e à cultura das classes subalternas, dos trabalhadores pobres: operários no caso europeu e escravos no caso do continente americano. Estes trabalhadores foram sempre a classe inferiorizada na estrutura social, e não conseguiram sequer perpetuar sua memória pela produção de documentos escritos. Por causa disso, eles foram quase sempre classes “invisíveis” para o historiador.

O que mudou este estado de “cegueira” em relação às classes trabalhadoras, e causou a explosão de estudos sobre história operária e história da escravidão, foi o trabalho seminal do historiador inglês E. P. Thompson. Em meados da década de 1960 ele publicou sua Formação da classe operária inglesa, em 3 volumes. Escreverei sobre esta obra em outro post, mas devo dizer aqui que foi Thompson começou uma nova metodologia, qual seja ler a história dos vencidos nos documentos produzidos pelos vencedores.

Foi isso que fez Slenes, seguindo a tradição metodológica inaugurada por Thompson no estudo dos operários ingleses do início do século XIX.. Ler processos criminais onde os escravos depõem como réus, inventários de fazendeiros onde eles aparecem como mercadorias, documentos de batismo e casamento onde eles aparecem por acaso, e relatos de viajantes onde os escravos despertam sentimentos mistos de compaixão e desprezo, lançados de um olhar que se julga culturalmente superior. Ler nestes documentos a visão do escravo, que não está ali, precisa ser descoberta nas entrelinhas. Tudo isso para compensar a completa ausência de documentos ou memórias produzidos pelos próprios escravos.

O estudo de Slenes, bem como os trabalhos de outros historiadores que seguiram esta mesma tradição historiográfica, levou a uma mudança de paradigma. Os trabalhadores pobres (ou os escravos) deixaram de ser vistos como seres passivos, e passaram a ser vistos como agentes históricos importantes, com uma cultura própria, que se chocaram e interagiram com outros agentes e com a cultura dominante.

Além desta corrente thompsoniana de estudo das classes trabalhadoras, o estudo de Slenes também segue uma outra tradição historiográfica originada na Nova História praticada pelos franceses: a demografia histórica. Trata-se da reconstituição de padrões populacionais, organização das famílias, estratégias reprodutivas, espectativa de vida. Esta é uma abordagem quantitativa, obtida através da chamada história serial – aquela que se faz pela coleta de dados de mesmo padrão, num mesmo arquivo, de uma mesma localidade, para diferentes datas. Este tipo de estudo permite traçar a evolução da população local por um determinado período de tempo. (Não é à toa que esta abordagem surgiu na França – lá existem séries de documentos eclesiásticos sobre nascimentos, batismos e sepultamentos com séries confiáveis que remontam ao século XII!)

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sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Por um novo Estado na Palestina

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Em 1948, foi criado na Palestina o Estado de Israel. Foi uma reação do movimento sionista às brutais perseguições sofridas por judeus na Europa cristã. As perseguições perduraram por todo o período da cristandade, e seguiram com toda a força após as Reformas religiosas do século XVI.

Uma nova situação gerou a possibilidade de um estado judeu, a acolher exilados europeus em massa na terra dos seus ancestrais. Colocava fim a uma tradição que vem desde o século V a.C., com um pequeno interlúdio hasmoneu no século III a.C. - os judeus foram os únicos a conseguir manter coesa uma pátria sem território e sem Estado, isso por cerca de 2300 anos, desde o exílio à Babilônia de Nabucodonosor até a criação do Estado moderno de Israel em 1948.

O novo Estado foi apoiado pelo Ocidente, talvez para aplacar a consciência depois do holocausto nazista. Foi possível por que as potências ocidentais já tinham colocado fim ao domínio do império Otomano na região, desde a chamada "1ª guerra mundial". O Estado judeu seguiu-se à partilha franco-britânica da Palestina, e foi uma forma de garantir os interesses ocidentais numa região rica em petróleo. Afinal, os migrantes que construíram o novo Estado eram, em última instância, europeus - os Askenazim de pele clara não desalojaram apenas os palestinos, mas desalojaram também (politicamente) os Sefardim de pele morena que viveram em equilíbrio na região por milênios.

A história deste jovem Estado foi sempre de guerras com vizinhos. Diversas nações classificadas como "árabes" e confundidas com o islã - mesmo apesar de toda a vizinhança ser multi-cultural, multi-étnica e multi-religiosa, incluindo significativa presença de cristãos do antigo ramo monofisista (grupos de cristãos orientais que não se submeteram ao controle político de Roma ou de Constantinopla, traduzido no dogma da natureza divino-humana de Cristo).

Foi comum ouvir falar no objetivo político do "fim do Estado judeu", propagandeado no Ocidente de forma mentirosa como uma apologia à eliminação física de Israel. O fim do Estado judeu é a proposta de uma partilha da região num estado onde os Palestinos tenham representação política paritária. É a única proposta politicamente decente, mas fere interesses financeiros muito poderosos, não apenas na região, mas em todo capitalismo mundial.

O Ocidente segue mantendo o Oriente Médio como um grande "aterro sanitário" humano, a garantir o conforto do "bem-estar social" do Atlântico Norte.

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A única solução aceitável é um único Estado, para israelenses-palestinenses, no qual os crimes do sionismo possam afinal ser reparados. Não há outra possibilidade. Só essa."
(Tareq ali no Guardian, via Carta Maior)

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sexta-feira, 30 de maio de 2008

UNASUL

Esta semana foi criada, por decisão conjunta de chefes de Estado dos países sul-americanos, em reunião realizada no Brasil, a União das Nações Sul-americanas. Esta decisão tem uma importância estratégica difícil de medir, reflete mudanças recentes da geopolítica regional, e pode significar o começo de um importante processo para os países do sub-continente.

A América do Sul é, desde o século XVI, um quintal de pontências colonialistas. Portugal e Espanha, ligeira presença francesa, inglesa e holandesa na região amazônica das Guianas, e esporádicas invasões de franceses e holandeses nos territórios portugueses. Com as independências no início do século XIX, que foram parte de um processo maior de crise do Antigo Regime na Europa, precipitado pela dupla revolução (Revolução Industrial e Revolução Francesa - usando uma análise de Eric Hobsbawn em A era das revoluções), as novas nações sul-americanas saíram do âmbito colonial direto. Da sujeição total às metrópoles espanhola e portuguesa, passou a uma sujeição velada às duas novas grandes potências européias (não por acaso os países que lideraram a dupla revolução) - Inglaterra e França. A Inglaterra apoiou as independências nacionais e o fim do tráfico de escravos. Beneficiou-se do fim das restrições comerciais que davam exclusividade ao comércio com as metrópoles ibéricas e fez grandes investimentos na região. A França tornou-se o modelo cultural por excelência, ditando a moda para os conservatórios de música, os movimentos literários, as academias de Belas Artes, os colégios para moças, as reformas urbanísticas (que criaram várias "Paris" no continente - Buenos Aires, Santiago, Motevidéu, Rio de Janeiro).

Até a década de 1920 os países sul-americanos continuaram na órbita dos interesses de França e Inglaterra, com alguma influência também da Itália (país que forneceu grandes fluxos humanos, especialmente para Brasil, Argentina e Uruguai, bem como ditou o gosto musical através do predomínio da ópera). Mas as nações que dominaram o século XIX europeu e mundial começaram a sofrer a concorrência forte de duas novas potências: Alemanha e Estados Unidos. Ambos os países já eram as mais poderosas economias industriais por volta de 1870, mas ainda não tinham nenhuma influência geo-política de alcance maior. A entrada da Alemanha na disputa pelos domínios coloniais europeus na África e na Ásia foi um dos fatores causadores da grande guerra de 1914-1945 (novamente usando uma idéia de Eric Hobsbawn em A era dos extremos. O breve século XX - livro no qual o autor propõe a idéia de que não existiram duas guerras separadas por um período de paz, mas um período de guerra mais ou menos constante com concentração de conflitos no início e no fim).

A outra potência, os Estados Unidos, não tinha qualquer condição de entrar em disputa pela hegemonia no continente europeu. Tratou então de tentam disputar com os europeus a hegemonia no continente americano. A princípio, a própria constituição territorial norte-americana foi um processo de disputa com espanhóis e franceses, desde o fim do século XVIII. No século XIX os EUA trataram de garantir sua hegemonia sobre os países da América Central, aonde as grandes companhias monopolistas norte-americanas foram ostensivamente apoiadas pelas tropas do país, gerando o fenômeno apelidado de "repúblicas de banana", numa alusão ao poder da International Fruit Company, que fazia e desfazia governos na região conforme seus interesses e usando sempre o apoio militar norte-americano.

A partir da crise de 1929, houve nos EUA uma política intesiva de indução ao desenvolvimento, posta em prática pelo governo de F. D. Roosevelt. Entre outras medidas, foi criado um programa que recebeu bilhões de dólares do governo federal (numa época em que bilhões valiam talvez o que valem hoje os trilhões), chamado WPA - sigla para um programa de incentivo ao emprego. Isso foi necessário no momento em que a maior cirse do capitalismo deixou milhões de desempregados, de falidos e de miseráveis. Outra parte do programa para ressucitar a economia norte-americana incluiu um programa pesado para estimular a presença cultural e econômica na América do Sul. Foi chamado de OCIAA (Office of the Coordinator for Inter American Affairs), e foi o início do que ficou conhecido como "política da boa vizinhança". A ação deste organismo foi bem estudada por Antônio Pedro Tota em seu livro Imperialismo sedutor.

Em 1939, com o início oficial da Guerra na Europa, os EUA passaram a se preocupar com a grande influência que os nazistas tinham na América do Sul, especialmente os significativos enclaves alemães no sul do Brasil e na Argentina, bem como uma política muito bem organizada de cooperação com governos e difusão cultural, que deixava os americanos em desvantagem. Para combater esta influência alemã, os EUA lançaram um programa ainda mais ambicioso - a União Panamericana. Apesar do nome indicar um organismo multi-lateral, que envolveu efetivamente a participação dos vários países do continente, a liderança era exercida indubitavelmente pelos norte-americanos, que inclusive eram os principais mantenedores de todos os programas da Instituição. Em 1947, com o início da Guerra Fria os interesses geo-políticos norte americanos deixaram de se concentrar na América, pois passaram a disputar a hegemonia em todos os continentes. A União Panamericana transformou-se em Organização dos Estados Americanos - OEA. Através da OEA os Estados Unidos continuaram a exercer sua total hegemonia no continente, onde agora não tinham mais a concorrência das potências européias destruídas pela guerra. Na década de 1960 o continente voltou a atrair a atenção dos EUA por causa da revolução cubana. O medo de que várias Sierra Maestra pipocassem pelo continente levou à Aliança para o Progresso e ao apoio às sanguinárias ditaduras impostas por golpes militares em toda a América Latina. As revoluções socialistas tinahm que ser evitadas a qualquer custo, e os custos foram bem altos como já sabemos.

Acontece que na década atual, os jovens sonhadores dos anos 1960, esquerdistas porra-loucas que sobreviveram às torturas e assassinatos políticos das ditaduras do continente, são presidentes das repúblicas, ministros de Estado, etc. Essa onda vermelha vem ganhando todas as eleições na América do Sul após o total fracasso das políticas neo-liberais da década de 1990. E esses novos governos Sul-americanos decidiram tomar medidas efetivas para que a região deixe de ser o quintal dos Estados Unidos. para isso tiveram que resolver ridículas picuinhas regionais. Brasil e Argentina, as maiores potências da região ciraram uma solução definitiva para sua rivalidade militar e uniram-se no Mercosul (que anda aos trancos e barrancos mas cumpre um papel importantíssimo para ambos os países). Depois foi preciso vencer a resistência da Colômbia, o único país da região que ainda mantinha fortes interesses em continuar sob a órbita norte-americana, intoxicado pelos bilhões de dólares recebidos para estúpidos programas anti-drogas (na verdade programas anti-guerrilha de esquerda pois os cartéis de drogas continuam mandando nos grupos para-militares e no governo colombiano como sempre).

Para encurtar a história, UNASUL significa o fim da hegemonia norte-americana exercida pela OEA. Isto ficou claro quando os países da região sentaram à mesa para uma solução negociada da crise gerada pela invasão do território equatoriano por tropas colombianas no episódio em que um lider das FARC foi morto. É paradigmático que, pela primeira vez, os EUA não foram nem convidados para a conversa. Resolvemos tudo por aqui mesmo.

Hoje, os estrategistas norte-americanos reconhecem que não se pode mais pensar na geo-política para a América do Sul sem levar em conta a liderança do Brasil. E o Brasil precisa ter a coragem de fazer o que os EUA não fizeram no período em que lideraram a região. Ouvir e respeitar os vizinhos e, principalmente, beneficiar-se com um corajoso programa de desenvolvimento econômico e social que somente a liderança do Brasil pode implantar na região.

É isso que significa esta sigla UNASUL

sábado, 17 de maio de 2008

60 anos

Estou atrasado para escrever sobre isso, mas tudo bem. O aniversário foi semana passada, mas o tema continua atual, e continuará por muito tempo.

Dia 9 de maio completaram-se 60 anos da fundação do Estado de Israel. É uma data que merece vários tipos de comemoração.

Os evangélicos fundamentalistas (pleonasmo) comemoram a data como se fosse um sinal dos tempos, uma claro indício de que Deus está "agindo na história". Quem consagrou esta interpretação escatológica da criação do Estado de Israel foi Hal Lindsey em seu livreto The late great planet Earth, publicado nos EUA em 1970, e cuja primeira edição em português saiu em 1973, com o título A agonia do grande planeta Terra. O livro foi traduzido para muitas línguas e vendeu muitos e muitos exemplares. (A edição que pertence ao meu pai estampa na capa o número de 2 milhões de exemplares vendidos, o que se refere provavelmente à soma das edições em várias línguas.)

Neste livro o autor fez um contorcionismo hermenêutico com a passagem do capítulo 24 do Evangelho de Mateus, para dizer que a figueira a que Jesus se referia no texto era o povo de Israel. Este capítulo do Evangelho de Mateus é terrivelmente apocalíptico, e as descrições feitas por Jesus são interpretadas por muitos como profecias para o fim do mundo. Em certa altura do texto, nos versículos 32 a 34, Jesus afirma:

Aprendei, pois, a parábola da figueira: quando já os seus ramos se renovam e as folhas brotam, sabeis que está próximo o verão. Assim também vós: quando virdes todas estas cousas, sabei que está próximo, às portas. Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que tudo isto aconteça.

Para Lindsey, o texto previa a recriação do Estado de Israel - que corresponde ao rebrotar da figueira descrito no texto. E a afirmação de que não se passará a geração antes que tudo aconteça foi interpretada como sendo uma profecia de que a volta de Cristo (evento que a escatologia considera o fator desencadeador do fim do mundo) não demoraria mais do que 40 anos (uma geração) após 1948.

Como 1988 já passou faz muito tempo, este livro hoje só presta para ser motivo de ridículo. Apesar disso, as idéias a respeito do Estado de Israel como manifestação da vontade divina - apesar de igualmente ridículas - continuam em voga entre os evangélicos até hoje. Os mesmos evangélicos que elegeram Bush por causa do discurso moralista (anti-aborto e anti-pesquisa com células tronco principalmente) são os que também pressionam por uma política externa pró-Israel.

Este é o tipo de comemoração do Estado de Israel com o qual este blog definitivamente não comunga.

Prefiro celebrar o Estado de Israel como o lugar de descanso de um povo que viveu à margem da cristandade ocidental, vivendo perseguido e fugitivo por mais de 2 mil anos. Lugar de descanso entre aspas: desde que conseguiram criam um estado territorial os judeus nunca descansaram pois desde 1948 vivem em permanente estado de guerra com os vizinhos, sofrendo ataques tanto militares quanto do terrorismo civil.

A mim que sou estudioso do tema da identidade nacional (especificamente a relação que isso tem com a música no Brasil), me impressiona como um povo foi capaz de manter uma identidade nacional por tantos séculos, mesmo sem contar com um Estado ou com um território. Tribos nômades que migraram primeiro da Mesopotâmia, depois passando pelo Egito, os hebreus se estabeleceram na Palestina no século XIII a.C. Constituíram uma monarquia com território definido e capital fixa no século X a.C. Logo em seguida dividiram-se em 2 reinos, o do norte sendo totalmente dizimado pelos assírios no século VII a.C. O do sul - o reino de Judá, que ficou com a capital Jerusalém - é o que subsistiu como povo. São os judeus, que desde o século VI a.C. não tem mais um Estado territorial.

Invadidos pelas tropas de Nabucodonosor da Babilônia, os judeus tornaram-se um povo em permanente exílio. Foi no exílio babilônico que se constituiu o juadaísmo, uma religião de estrita observância das leis divinas, da conservação de livros sagrados e das reuniões para adoração em sinagogas. Foi no período do exílio babilônico que os textos sagrados judeus ganharam forma escrita mais ou menos definitiva - o que os cristãos reconhecem hoje como o Antigo Testamento.
Salvo por um curto período no século III a.C., os judeus nunca mais tiveram um Estado. Aprenderam a viver em permanente exílio. Reconheciam-se pela observância da lei divina e pela reunião nas sinagogas, que se expalharam por todo o Oriente Próximo do Império Persa e por toda a região do Mediterrâneo do Império Romano. Foi assim que por séculos mantiveram sua identidade. Eram uma nação sem pátria, sem Estado. Existiram muito antes de surgir a idéia moderna de nação (todas a nações que reconhecemos hoje não têm mais do que 200 anos de existência).

O que lhes deu esta coexão? Alguém diria que foi a religião. Acontece que, a partir do século XVIII começou a surgir um expressivo contingente de judeus não religiosos. Estes judeus secularizados foram parte importante do arcabouço filosófico da modernidade européia. Judeus que não se reconheciam mais na observância da religião judaica. Que pretendiam se incorporar plenamente à vida secular que surgia na Europa após o colapso da cristandade compulsória. E que nunca foram plenamente recebidos na sociedade européia. Parece que o judeu tinha uma marca - mesmo quando ele mesmo já não se reconhecia como judeu a sociedade laica européia continuou a discriminá-lo como fizera quando a cristandade recusava-se a aceitar os nãos cristãos.

Então a coesão tinha motivos étnicos? Também não. A multiplicadade de etnias que se reconhecem como judeus é notória. Afinal o juadaísmo foi sempre uma religião de descendência - os filhos de Abraão - mas sempre uma religião aberta a receber fiéis de outras descendências e a misturar-se no meio dos povos em que habitaram. Por isso temos pelo menos dois grandes grupos reconhecíveis no judaísmo europeu: ashkenazin (em geral de pele clara e idioma ídiche, espalhados pela Europa Central e do Leste) e sefaradim (em geral de pele escura e idioma ladino, espalhados pelo Sul da Europa e pelo Norte da África e Oriente Médio).

Permanece então um grande mistério esta impressionante coesão de um povo, que manteve sua indentidade ao longo de cerca de 2 mil e 500 anos sem ter território, monarquia, idioma oficial ou característica étnica que pudesse identificá-lo.

No fim do século XIX, parte desses judeus secularizados, inspirados pelos muitos movimentos contra a opressão que surgiram em solo europeu (socialistas de vários tipos, anarquistas, nacionalistas, etc.) começaram a cogitar um Estado judeu. O movimento ganhou o nome de sionismo, e foi a primeira forma de reação coordenada que os judeus organizaram para resistir às violências que lhe foram impetradas em mil e quatrocentos anos de perseguição sistemática por parte dos cristãos europeus. Neste período a perseguição se tornou mais aguda na Europa Central e do Leste, criando ondas de migração massiva de judeus para os EUA e, pela primeira vez em muitos séculos, de volta à sua Terra Prometida na Palestina.

O genocídio nazista foi a gota d'água que levou as potências ocidentais a reconhecer um Estado judeu na Palestina. Era uma espécie de "desencargo de consciência" para com um povo tão durante perseguido em toda a história da Europa. Mas não passou disso - um desencargo de consciência, pois logo em seguida a região da Palestina tornou-se um eterno joguete político das potências, que tentaram agradar ao mesmo tempo o nascente nacionalismo pan-árabe e o recém-criado Estado de Israel. Logo estes dois lados do conflito passaram a dividir-se conforme os dois lados da Guerra Fria: União Soviética e seus asseclas comunistas espalhados pelo globo alinharam-se do lado árabe do conflito. Estados Unidos e seus asseclas capitalistas e fundamentalistas (duas faces da mesma moeda) alinharam-se do lado judeu. Ainda atrpalhados pelo arraigado anti-semitismo que continuou forte na Europa, especialmente entre os católicos.

Depois de resisitr a tudo isso, o Estado de Israel comemora 60 anos. Tornou-se a pátria de todos os judeus. Mesmo aqueles que têm outras pátrias e que nunca foram à Palestina. É hoje o único Estado minimamente democrático do continente asiático. Se conseguir desatar o nó do conflito com os Palestinos de forma negociada será o maior exemplo de pluralidade que o mundo precisa para o século XXI.

É este o tipo de comemoração que anima este blog.

Esta foi, leitor, a minha versão da história. Recomendo fortemente que você conheça também a versão do Pedro Dória e a do André Tavares - com uma importante réplica a um comentarista.

sexta-feira, 28 de março de 2008

Mais Israel-Palestina

Este blog começa a receber visitas ilustres e provocar algum debate.

Me meti a escrever sobre um tema espinhoso e difícil, e recebi um justo puxão de orelha do meu chará do Contra-senso nos comentários do último post que fiz sobre este tema.

Corrijo-me aqui de alguns escorregões e discuto algumas colocações do comentarista:

Se pode ser exagero do Idelber falar em chacina, por outro lado, comparar o número de mortos em outros conflitos não alivia a barra de Israel. Nunca pretendi dizer, que Israel seja o culpado da situação de conflito. A confiar nas informações de Paul Johnson em sua História dos Judeus, ambos os lados contribuíram muito para o problema. Os árabes vizinhos nunca aceitaram o estado judeu, e, por conta disso, nunca incorporaram os refugiados palestinos deslocados pela migração de judeus europeus (askenazin) que vieram povoar o novo Estado. Por outro lado, dizer que os árabes pretendem a eliminação do Estado de Israel é parcialmente verdadeiro e parcialmente falacioso. Recusar o "Estado Judeu" significa reivindicar um Estado plural como o que existe no Líbano, com pluralidade de representação religiosa na partilha do poder político.

Quando disse que há sobrerrepresentação judaica na imprensa não pretendi mostrar qualquer ponta de anti-semitismo. Não citaria jamais "os protocolos" como afirma o meu chará, subestimando um pouco minha inteligência. Há sim um percentual maior de judeus na atividade jornalística, como em toda atividade intelectual (cientistas, escritores, filósofos, etc) e no comércio. Não é devido a questões de aptidão étnica, mas de tradição de valorização da educação, do debate contraditório (não é à toa que meu amigo chama seu blog de contra-senso) até mesmo pelas inúmeras restriões a se fixar à terra e possuir bens que os judeus sempre enfrentaram na história.

Assim, sobrerrepresentação na imprensa não significa que todos os jornalistas judeus sejam ativamente pró-Israel. Acho que niguém critica mais os judeus do que os próprios judeus. Por outro lado, não há como negar que os judeus têm maior capacidade intelectual e organizativa para preservar sua memória. Inclusive através de uma fabulosa rede de proteção mútua internacional que vêm permitindo a sobrevivência deste povo há milênios. Só para lembrar, homossexuais, comunistas e eslavos (poloneses - 9 milhões de mortos, e russos - 20 milhões) foram vitimizados pelo nazismo até em maior número do que os judeus. Mas estes conseguiram preservar muito melhor a sua memória, de modo que o mundo nunca mais se esqueça.

Há ainda mais um componente que não pode ser esquecido, sobre o qual deixo para escrever em outros posts: o fundamentalismo evangélico e sua escatologia.