ARMSTRONG, Karen. Uma história de Deus. Quatro milênios de busca do judaísmo, cristianismo e islamismo. São Paulo: Cia. das Letras, 1994. É um livro muito instrutivo, que serve para repensar muito da idéia que temos de Deus. No Ocidente, temos uma visão pautada pelo racionalismo, uma noção de um Deus pessoal controlando a história e usando seu imenso poder para garantir o sucesso de um texto canônico e de uma ortodoxia a ele associada.
O estudo da história do conceito de Deus nas principais culturas monoteístas leva a uma dimensão mais correta dessa noção de Deus como uma das possíveis e existentes.
Para a autora, a noção de Deus único, universal e criador, consolidou-se entre os judeus no exílio babilônico. É uma idéia claramente semita, desenvolvendo-se a partir do Deus tribal dos patriarcas, e chegando a um Deus nacional institucionalizado pelo clero do tempo do rei Josias (séc. VIII a.C.) e do 2º templo (séc. V a.C.). A este Deus “domesticado” pelo interesse clerical, se opôs o Deus revelado, mistério terrível e fascinante que levou compulsivamente ao ministério de pregação de homens radicais como Isaías (o primeiro e o segundo), Ezequiel, Jeremias ou Oséias. Todos atuantes neste período exílico. Depois a autora estuda como se desenvolveu o conceito de Deus no círculo dos seguidores de Jesus, em trechos que os ortodoxólatras considerariam anátema, pois a autora sugere que Paulo não tenha afirmado a divindade de Cristo. A noção de um Cristo divino e humano foi sendo elaborada junto com a ortodoxia e o cânon cristãos, bem como a noção de trindade. Aliás, o cristianismo de fala grega e o de fala latina desenvolveram noções completamente diferentes para cada um desses conceitos. Para mim foi uma verdadeira epifania a explicação que Armstrong fez do conceito de trindade para os pais gregos do século IV, também conhecidos como “os três capadócios” por causa de sua região de origem – na atual Turquia. Para eles, a trindade era forma de ver Deus como mistério absoluto e inalcançável ao homem. Nenhuma de nossas categorias de pensamento ou análise seria capaz de apreender ou explicar Deus. O ministério da trindade era uma ferramenta pedagógica para lembrar o homem de sua incapacidade diante dessa divindade suprema. No Ocidente, o conceito foi usado às avessas, principalmente a partir de Agostinho. A cristandade latina desenvolveu a noção de que o conceito de trindade era uma dogma, entendendo essa palavra como sinônimo de uma explicação perfeita, acabada e inquestionável. Assim, Deus passou a ser, no Ocidente, algo que o homem pode conceber racionalmente, aprender-apreender-prender. Daí foi um passo às concepções utilitárias de um Deus a nosso serviço.
Alá: o mesmo Deus numa nova revelação
Em contraposição à consolidação da noção de trindade do cristianismo, a autora narra a história de uma nova revelação de Deus. Após o surgimento do conceito de Deus supremo no mundo semita, e de sua adaptação ao mundo helênico mediterrâneo e, posteriormente, ao mundo latino-germânico europeu, agora eram os árabes que teriam sua própria revelação do ser supremo. Alá era, na revelação recebida por Muhamad (Maomé) o mesmo Deus de judeus e cristãos, que agora se revelava diretamente aos árabes, que aliás, eram também filhos de Abraão. Para mim que sou cristão de longa tradição familiar e cultural, foi de grande importância aprender com o livro de Karen Armstrong o quanto as três religiões de Deus são próximas e interligadas. A partir desse momento o livro passa a descrever o pensamento teológico nas três grandes religiões com seus entrelaçamentos e influências mútuas, maiores do que eu poderia pensar. No livro aparece então um capítulo sobre “o Deus dos filósofos” e outro sobre “o Deus dos místicos”, que traçam um histórico dos pensamentos teológicos nas três religiões entre os séculos IX e XIV. Tudo que ela escreveu ali sobre o islã e sobre o judaísmo foram para mim novidades absolutas e intrigantes. Algo que preciso investigar mais para entender melhor. Segue-se um capítulo sobre “o Deus dos reformadores”, que ressalta a necessidade de reformulação nas teologias das três grandes religiões. Os cristãos, que a essa altura já tinham uma divisão bem consolidada entre cristianismo ocidental e oriental, viram a cristandade medieval fragmentar-se em múltiplas confissões. Este processo é analisado superficialmente pela autora.
O Deus dos modernos
Quando o livro chegou a temas e períodos históricos que me são mais familiares percebo quão limitado pode ser um livro que se pretende escrever uma história de 4 mil anos. Imprecisões e generalizações são inevitáveis, ainda mais que a autora se baseia em grande parte em material de segunda mão. Ou seja, como o livro é uma obra de “vulgarização” científica, não leu as fontes ou estudos originais, mas sempre a partir de outros autores. É sempre perigoso fazer história a partir de compilações, mas obviamente é humanamente impossível fazer pesquisa em arquivos para um “recorte temporal” de 4 milênios. A partir daí percebe-se que a autora segue um “programa” ou “pregação” doutrinária: propor, e defender, a partir da compreensão da diversidade de concepções do divino, uma visão menos restritiva de Deus. Assim, o racionalismo, que se erigiu a partir do século XVIII como categoria máxima e absoluta de compreensão do mundo e como fundamento da modernidade capitalista, teve como efeito colateral uma simplificação da idéia de Deus. Deus passa a ser o totalmente explicável, redutível a dogmas confessionais, aprisionável a explicações “científicas”.
A história de Deus deveria ser, para alguns, a história dogmática dessa ação divina no mundo. Mas para a autora é a história de como os homens construíram suas noções de uma divindade única. A modernidade seria então a história não de homens que lutam para se libertar de Deus, mas para libertar Deus do homem, combatendo essa noção de Deus fruto da mente racional.
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