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segunda-feira, 3 de agosto de 2009

A alfabetização nunca termina

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Entrevista com a profª. Drª. Telma Weisz na revista Nova Escola, n° 190 (março de 2006) - disponível aqui.

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O que é ser alfabetizado?
Vejo a aquisição do sistema de escrita - popularmente conhecida como alfabetização e que chamamos de alfabetização inicial - como parte de um processo. Mesmo os adultos nunca dominam todos os tipos de texto e estão sempre se alfabetizando. Ser alfabetizado é mais do que fazer junções de letras, como B com A, BA.

Qual a diferença entre alfabetização e letramento?
No passado, era considerado alfabetizado quem sabia fazer barulho com a boca diante de palavras escritas. Só então estudava-se Língua Portuguesa e gramática. Para quem acredita no letramento, a criança primeiro aprende o sistema da escrita e só depois faz uso social da língua. Assim como antes, isso dissocia a aquisição do sistema das práticas sociais de leitura e escrita. Para evitar essa divisão, passamos a usar o termo cultura escrita.

Qual a importância do professor como leitor-modelo?
A leitura é uma prática e para ensinar você precisa aprender com quem faz. Porém, este é um nó: como formar leitores se você não lê bem? E como ler bem se você saiu de uma escola que não forma leitores? A solução é de longo prazo e requer programas de educação continuada que tenham um trabalho sistemático nessa área. Nas reuniões do Profa, eram dados três textos ao formador. Ele escolhia um e lia para os professores, que recebiam os três. Ao fim do ano, eles haviam lido 150 textos de vários gêneros.

Como os pais podem colaborar na alfabetização?
Lendo todos os dias para as crianças. Quem passa a primeira infância ouvindo leituras interessantes se apropria da linguagem escrita. Assim, na hora em que lê e escreve de forma autônoma, já sabe o que e como produzir. Isso também possibilita à criança entender os textos que lê.

Por que saem das escolas tantos analfabetos funcionais?
Porque a escola só reconhece como alfabetização a aquisição do sistema. Em vez de investir na competência leitora, concentra-se no ensino de gramática. Por isso há analfabetos funcionais com muitos anos de escolaridade. Formar leitores e gente capaz de escrever é uma tarefa de coordenadores, gestores e professores de todas as séries e disciplinas. Eu diria que leitura e escrita são o conteúdo central da escola e têm a função de incorporar a criança à cultura do grupo em que ela vive. Isso significa dar ao filho do analfabeto oportunidades iguais às do filho do professor universitário.

Como reverter esse quadro?
Lendo, discutindo, trocando idéias, vendo o que cada um entendeu e pesquisando em fontes diversas. É preciso tornar o texto familiar, conhecer suas características e trazer para a sala práticas de leitura do mundo real. Se a função da escola é dar instrumentos para o indivíduo exercer sua cidadania, é preciso ensinar a ler jornal, literatura, textos científicos, de história, geografia, biologia. Consegue ler bem quem teve algum tipo de oportunidade fora da escola. Os que dependem só dela são os analfabetos funcionais. E a escola faz isso porque não compreende claramente a sua função.

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segunda-feira, 25 de maio de 2009

Simone Cit - Pedro e o choro

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Faz uns dias que aconteceu o lançamento aqui em Curitiba.


A idéia da profª Simone Cit partiu da obra de Prokofiev - Pedro e o lobo. Uma fábula musical, na qual cada personagem da história corresponde ao som de um instrumento da orquestra. O menino Pedro parte à caça do lobo que aterroriza a aldeia, seguido e ajudado por alguns dos animais da fazenda. A obra musical com orquestra e narrador vem sendo usada como importante ferramenta pedagógica para colocar as crianças em contato com o mundo dos sons da orquestra.

Simone Cit fez uma paródia, onde o lobo foi substituído pelo Animal. O jovem Pedro, ao invés de habitante das estepes eurasiáticas, agora é um jovem suburbano do Brasil. O Animal da história é uma referência ao apelido de Alexandre Gonçalves Pinto, autor de Reminescências de chorões antigos, livro publicado no início do século XX, e que até agora continua uma das principais fontes para conhecer o mundo do choro da virada dos séculos XIX e XX.

Tendo a idéia da paródia, o passo seguinte foi a pesquisa de repertório. Encontrar obras clássicas do repertório do choro que fizessem referência a animais. Definido o repertório, Simone Cit construiu uma nova história, em que Pedro escuta sobre o Animal, imagina um monstro terrível, segue em sua busca sempre ajudado por um grupo crescente de bichos que se agregam ao grupo, e termina por descobrir que Animal era apenas o apelido do carteiro, também músico de choro.

Cada animalzinho da história toca um instrumento musical. E corresponde a uma das obras do repertório selecionado. A história é ilustrada por Freekje Veld. A narração e as vozes cantadas infantis são gravadas por crianças de Curitiba. Os choros são reconstituídos pelos fabulosos arranjos de Roberto Gnattali, produzindo e dirigindo o trabalho de músicos que dispensam apresentação, entre eles: Andrea Ernst Dias (flautim), Naomi Kunamoto (flauta), Luis Carlos Justi (oboé), Aloysio Fagerlande (fagote), Oscar Bolão (percussão), Maria Teresa Madeira (piano), Jayme Vignoli (cavaquinho).

A edição é da autora, com patrocínio da Petrobras. A obra se destina ao trabalho dos professores da rede regular de ensino, parte de um projeto maior que a autora vem desenvolvendo, destinado a produzir material didático para apoiar o uso da música popular brasileira como ferramenta educacional. Neste sentido, foi também o outro projeto semelhante da autora: Histórias da música popular brasileira para crianças. Ambos os livros são ilustrados e acompanhados de CD com as gravações.

O lançamento em Curitiba foi no Beto Batata.


Estiveram presentes alguns dos que participaram nas gravações:



O repertório que compõe Pedro e o choro é:

Amigo Pedro (Radamés Gnattali)
Gatinhos no piano (Radamés Gnattali)
Tico-tico no fubá (Zequinha de Abreu)
Marreco quer água (Pixinguinha)
Relógio da vovó (Garoto)
A ronda do Animal (Roberto Gnattali)
Pé-ante-pé (Radamés Gnattali)
Urubu malandro (anônimo)
O vôo da mosca (Jacob do Bandolim)
Camundongo (Waldir Azevedo)
Aí morcego! (Irineu de Almeida)
Pula sapo (Pixinguinha)
Menina da bicicleta (Simone Cit)
Jorrando sem parar (Hermeto Pascoal)
Marcha dos caçadores (João de Barro "Braguinha")

De certa forma, a história parodia também outras histórias musicais infantis, como Os músicos de Brehmen, e a história da festa no céu, na qual o sapo entra escondido dentro do violão.

Algumas das músicas listadas acima foram compostas ou readaptadas especialmente para este projeto, caso das composições de Roberto Gnattali, da própria Simone Cit, e de Hermeto Pascoal que atendeu à encomenda especial da autora.


As fotos do dia do lançamento foram tiradas pela Maris, a quem agradeço.

O contato da autora, para encomenda de livros é materiadesom@yahoo.com.br

O material já esta sendo trabalhado em um projeto da FAP (onde Simone é professora) no Universidade sem Fronteiras, capacitando professores da rede pública de ensino para o uso do material.

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segunda-feira, 9 de junho de 2008

Música como disciplina curricular

Recebi esta notícia por e-mail:

Comissão da Câmara aprova por unanimidade Projeto de Lei pela volta da educação musical na educação básica.

O Projeto de Lei 2732/2008, com relatoria do Dep. Frank Aguiar, que determina a obrigatoriedade do ensino musical na educação básica, foi aprovado hoje, dia 28 de maio, ao meio-dia, por unanimidade pela Comissão da Educação, Cultura e Desporto da Câmara dos Deputados. Para ter valor de lei, falta apenas a votação na Comissão de Constituição de Justiça, o que deve acontecer entre uma semana e 15 dias. A votação foi acompanhada pelo Grupo de Articulação Parlamentar Pró-Música (GAP), que é formado por 86 entidades, como universidades, associações e cooperativas de músicos. O Projeto de Lei é fruto de uma mobilização desse grupo.

O Projeto, originado no Senado sob o número 330/2006, é de autoria de Roseana Sarney (PMDB-MA) e relatoria de Marisa Serrano (PSDB-MT). Contou também com o apoio da Comissão de Educação, através dos senadores Roberto Saturnino, Sérgio Zambiasi, Romeu Tuma, Cristóvam Buarque, Juvêncio da Fonseca e Leonel Pavan. A aprovação no Senado também foi unânime.

O ensino de música nas escolas foi retirado do currículo na década de 1970. Com seu retorno, a idéia não é formar músicos profissionais, mas sim um reconhecimento dos benefícios que esse ensino pode trazer para o desenvolvimento e a sociabilidade das crianças.

(Grupo de Articulação Parlamentar Pró Música)

Confira o texto da Relatoria.


O projeto estava em discussão há tempos. Pelo que entendi não precisa passar pelo plenário da casa (se não isso demoraria anos para ser implantado) nem esperar sanção presidencial.

Somado à notícia da implantação da Filosofia e da Sociologia no Ensino Médio, podemos esperar uma geração muito melhor educada vindo por aí.

Só que a aprovação das leis não é o último passo. É apenas o primeiro. Agora é preciso formar professores, desenvolver material didático, um monte de questões práticas.

Por isso, acho que este movimento não vai para por aqui.

Filosofia e Sociologia no Ensino Médio

Fiquei sabendo da notícia pelo Idelber Avelar, que apoia fortemente a medida. Agora é lei - o Ensino Médio incluirá as disciplinas de Sociologia e Filosofia.

Este blog também é a favor.

O próprio Idelber dá lá os links de quem é contra a medida. Inclusive um certo colunista da Veja, que afinal é uma revista acima de qualquer suspeita de doutrinação ideológica. Parece que vai se repetir uma ladainha mentirosa já iniciada pelo chefe de jornalismo da Globo, conforme relata o mesmo Idelber, a respeito do caso de um livro didático de história.

O mesmo discurso falso está no texto Doutrinação barata, escrito por Nelson Ascher para a página E6 do caderno Ilustrada da Folha de hoje. Quando comecei a ler jornais, a Folha não seguia o mesmo caminho de Veja e Globo, mantinha-se um nível jornalístico acima. Faz tempo que já não é mais assim. Tá certo que o texto é uma opinião assinada - e não a opinião do jornal. O mesmo se poderia dizer do Reinaldo Azevedo, ou talvez das falas do Arnaldo Jabor. Alguém acredita que estes caras tem opinião própria? Eles são muito bem pagos para escrever editoriais assinados, livrando a cara dos editores.

Ao que me parece, o Nelson Ascher é médico. Entende muito de educação, filosofia ou sociologia, portanto. Usa uma história pessoal, mostrando como aprendeu a gostar de Dostoievski sem ter aulas de literatura estrangeira no Ensino Médio. E afirma que não se lembra mais do que memorizou dos conteúdos escolares oficiais. Conta que estudou "num dos melhores colégios de São Paulo", que "sabia maximizar nossa capacidade de memorizar", pois ele os colegas passaram em concorridos vestibulares.

Ele provavelmente não sabe, mas faz tempo que a escola não serve mais para "maximizar capcidade de memorização". Para isso temos computadores. Escola serve para preparar para a vida, para as relações humanas, para o aprendizado contínuo, para a construção do conhecimento. Se Sociologia e Filosofia não servirem para isso, não sei o que servirá. Ascher queixa-se de que esqueceu o aprendido em matérias "rigorosas e/ou factuais: trigonometria e geometria analítica, ótica e química orgânica". Estas matérias poderiam ser dispensadas do Ensino Médio e ficar para vestibulares vocacionais das áreas técnicas. Já um engenheiro ou um médico que sabe bem as tais "matérias factuais" pode ser um péssimo profissional (temos deles aos montes por aí) por não saber construir relações humanas, respeitar as diferenças, trabalhar de forma cooperada por um mundo melhor.

Afinal, a melhor doutrinação ideológica que se pode fazer com os estudantes é justamente a que já temos de sobra: sonegar-lhes formação cultural, para que continuem sendo escravos. A certos interesses não vai bem uma formação humanística mais ampla - afinal, pessoas que pensam dão mais trabalho. Não acreditam em tudo que lêem nos jornais ou vêem na televisão...