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sexta-feira, 8 de maio de 2009

Quando Schoenberg inventou o dodecafonismo

Esclarecimento: este texto é antigo, existe um mais completo e atualizado em http://andreegg.org/2020/04/14/schoenberg-do-inicio-da-carreira-ao-dodecafonismo/

Arnold Schoenberg (1874-1951) é um dos mais proeminentes compositores no panteão da música ocidental. Fortemente ligado à tradição germânica moderna, simbolizada pelos três "B": Bach - Beethoven - Brahms. Foi quem assumiu a responsabilidade pela liderança intelectual da questão mais premente para a filosofia da composição musical no início do século XX: como continuar compondo música segundo a tradição ocidental agora que o seu principal eixo estrutural, o sistema tonal, tinha-se dissolvido. Durante os primeiros anos do século XX Schoenberg compôs obras que hoje classificamos como "atonalismo livre". Este conceito tenta dar sentido a uma prática que abandonou as hierarquias tonais. Não mais uma família de 7 notas centradas na polarização entre tônica e dominante. Agora o total cromático de 12 notas passava a ser usado como se todas tivessem a mesma importância. Com as obras que compôs neste período inicial do século XX, Schoenberg transformou-se no principal nome da nova geração. Mesmo atonais, tornaram-se verdadeiros clássicos, e continuam até hoje obrigatórios no repertório de concerto: Verklärte Nacht (Noite transfigurada) - sexteto para cordas - Op. 4 - 1899 Pelleas und Melisande - Poema sinfônico - Op. 5 - 1903 Sinfonia de Câmera - Op. 9 - 1906 15 poemas do Livro dos Jardins Suspensos de Stefan George - Op. 15 - 1909 5 Peças orquestrais - Op. 16 - 1909 Erwartung (A espera) - monodrama em um ato para soprano e orquestra - Op. 17 - 1909 Die Gluckliche Hand (A mão "sortuda") - drama em música para vozes e orquestra - Op . 18 - 1910 6 Pequenas peças para piano - Op. 19 - 1911 Hertzgewächse - para soprano - Op. 20 - 1911 Gurrelieder - conjunto de canções sinfônicas compostas entre 1901-1911 Pierrot Lunaire - cantata cênica para voz e conjunto de câmera - Op. 21 - 1912 Especialmente o período entre 1909 e 1912 foi de uma grande concentração de obras-primas, uma fantástica explosão criativa. O Pierrot Lunaire pode ser considerado como uma das obras mais influentes para a música do século XX. Em contraste com as obras anteriores, em geral para grandes conjuntos instrumentais, o Pierrot Lunaire precisava apenas de um punhado de músicos e um cantor-recitante. Para esta obra Schoenberg trouxe toda sua experiência com os cabarés literários de Berlim. Isso proporcionou que a obra fosse executada em turnê por todas as principais cidades européias, com uma exclente receptividade de um público propenso às experiências de vanguarda. Esta obra marcou também o esgotamento criativo de Schoenberg, que teve sua vida musical interrompida pela Guerra de 1914-1919. Entre 1912 e 1920 Schoenberg não conseguia concluir nenhuma composição. Tinha chegado ao fim sua verve para criar sem um sistema teórico consistente. A liberdade criativa do atonalismo tinha chegado a um beco: a ausência de sistema era para Schoenberg um severo limitador criativo. Devido a isso, quase como uma conseqüência lógica de toda tradição tonal da qual se sentia continuador, Schoenberg sistematizou em 1921 a técnica dodecafônica. Ao publicar a Suíte para piano Op.25, Schoenberg estava lançando a teoria composicional mais polêmica do século - talvez de todos os séculos. Doravante passaria a compor pelo seguinte processo: 1) cria uma série de 12 notas, usando todas as 12 notas do total cromático. A série não repete nenhuma nota. Não há distinção de enarmonia ou de tessitura. Evitam-se os intervalos capazes de sugerir relações tonais ou acordes diatônicos. 2) a partir da série original, cria uma série invertida (repetindo os mesmos intervalos na direção oposta), uma série retrogradada (de trás para frente) e outra retrogradada da inversão (a invertida de trás para frente). Transpõe as quatro formas da série para todas as 12 alturas existentes, obtendo um total de 48 formas possíveis. Elas podem ser colocada numa tabela chamada de matriz serial. 3) a partir das formas da série disponíveis, faz a composição musical. O processo (1) é de fundamental importância, no sentido em que a série funciona como os antigos temas musicais, e será a base de um processo de desenvolvimeno temático. Todas as relações harmônicas da composição irão derivar da série, uma vez que as simultaneidades sonoras serão todas derivadas da superposição de diferentes formas da série num trabalho de contraponto. O processo (2) é totalmente mecânico, e hoje é feito por computador O processo (3) é totalmente criativo. A observação de várias obras de Schoenberg e de outros compositores torna ridículas as acusações de que o dodecafonismo impede a criatividade do compositor por ser "muito matemático". Eis a série do Op. 25 (clique para ampliar): Aqui, no Aula Contemporánea, tem a matriz serial. E links que não funcionam para a gravação e a paritura da obra. Um software para calcular on-line uma matriz serial está aqui. (Também uma dica do Aula Contemporánea) A seguir, vídeos da Suíte Op. 25 no youtube, executadas por um dos maiores especialistas em música de vanguarda - Glenn Gould. . Veja também: Dodecafonismo em Schoenberg, Webern, Berg e Guerra Peixe Stravinski - Sagração da Primavera A carta aberta de Camargo Guarnieri .

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Stravinski - Sagração da Primavera

Esclarecimento: este texto é antigo - existe um mais atual e mais completo em http://andreegg.org/2020/05/16/stravinski-da-vanguarda-ao-neoclassicismo/ 

Esta peça é uma das mais importantes obras musicais já escritas. Os críticos e historiadores são unânimes em considerá-la uma obra de grande impacto, quando de sua estréia em 1913. O compositor Igor Stravinski (1882-1971) é considerado por muitos como o compositor mais significativo do século XX. A Sagração é o terceiro balé de uma série composta para ser encenada em Paris, pela companhia Os balés russos de Diaghilev. Os primeiros dois foram O pássaro de fogo e Petrouschka ("Pedrinho" em russo). É a obra mais inovadora de Stravinski, no sentido de rompimento com a tradição musical do século XIX. A obra é atonal (não se baseia nas tonalidades maior e menor que imperaram na música ocidental desde o início do século XVIII), foge à rítmica tradicional do pulso e do compasso e representou uma grande inovação em relação às técnicas de orquestração do século XIX (a escolha dos instrumentos musicais que tocam cada parte - Stravinski privilegia os sopros, e usa as cordas quase como instrumentos de percussão). Para o público de balés, acostumado a obras mais tradicionais (em termos de construção harmônica, orquestração e, principalmente, elementos rítmicos) - como os balés de Tchaikovski, a encenação da obra de Stravinski foi um escândalo. Depois da composição desta obra, Stravinski tomou rumos mais tranqüilos em seu estilo de composição, passando a uma fase chamada neo-clássica (décadas de 1920-1950), onde retomava com ironia os procedimentos harmônicos setecentistas. Somente na década de 1950 o compositor voltaria a escrever obras tão radicais como a Sagração. Mesmo sendo uma obra de 1913, a Sagração continua a ser uma obra radical, moderna, e - porque não dizer - continua escandalizando o público não acostumado a expressões artísticas de vanguarda. Existem miríades de gravações desta peça. Mas hoje a maravilha que é a internet e a disponibilização de trabalhos através dela nos permite algumas descobertas. A San Francisco Synphony e seu regente Michael Tilson Thomas fizeram um trabalho educativo. Clicando aqui você irá para a página em que a obra de Stravinski é destrinchada. Escolhendo a opção A riotous premiere você acessa um documentário (em inglês) sobre os envolvidos na criação da obra: Stravinski (música), Nicolas Roerich (argumento), Nijinski (coreografia), Diaghilev (produção). Escolhendo a opção Explore the score você acompanha a execução de trechos enquanto observa a partitura orquestral em animação. Também é muito interessante assistir à obra completa - música e coreografia. Tempos atrás, fez-se uma reconstituição da coreografia original de Nijinski, com base nos depoimentos de uma dançarina que fez parte da encenação de 1913. Este balé é realmente uma experiência impressionante, com o vigor da música correspondido por uma coreografia igualmente poderosa. Abaixo os vídeos no youtube, em três partes: Tanto o trabalho da San Francisco Synphony como os vídeos do youtube descobri através do excelente verbete da wikipedia em inglês. .