Mostrando postagens com marcador cinema e política. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cinema e política. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 2 de abril de 2009

O mesmo amor a mesma chuva - e o caso da imprensa argentina

.

Li um post do Idelber Avelar sobre o projeto de lei que muda a regulmantação da atividade da imprensa na Argentina e me lembrei de um filme que já assisti faz um tempo: O mesmo amor a mesma chuva.

O filme já tem uma bela resenha no antigo blog do Maurício Santoro. O diretor, Juan José Campanella, estudou cinema nos EUA, dirigiu séries de TV e acertou a mão no cinema principalmente com O filho da noiva (2001), com o mesmo Ricardo Darín no papel principal.

O mesmo amor a mesma chuva, de 1999, não é, no meu entender, tão bom quanto O filho da noiva, que vi no cinema e que fez merecido sucesso (se você ainda não viu não perca tempo). Mas é um filme muito interessante e bem feito, que valeu muito a pena de ser assistido.

As relações humanas são muito bem exploradas no filme (acho que isso é a qualidade que mais me atrai em qualquer filme, talvez junto com a qualidade estética de fotografia, direção, trilha sonora, roteiro, etc.). Não apenas a paixão improvável dos personagens principais, mas, especialmente, as relações de trabalho dentro de um órgão de imprensa argentino - fictício, que fique bem claro.

Mas realístico. É na Argentina, mas podia ser no Brasil ou em qualquer outro lugar. Muito instrutivo para quem quer saber com quantos paus se faz uma notícia ou uma crítica de arte em jornais e revistas.

E é por isso que a leitura do post do Idelber me remeteu ao filme...



P.S. Não achei um trailler do filme, mas tem muitos trechos dele no youtube, para quem tiver curiosidade.

.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Zuzu Angel

Uma jovem mãe, separada do marido, com três filhos pequenos para criar. Costura para sustentar a família, mas aos poucos torna-se uma grande estilista de sucesso internacional.

Enquanto isso, durante os “anos de chumbo” do regime militar, seu filho Stuart entra no movimento estudantil e, em seguida, na luta armada e na clandestinidade. Participa do grupo de Carlos Lamarca (o filme não menciona a sigla, mas que eu me lembre é VPR – Vanguarda Popular Revolucionária), termina preso, torturado, morto e tem o corpo jogado ao mar.

Em torno desta tragédia pessoal (e de toda um geração), se passa a narrativa do filme. A luta política de uma mãe para encontrar o filho, garantir sua integridade. Depois de receber a notícia de sua morte, a luta para ter o direito de sepultá-lo e para ver condenados os assassinos de Estado.

O tema é tão melindroso, e ao mesmo tempo rico, que permite ótimos trabalhos artísticos. Lembro de outros que já ficaram clássicos sobre a luta armada no cinema brasileiro: O que é isso companheiro e Lamarca, o capitão da guerrilha. Zuzu Angel está à altura de ambos. É grande cinema, como já estamos ficando acostumados a ver sendo feito no Brasil da última década. É um filme digno da memória de uma mulher de fibra, e digno da luta de uma geração por justiça social e democracia.

O drama de Zuzu é embalado pela belíssima trilha sonora de Cristóvão Bastos, um dos grandes músicos brasileiros, por muito tempo arranjador e líder da banda de Chico Buarque. Imagino que 80 por cento do clima psicológico criado pelo filme é de responsabilidade da trilha sonora.

Enfim, é cinema profissional. Cenários, figurinos, atores, fotografia, direção – tudo de alto nível. E aquela qualidade que só o cinema nacional proporciona: o reconhecer-se na tela, nas paisagens, nas falas dos personagens, nas histórias vividas e narradas.

Mas como o filme trata de um tema histórico de absoluta relevância, não posso deixar de fazer uma leitura da história do Brasil a partir dos eventos que o filme traz. Me parece que há uma clara dicotomia neste filme, e em todos que tratam da luta armada contra o regime militar. Como não existe cineasta disposto a elogiar os milicos, a história será sempre uma glorificação dos jovens quixotescos que tentaram lutar por justiça social, fazer a revolução brasileira.

Mas nesta história não há tanta clareza sobre quem são os mocinhos e quem são os bandidos. Acredito que o cinema brasileiro vai dar mostras de amadurecimento quando puder tratar este tema sem glamourizar a guerrilha e demonizar a “ditadura”. Coloco o termo entre aspas porque sociologicamente incorreto. Não houve ditadura. Houve governantes militares, com congresso funcionando, eleições (não sei se eram menos livres que as que temos hoje), judiciário (era tão conservador como continua sendo) e, obviamente, amplo apoio popular.

Por outro lado, a luta armada era uma dissidência minoritária da esquerda no país. Uma estratégia política burra que serviu para justificar o endurecimento do regime militar, suas arbitrariedades e torturas. Afinal, o “perigo vermelho” era uma ameaça real, intolerável para as classes dominantes do Brasil.

Não deixaria de ser um exercício útil pensar como seria o regime político caso os stalinistas do PCdoB (e de outros grupelhos dissidentes) tivessem tomado o poder do Estado. Para os que tentam vender a imagem de uma esquerda feita de jovens idealistas seria talvez o mundo da justiça e da solução dos problemas sociais do país. Os exemplos que embalavam os sonhos destes jovens (União Soviética, China e Cuba) talvez sejam um bom modelo para reflexão.

Pergunto: quando o cinema nacional vai aprender com Caetano Veloso e outros artistas da época, e colocar a juventude comunista no merecido lugar histórico? Afinal, idealizar este tipo de passado não traz grandes benefícios para nosso futuro.