.
Interrompo o silêncio sepulcral que acomete este blog para reproduzir aqui um trecho da resposta do prof. Kabenguele Munanga a Demétrio Magnoli.
Tive aulas de Antropologia Física com um dos melhores biólogos e geneticistas franceses, Jean Hiernaux. Uma das primeiras coisas que ele me ensinou era que a raça não existe biologicamente. Através de suas aulas, li François Jacob, Nobel de Fisiologia (1965) e um dos primeiros franceses a decretar que a raça pura não existe biologicamente; e J.Ruffie, Albert Jacquard e tantos outros geneticistas antirracistas dessa época. Portanto, sei muito bem, e bem antes de Demétrio que o racismo não pode ter mais sustentação científica com base na noção das raças superiores e inferiores, que não existem biologicamente. Sei muito bem que o conteúdo da raça enquanto construção é social e político. Ou seja, a realidade da raça é social e política porque tivemos na história da humanidade povos e milhões de seres humanos que foram mortos e dominados com justificativa nas pretensas diferenças biológicas. Temos em nosso cotidiano, pessoas discriminadas em diversos setores da vida nacional porque apresentam cor da pele diferente. Nosso sistema educativo é eurocêntrico e nossos livros didáticos são repletos de preconceitos por causa das diferenças. Não sou um novato que ingressou ontem na universidade brasileira. No Brasil, fui introduzido ao pensamento racial nacional por grandes mestres, como João Baptista Borges Pereira, que foi meu orientador no doutoramento, Florestan Fernandes, Octavio Ianni, Oracy Nogueira, entre outros. Não sei onde estava Demétrio nessa época e em que ano ele descobriu que a raça não existe. Acho um exagero querer me dar lição de moral sobre coisas que eu conheço muito antes dele.
Quem fez o serviço público de divulgar a resposta, mais uma vez, foi o Idelber Avelar - recomendo fortemente a leitura do texto completo.
Leia também, aqui no blog:
Sobre as cotas raciais
.
Mostrando postagens com marcador questão racial. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador questão racial. Mostrar todas as postagens
domingo, 26 de julho de 2009
segunda-feira, 27 de abril de 2009
Sobre as cotas raciais
.
É muito interessante ouvir um argumento não cretino contrário às cotas raciais. Quem o faz (por enquanto o único que conheço) é o Rafael Galvão. Se mostra desconfortável de estar na mesma posição de gente como Demétrio Magnoli ou Ali Kamel. Critica o argumento a favor das cotas por se basear no exemplo norte-americano, diferente demais do caso brasileiro como bem demonstra o Rafael.
Gostei do texto do Rafael, mas continuo a favor das cotas. O grande problema a enfrentar é como definir um negro. Muito sutil, e presta-se a diversos tipos de problemas. Ao contrário do Rafael, que acredita que as cotas sociais (reserva de vagas a alunos oriundos de escola pública) sejam mais eficientes, acredito que deve existir um tipo de combinação entre cotas raciais e sociais. Vale lembrar que também existem cotas para indígenas nas universidades.
E defendo que as cotas não apenas são justas e eficientes, como é necessário ampliá-las. Um negro com diploma de curso superior continuará a ser preterido na disputa por um emprego. É preciso ter cotas para negros nos concursos públicos e nas candidaturas políticas (já existem cotas para candidaturas femininas).
Mas o mais importante mesmo, é a melhora radical na qualidade dos serviços públicos, que seriam a grande tacada pelo desenvolvimento social e humano. O problema é que os mesmo que negam a validade das cotas (caso do Magnoli e do Kamel, mas não do Rafael) - são os que defendem a redução do papel do Estado e que lutam para continuar aplicando o tipo de cota racial que sempre existiu no Brasil: cotas de 100% para brancos bem-nascidos.
Vale a pena ler também o Alex Castro criticando o livro de Ali Kamel sobre um Brasil não racista.
.
É muito interessante ouvir um argumento não cretino contrário às cotas raciais. Quem o faz (por enquanto o único que conheço) é o Rafael Galvão. Se mostra desconfortável de estar na mesma posição de gente como Demétrio Magnoli ou Ali Kamel. Critica o argumento a favor das cotas por se basear no exemplo norte-americano, diferente demais do caso brasileiro como bem demonstra o Rafael.
Gostei do texto do Rafael, mas continuo a favor das cotas. O grande problema a enfrentar é como definir um negro. Muito sutil, e presta-se a diversos tipos de problemas. Ao contrário do Rafael, que acredita que as cotas sociais (reserva de vagas a alunos oriundos de escola pública) sejam mais eficientes, acredito que deve existir um tipo de combinação entre cotas raciais e sociais. Vale lembrar que também existem cotas para indígenas nas universidades.
E defendo que as cotas não apenas são justas e eficientes, como é necessário ampliá-las. Um negro com diploma de curso superior continuará a ser preterido na disputa por um emprego. É preciso ter cotas para negros nos concursos públicos e nas candidaturas políticas (já existem cotas para candidaturas femininas).
Mas o mais importante mesmo, é a melhora radical na qualidade dos serviços públicos, que seriam a grande tacada pelo desenvolvimento social e humano. O problema é que os mesmo que negam a validade das cotas (caso do Magnoli e do Kamel, mas não do Rafael) - são os que defendem a redução do papel do Estado e que lutam para continuar aplicando o tipo de cota racial que sempre existiu no Brasil: cotas de 100% para brancos bem-nascidos.
Vale a pena ler também o Alex Castro criticando o livro de Ali Kamel sobre um Brasil não racista.
.
Marcadores:
Brasil,
política,
questão racial,
responsabilidade social
Assinar:
Postagens (Atom)