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segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Na senzala uma flor

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Já publiquei isso antes aqui no blog, mas como tinha sido em três partes sem os devidos links de ligação, acho que alguns leitores saíram prejudicados. Agora conserto a besteira.


SLENES, Robert. Na senzala uma flor. Esperanças e recordações na formação da família escrava – Brasil. Sudeste, século XIX. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.


Eu li este livro como parte da minha preparação para o exame de seleção do mestrado em História da UFPR, em 2001. Àquela época o livro estava esgotado, ignoro se teve nova edição.

Trata-se de um livro já clássico, que originou uma série de debates na historiografia sobre a escravidão. O historiador Jacob Gorender, militante do partido comunista, foi o que mais se opôs à tese de Slenes, considerando que ela contribuía para “suavizar” a escravidão. Historiadores que pesquisam a escravidão se juntaram a Slenes e fizeram severas críticas a Gorender, pelo fato de ele nunca ter pesquisado diretamente com fontes em arquivos.

À parte as polêmicas que todas as novas interpretações costumam causar em relação a interpretações estabelecidas, trabalhos como o de Slenes têm servido para trazer uma nova concepção da cultura brasileira, especialmente no que toca à influência das classes populares, ainda considervelmente subdimensionada.

Faço aqui no blog uma resenha em três partes, seguindo o roteiro de estudo que fiz quando li o livro para a prova do mestrado:



A família escrava


Um viajante francês do século XIX afirma não ter visto nenhuma flor nas senzalas brasileiras, julgando por isso não haver esperanças nem recordações, e até mesmo negava a exsitência da família no meio dos escravos.

O título da obra de Slenes é a negação da afirmativa deste viajante. Através de sua pesquisa o autor comprova a existência da família escrava, formada por marido e mulher, com filhos morando com o casal, que possui sua própria casa e até uma atividade econômica independente (caça e pesca, criação de animais, cultivo de roça, trabalho assalariado nos dias de folga, artesanato), que lhe permite economizar para melhorar o padrão de vida e até comprar sua liberdade em alguns casos.

Slenes também compara as habitações dos escravos com as da África Central (origem da maioria deles, demonstrando as permanências culturais africanas na arquitetura das habitações e no hábito de ter sempre dentro delas um fogo aceso. Para o autor, é este fogo aceso a flor que o viajante europeu não foi capaz de enxergar nas senzalas.

Com este estudo, Slenes demonstrou que a escravidão no Brasil não pode ser vista apenas como um imposição dos senhores, mas construiu-se um sistema de relações negociado. Os escravos conquistaram um espaço familiar que, apesar de precário e instável, não foi irrelevante. Em meio aos sofrimentos da escravidão, os negros conseguiram formar famílias, nas quais cultivaram suas esperanças (refletidas na sua dedicação à economia doméstica) e recordações (a manutenção e adaptação de importantes traços culturais comuns às sociedades bantus da região do Congo e Angola).



Arquivos e fontes sobre a escravidão


Slenes trabalhou na sua pesquisa com fontes primárias e secundárias. As primárias foram as que ele usou para traçar os padrões demográficos dos escravos do Sudeste do Brasil no século XIX. São registros de casamento e batismo de escravos, inventários pós-morte de fazendeiros (que incluíam a relação de escravos – arrolados entre os “bens” do senhor), processos-crime, anúncios de fuga de escravos nos jornais. Com estas fontes, pesquisadas em Campinas, Sorocaba e Vassouras (RJ), ele deduz percentagens de africanos entre os escravos (haviam os trazidos da África e os nascidos aqui), de homens, de casados, taxas de mortalidade, expectativa de vida, etc.

Comparando os dados obtidos com os resultados de outros pesquisadores para outros municípios do sudeste no mesmo período, o autor faz generalizações possíveis para obter um padrão regional. Com isto ele comprovou a existência de uma família escrava, composta de pai, mãe e filhos.

Outro tipo de fonte primária são os relatos de viajantes europeus, recordações de fazendeiros e imagens literárias da época (romances). Dessas fontes o autor tira a visão branca sobre a escravidão. Comparando com os resultados dos estudos demográficos, Slenes demonstra o quanto esta visão branca é etnocêntrica, distorcida e pouco confiável (como aliás qualquer fonte histórica – que deve ser tratada com o devido treino e muitos cuidados). Uma análise mais profunda pode ler nas entrelinhas informações importantes sobre a cultura negra: padrão de construção das senzalas, alimentação, economia doméstica.

Comparando estas observações de viajantes com estudos etnológicos de sociedades centro-africanas (fontes secundárias), Slenes traçou um panorama da cultura escrava, demonstrando as permanências culturais na família cativa e suas estratégias de resistência.



A história dos vencidos


A partir da década de 1970 houve uma explosão de estudos de historiadores dedicados à vida e à cultura das classes subalternas, dos trabalhadores pobres: operários no caso europeu e escravos no caso do continente americano. Estes trabalhadores foram sempre a classe inferiorizada na estrutura social, e não conseguiram sequer perpetuar sua memória pela produção de documentos escritos. Por causa disso, eles foram quase sempre classes “invisíveis” para o historiador.

O que mudou este estado de “cegueira” em relação às classes trabalhadoras, e causou a explosão de estudos sobre história operária e história da escravidão, foi o trabalho seminal do historiador inglês E. P. Thompson. Em meados da década de 1960 ele publicou sua Formação da classe operária inglesa, em 3 volumes. Escreverei sobre esta obra em outro post, mas devo dizer aqui que foi Thompson começou uma nova metodologia, qual seja ler a história dos vencidos nos documentos produzidos pelos vencedores.

Foi isso que fez Slenes, seguindo a tradição metodológica inaugurada por Thompson no estudo dos operários ingleses do início do século XIX.. Ler processos criminais onde os escravos depõem como réus, inventários de fazendeiros onde eles aparecem como mercadorias, documentos de batismo e casamento onde eles aparecem por acaso, e relatos de viajantes onde os escravos despertam sentimentos mistos de compaixão e desprezo, lançados de um olhar que se julga culturalmente superior. Ler nestes documentos a visão do escravo, que não está ali, precisa ser descoberta nas entrelinhas. Tudo isso para compensar a completa ausência de documentos ou memórias produzidos pelos próprios escravos.

O estudo de Slenes, bem como os trabalhos de outros historiadores que seguiram esta mesma tradição historiográfica, levou a uma mudança de paradigma. Os trabalhadores pobres (ou os escravos) deixaram de ser vistos como seres passivos, e passaram a ser vistos como agentes históricos importantes, com uma cultura própria, que se chocaram e interagiram com outros agentes e com a cultura dominante.

Além desta corrente thompsoniana de estudo das classes trabalhadoras, o estudo de Slenes também segue uma outra tradição historiográfica originada na Nova História praticada pelos franceses: a demografia histórica. Trata-se da reconstituição de padrões populacionais, organização das famílias, estratégias reprodutivas, espectativa de vida. Esta é uma abordagem quantitativa, obtida através da chamada história serial – aquela que se faz pela coleta de dados de mesmo padrão, num mesmo arquivo, de uma mesma localidade, para diferentes datas. Este tipo de estudo permite traçar a evolução da população local por um determinado período de tempo. (Não é à toa que esta abordagem surgiu na França – lá existem séries de documentos eclesiásticos sobre nascimentos, batismos e sepultamentos com séries confiáveis que remontam ao século XII!)

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sábado, 6 de outubro de 2007

José Carlos Barbosa analisa relação dos protestantes com escravidão

Barbosa, José Carlos. Negro não entra na igreja, espia da banda de fora. Protestantismo e escravidão no Brasil Império. Piracicaba: Editora UNIMEP, 2002.

O autor faz necessário e corajoso trabalho, como se pode ver pela introdução do livro (que postei aí embaixo). Vai aos documentos produzidos pelos protestantes ao chegaren no Brasil no século XIX e descobre qual sua atitude em relação à escravidão e quais as motivações para isso. O livro faz uma síntese histórica da chegada dos protestantes no país e das estratégias usadas para implementar a nova religião entre a população brasileira.
Faz uma opção metodológica por trabalhar apenas com o chamado "protestantismo de missão", aquele implantado principalmente por norte-americanos e voltado para a conversão de brasileiros. Deixou de fora assim o chamado "protestantismo de imigração", anglicano, luterano e reformado, voltado para comunidades isoladas de imigrantes ingleses, alemães ou suíços. A justificativa é metodológica, também pelas dificuldades com a extensão da documentação a ser consultada, mas principalmente pelo fato de que os imigrantes protestantes isolaram-se em suas comunidades e não procuraram influenciar o país ao qual estavam chegando. Não tentaram converter niguém, nem implantar sua religião de forma efetiva no país. Desejavam apenas viver em paz com sua consciência religiosa em suas comunidades normalmente fechadas.
Mas há uma idéia subjacente ao autor, de cobrar mais daqueles que se postulam como os portadores do verdadeiro evangelho. Aqueles que proclamavam vir implantar a verdadeira igreja de Cristo, e que consideravam que católicos e imigrantes protestantes europeus não eram verdadeiros cristãos, por não serem adeptos à visão pietista do evangelho, baseada na conversão pessoal.
O livro demistifica esta mesma idéia, ao demonstrar que os missionários estavam apenas preocupados com a implantação de suas instituições, e passaram longe de viver na prático o evangelho. Se não interessava desagradar os senhores de escravos para não atrapalhar a implantação do protestantismo, mesmo os missionários yankees (portanto abolicionistas) deixavam de lado a questão do escravo. Mas o grosso dos missionários e das igrejas protestantes implantadas no século XIX no Brasil vieram dos confederados do Sul dos EUA. Derrotados na Guerra da Secessão (1861-65) eles vieram buscar um país onde pudessem continuar o que eram: grandes proprietários de terras e senhores de escravos, com o beneplácito das igrejas oriundas da sua região.
Assim, o autor demonstra como foram encontradas várias justificativas teológicas para a escravidão. Umas pelos protestantes do sul dos EUA, na sua disputa contra os abolicionstas do norte, que foram repetidas no Brasil. Outras desenvolvidas conforme a realidade local, colocando a estratégia de implantação de igrejas acima do questionamento de estruturas injustas. Qualquer semelhança com o que fazemos hoje como evangélicos não é mera coincidência.
Livro básico e indispensável para entender o protestantismo no Brasil. Apenas sinto falta de um diálogo com a bibliografia especializada em política do Brasil Império e no movimento abolicionista. O autor praticou um sectarismo acadêmico típico dos evangélicos. Preferiu consultar documentação antiga e bibliografia recente produzidas por autores protestantes, ignorando o que os "incrédulos" já escreveram sobre o tema.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Refugiados em sua própria terra

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Este post é parte de uma blogagem coletiva, promovida pelo portal Blog Catalog - o tema é Unidos para reunir os refugiados. (Tem uma chamada aí do lado)

A proposta era de buscar informação sobre refugiados. O portal deu vários links para páginas em inglês de organismos que trabalham com refugiados pelo mundo.

Não li nada disso por falta de tempo. Certamente, se eu fosse um blogueiro sueco, suíço, finlandês ou canadense, certamente procuraria um organismo que trabalha com refugiados no Sudão ou na Somália, ou na Palestina, ou em outros países com problemas crônicos de refugiados.

Mas não vivo num país com altos índices de desenvolvimento humano e coesão social. Vivo num país de extremos, onde a riqueza e a tecnologia convivem com o atraso, a miséria e a ignorância. Num país em estado crônico de anomia social.

Um país onde abundam os refugiados em sua própria terra.

Desde nosso processo de colonização, nosso sistema econômico foi baseado no latifúndio dedicado à monocultura exportadora. Os senhores da terra mandam e desmandam, sobre agregados e escravos. O povo do meu país é feito de gente que não tem seu lugar.

Gente que não tem terra. Filhos de quem nunca teve terra. Gente que migrou de uma região para outra do país, procurando o coronel mais magnânimo, que permitisse o uso de uma pequena fatia de suas terra para culturas de subsistência. Gente que nunca se apegou a terra por que podia ser despejado do dia para a noite, mesmo que isso significasse perder as colheitas maduras.

Quem quiser saber um pouco do cotidiano deste trabalhador desgraçado leia o romance Seara vermelha de Jorge Amado.

O livro conta a saga de famílias que, cansadas de migrar de uma terra à outra, resolveram migrar para o mundo das novas oportunidades: sumpaulo. A metrópole industrial. Mas poderia ser também Rio de Janeiro. Ou Porto Alegre, ou Santos. Ou Belo Horizonte ou Curitiba (a partir da década de 1970). Ou (mais recentemente) Brasília, Salvador, Recife, Fortaleza.

De refugiados em terras que nunca foram nem seriam suas, os brasileiros foram ser refugiados em cidades que não são nem nunca serão suas.

Sem o direito à moradia digna, acumulam-se em subúrbios fétidos onde grassa a violência. Onde diariamente matamos nossa juventude, sem esperança e sem futuro. Onde ninguém é dono de seu canto. Onde não existe rede de esgoto ou água tratada. Onde a energia elétrica é clandestina.

Ou em área de encosta ou em domínio de rio. Esperando para ver se sobrevive à próxima enchente ou ao próximo desabamento.

Em casas unidas umas às outras, onde os incêndios se alastram como se queimassem palha seca.

Onde o Estado não chega. Não há escola ou hospital. Não há oportunidade de cultura ou lazer.

Onde os filhos dos trabalhadores e das trabalhadoras ficam com vizinhos ou irmãos mais velhos porque não há creches.

Onde quem consegue passar dos 18 anos já é velho.

Refugiados em sua própria terra. Habitantes de um país que não é nem nunca será seu. Um país onde os homens bons crescem pisando nos outros. Onde quem pode manda e quem tem juízo obedece. Onde a lei é para os fracos. O país do "sabe com quem está falando?" - como já bem estudou Roberto DaMatta.

Um país onde um operário nordestino pode até chegar a ser presidente. Mas só se for para deixar os tubarões da indústria paulista ou do mercado financeiro continuarem mandando. E recebendo o pagamento dos juros mais altos do planeta.

Um país onde as classes média e alta interditam qualquer debate político que inclua projeto de distribuição de riqueza. Ou distribuição de terra. Ou distribuição de conhecimento. Aqui não se pode falar em distribuição. Só em acumulação.

Em quem não acumula nada é porque é burro ou incompetente ou preguiçoso.

Mas sempre nos resta o consolo de que tem país pior do que o nosso. Aqui na vizinhança do continente. Ou na África ou na Ásia longínquos.

E continuamos sendo um país não de cidadãos, mas de refugiados em sua própria terra.

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sábado, 11 de abril de 2009

A páscoa cristã

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Reza a tradição que a Páscoa foi uma festa judaica instituída por ocasião do Êxodo. Segundo a narrativa do Pentateuco, os hebreus eram cativos no Egito, e seu Deus os libertou assolando os escravizadores com pragas. A última era a morte dos primogênitos, da qual os lares judeus escapariam matando um cordeiro e aspergindo sangue nos umbrais. O Anjo-do-Senhor passaria reto pelas casas que tivessem o sinal. O cordeiro imolado seria comido numa refeição ritual, a qual incluiria os pães sem fermento e as ervas amargas.

Acontece que esses relatos nunca pretenderam ser "históricos". São símbolos religiosos, rituais. Não se sabe se foram escritos no século VIII ou no século V antes da era cristã. Acredito que os hebreus escravos não teriam cordeiros suficientes para uma celebração deste tipo no Egito. Trata-se, na verdade, de instituir a refeição ritual como memória de um momento fundador do passado de um povo - mesmo que ele não tenha existido. Isso não importa.

De qualquer forma, celebrar a páscoa tornou-se um dos ritos mais importantes do judaísmo.

Mas houve um tempo em que um certo herege, um galileu capaz de amealhar seguidores por todos os lados, entrou em Jerusalém com alguns discípulos. Com eles celebrou uma ceia de páscoa sem cordeiro, somente com pão e vinho. Anunciou aos discípulos que morreria naqueles dias, e recomendou-lhes que tomassem aquela refeição ritual em sua memória sempre que se reunissem.

O galileu foi crucificado exatamente nos dias da páscoa. E os seus seguidores passaram a celebrar sua memória por ocasião da festa judaica. Com o passar dos anos, à medida que a presença do Cristo ia ficando distante no tempo, começam a surgir e ser discutidas idéias a respeito da ressureição e da divindade daquele a quem seguiam. Certo era que para os primeiros discípulos ele estava muito vivo, apesar de ter sido morto. Sua morte tinha gravado com fogo seus ensinamentos e seu exemplo nos corações daqueles pobres palestinos.

Algumas gerações depois, aquele movimento espontâneo, radical e herege que tinha sido a comunidade dos discípulos começava a se institucionalizar. Agora um bispado monárquico, não mais uma liderança plural. Agora uma ortodoxia e textos sagrados pelos quais morrer, não mais apenas uma comunidade de fé e amor. Ao invés do igualitarismo radical de antes, hierarquias. Os evangelhos vão sendo escritos entre o final do primeiro século e o início do segundo - quatro foram aceitos como canônicos pela magistratura da igreja, os muitos outros existentes foram recusados por vários motivos. Conhecê-los (o que já é possível hoje) diz muito sobre essa igreja que surgia.

Do século IV ao VIII os concílios da igreja definiram a doutrina oficial e congelaram uma memória do passado a ser preservada conforme seus interesses institucionais.

Cristo totalmente divino e humano concebido virginalmente do Espírito Santo morreu e ressucitou ao terceiro dia e foi para a destra do pai compondo os três uma única pessoa divina chamada de trindade.

Assim, cristalino e claro.

Questione qualquer um desses pontos e serás morto. Porque desde Agostinho o magistério da igreja é também apoiado pela força do Estado e os hereges tem que ser submetidos ou mortos.

No século XV, quando os Otomanos tomaram Constantinopla, a Itália começou a receber refugiados da igreja grega. Fundam-se academias e o grego antigo é descoberto, passa a ser ensinado. Os ignorantes latinos começam a descobrir a igreja antiga e percebem o quanto se afastaram dela. O lema dos humanistas passa a ser Ad fontes. As escrituras e os pais da igreja antiga, se possível depurados do entulho medieval. Erasmus publica um Novo Testamento grego, a partir do qual Lutero faz sua tradução para o alemão. O motivo? A Vulgata, tradução latina coordenada por Jerônimo no século V era a única versão aceita pela igreja. Mas continha erros grosseiros.

Lorenzo Valla, secretário do papa começou a estudar documentos oficiais para determinar sua autenticidade. Demonstrando a falsidade da Doação de Constantino inaugurou a crítica documental. Disciplina fundamental para o surgimento da história como disciplina acadêmica no século XIX.

A mesma disciplina histórica que começou a ser aplicada pelos luteranos à crítica das Sagradas Escrituras, demonstrando que não podiam ser aceitas como documento histórico confiável, pelo menos não na medida em que vinham sendo usadas pela tradição. Começaram a ser determinados os períodos de confecção dos livros bíblicos e as autorias, processo até hoje em andamento. A veracidade factual dos milagres foi contestada.

Hoje a Bíblia já pode ser lida como o que realmente é. Uma coleção de livros de testemunho, escritos em diferentes épocas, sem uma versão oficial, sem autores definidos e sem qualquer pretensão factual ou científica. Para ser lido como literatura. Para ser tido como inspiração.

No século XX uns teimosos sulistas dos EUA, e os campos missionários sob sua influência erigiram uma coleção de fundamentos inegáveis da fé. Entre os quais o nascimento virginal, a divindade e a morte e a ressureição de Cristo. Os mesmos dogmas que a igreja romana também sustenta com base na autoridade não das Escrituras, mas de uma pretensa magistratura derivada do apóstolo Pedro. Mas os fundamentalistas acrescentaram mais uma novidade - a iminência da volta de Cristo, que passou a ser também o principal tema de seus livros e de sua pregação radical e intolerante.

Fica difícil celebrar o Cristo vivo, quando tanto entulho institucional já se sobrepôs ao signficado de renovação que ele trouxe há dois mil anos. Tem muita gente tentando fazer isso - jutemo-nos a eles.


P.S. Sobre os modos de ler a Bíblia recomendo, de novo, o texto na Trilha: Reticências. Também já está lá uma leitura da Páscoa: As três páscoas.

P.S.2 De certa forma este texto aqui pode ser uma resposta a outro do Catatau: A páscoa e a radicalidade do cristão.

P.S.3 No Soda cáustica, algo sobre a morbidez com que se celebra a paixão de Cristo: A acusação.

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sexta-feira, 30 de maio de 2008

UNASUL

Esta semana foi criada, por decisão conjunta de chefes de Estado dos países sul-americanos, em reunião realizada no Brasil, a União das Nações Sul-americanas. Esta decisão tem uma importância estratégica difícil de medir, reflete mudanças recentes da geopolítica regional, e pode significar o começo de um importante processo para os países do sub-continente.

A América do Sul é, desde o século XVI, um quintal de pontências colonialistas. Portugal e Espanha, ligeira presença francesa, inglesa e holandesa na região amazônica das Guianas, e esporádicas invasões de franceses e holandeses nos territórios portugueses. Com as independências no início do século XIX, que foram parte de um processo maior de crise do Antigo Regime na Europa, precipitado pela dupla revolução (Revolução Industrial e Revolução Francesa - usando uma análise de Eric Hobsbawn em A era das revoluções), as novas nações sul-americanas saíram do âmbito colonial direto. Da sujeição total às metrópoles espanhola e portuguesa, passou a uma sujeição velada às duas novas grandes potências européias (não por acaso os países que lideraram a dupla revolução) - Inglaterra e França. A Inglaterra apoiou as independências nacionais e o fim do tráfico de escravos. Beneficiou-se do fim das restrições comerciais que davam exclusividade ao comércio com as metrópoles ibéricas e fez grandes investimentos na região. A França tornou-se o modelo cultural por excelência, ditando a moda para os conservatórios de música, os movimentos literários, as academias de Belas Artes, os colégios para moças, as reformas urbanísticas (que criaram várias "Paris" no continente - Buenos Aires, Santiago, Motevidéu, Rio de Janeiro).

Até a década de 1920 os países sul-americanos continuaram na órbita dos interesses de França e Inglaterra, com alguma influência também da Itália (país que forneceu grandes fluxos humanos, especialmente para Brasil, Argentina e Uruguai, bem como ditou o gosto musical através do predomínio da ópera). Mas as nações que dominaram o século XIX europeu e mundial começaram a sofrer a concorrência forte de duas novas potências: Alemanha e Estados Unidos. Ambos os países já eram as mais poderosas economias industriais por volta de 1870, mas ainda não tinham nenhuma influência geo-política de alcance maior. A entrada da Alemanha na disputa pelos domínios coloniais europeus na África e na Ásia foi um dos fatores causadores da grande guerra de 1914-1945 (novamente usando uma idéia de Eric Hobsbawn em A era dos extremos. O breve século XX - livro no qual o autor propõe a idéia de que não existiram duas guerras separadas por um período de paz, mas um período de guerra mais ou menos constante com concentração de conflitos no início e no fim).

A outra potência, os Estados Unidos, não tinha qualquer condição de entrar em disputa pela hegemonia no continente europeu. Tratou então de tentam disputar com os europeus a hegemonia no continente americano. A princípio, a própria constituição territorial norte-americana foi um processo de disputa com espanhóis e franceses, desde o fim do século XVIII. No século XIX os EUA trataram de garantir sua hegemonia sobre os países da América Central, aonde as grandes companhias monopolistas norte-americanas foram ostensivamente apoiadas pelas tropas do país, gerando o fenômeno apelidado de "repúblicas de banana", numa alusão ao poder da International Fruit Company, que fazia e desfazia governos na região conforme seus interesses e usando sempre o apoio militar norte-americano.

A partir da crise de 1929, houve nos EUA uma política intesiva de indução ao desenvolvimento, posta em prática pelo governo de F. D. Roosevelt. Entre outras medidas, foi criado um programa que recebeu bilhões de dólares do governo federal (numa época em que bilhões valiam talvez o que valem hoje os trilhões), chamado WPA - sigla para um programa de incentivo ao emprego. Isso foi necessário no momento em que a maior cirse do capitalismo deixou milhões de desempregados, de falidos e de miseráveis. Outra parte do programa para ressucitar a economia norte-americana incluiu um programa pesado para estimular a presença cultural e econômica na América do Sul. Foi chamado de OCIAA (Office of the Coordinator for Inter American Affairs), e foi o início do que ficou conhecido como "política da boa vizinhança". A ação deste organismo foi bem estudada por Antônio Pedro Tota em seu livro Imperialismo sedutor.

Em 1939, com o início oficial da Guerra na Europa, os EUA passaram a se preocupar com a grande influência que os nazistas tinham na América do Sul, especialmente os significativos enclaves alemães no sul do Brasil e na Argentina, bem como uma política muito bem organizada de cooperação com governos e difusão cultural, que deixava os americanos em desvantagem. Para combater esta influência alemã, os EUA lançaram um programa ainda mais ambicioso - a União Panamericana. Apesar do nome indicar um organismo multi-lateral, que envolveu efetivamente a participação dos vários países do continente, a liderança era exercida indubitavelmente pelos norte-americanos, que inclusive eram os principais mantenedores de todos os programas da Instituição. Em 1947, com o início da Guerra Fria os interesses geo-políticos norte americanos deixaram de se concentrar na América, pois passaram a disputar a hegemonia em todos os continentes. A União Panamericana transformou-se em Organização dos Estados Americanos - OEA. Através da OEA os Estados Unidos continuaram a exercer sua total hegemonia no continente, onde agora não tinham mais a concorrência das potências européias destruídas pela guerra. Na década de 1960 o continente voltou a atrair a atenção dos EUA por causa da revolução cubana. O medo de que várias Sierra Maestra pipocassem pelo continente levou à Aliança para o Progresso e ao apoio às sanguinárias ditaduras impostas por golpes militares em toda a América Latina. As revoluções socialistas tinahm que ser evitadas a qualquer custo, e os custos foram bem altos como já sabemos.

Acontece que na década atual, os jovens sonhadores dos anos 1960, esquerdistas porra-loucas que sobreviveram às torturas e assassinatos políticos das ditaduras do continente, são presidentes das repúblicas, ministros de Estado, etc. Essa onda vermelha vem ganhando todas as eleições na América do Sul após o total fracasso das políticas neo-liberais da década de 1990. E esses novos governos Sul-americanos decidiram tomar medidas efetivas para que a região deixe de ser o quintal dos Estados Unidos. para isso tiveram que resolver ridículas picuinhas regionais. Brasil e Argentina, as maiores potências da região ciraram uma solução definitiva para sua rivalidade militar e uniram-se no Mercosul (que anda aos trancos e barrancos mas cumpre um papel importantíssimo para ambos os países). Depois foi preciso vencer a resistência da Colômbia, o único país da região que ainda mantinha fortes interesses em continuar sob a órbita norte-americana, intoxicado pelos bilhões de dólares recebidos para estúpidos programas anti-drogas (na verdade programas anti-guerrilha de esquerda pois os cartéis de drogas continuam mandando nos grupos para-militares e no governo colombiano como sempre).

Para encurtar a história, UNASUL significa o fim da hegemonia norte-americana exercida pela OEA. Isto ficou claro quando os países da região sentaram à mesa para uma solução negociada da crise gerada pela invasão do território equatoriano por tropas colombianas no episódio em que um lider das FARC foi morto. É paradigmático que, pela primeira vez, os EUA não foram nem convidados para a conversa. Resolvemos tudo por aqui mesmo.

Hoje, os estrategistas norte-americanos reconhecem que não se pode mais pensar na geo-política para a América do Sul sem levar em conta a liderança do Brasil. E o Brasil precisa ter a coragem de fazer o que os EUA não fizeram no período em que lideraram a região. Ouvir e respeitar os vizinhos e, principalmente, beneficiar-se com um corajoso programa de desenvolvimento econômico e social que somente a liderança do Brasil pode implantar na região.

É isso que significa esta sigla UNASUL

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Filosofia e Sociologia no Ensino Médio

Fiquei sabendo da notícia pelo Idelber Avelar, que apoia fortemente a medida. Agora é lei - o Ensino Médio incluirá as disciplinas de Sociologia e Filosofia.

Este blog também é a favor.

O próprio Idelber dá lá os links de quem é contra a medida. Inclusive um certo colunista da Veja, que afinal é uma revista acima de qualquer suspeita de doutrinação ideológica. Parece que vai se repetir uma ladainha mentirosa já iniciada pelo chefe de jornalismo da Globo, conforme relata o mesmo Idelber, a respeito do caso de um livro didático de história.

O mesmo discurso falso está no texto Doutrinação barata, escrito por Nelson Ascher para a página E6 do caderno Ilustrada da Folha de hoje. Quando comecei a ler jornais, a Folha não seguia o mesmo caminho de Veja e Globo, mantinha-se um nível jornalístico acima. Faz tempo que já não é mais assim. Tá certo que o texto é uma opinião assinada - e não a opinião do jornal. O mesmo se poderia dizer do Reinaldo Azevedo, ou talvez das falas do Arnaldo Jabor. Alguém acredita que estes caras tem opinião própria? Eles são muito bem pagos para escrever editoriais assinados, livrando a cara dos editores.

Ao que me parece, o Nelson Ascher é médico. Entende muito de educação, filosofia ou sociologia, portanto. Usa uma história pessoal, mostrando como aprendeu a gostar de Dostoievski sem ter aulas de literatura estrangeira no Ensino Médio. E afirma que não se lembra mais do que memorizou dos conteúdos escolares oficiais. Conta que estudou "num dos melhores colégios de São Paulo", que "sabia maximizar nossa capacidade de memorizar", pois ele os colegas passaram em concorridos vestibulares.

Ele provavelmente não sabe, mas faz tempo que a escola não serve mais para "maximizar capcidade de memorização". Para isso temos computadores. Escola serve para preparar para a vida, para as relações humanas, para o aprendizado contínuo, para a construção do conhecimento. Se Sociologia e Filosofia não servirem para isso, não sei o que servirá. Ascher queixa-se de que esqueceu o aprendido em matérias "rigorosas e/ou factuais: trigonometria e geometria analítica, ótica e química orgânica". Estas matérias poderiam ser dispensadas do Ensino Médio e ficar para vestibulares vocacionais das áreas técnicas. Já um engenheiro ou um médico que sabe bem as tais "matérias factuais" pode ser um péssimo profissional (temos deles aos montes por aí) por não saber construir relações humanas, respeitar as diferenças, trabalhar de forma cooperada por um mundo melhor.

Afinal, a melhor doutrinação ideológica que se pode fazer com os estudantes é justamente a que já temos de sobra: sonegar-lhes formação cultural, para que continuem sendo escravos. A certos interesses não vai bem uma formação humanística mais ampla - afinal, pessoas que pensam dão mais trabalho. Não acreditam em tudo que lêem nos jornais ou vêem na televisão...