sexta-feira, 8 de maio de 2009

Quando Schoenberg inventou o dodecafonismo

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Arnold Schoenberg (1874-1951) é um dos mais proeminentes compositores no panteão da música ocidental. Fortemente ligado à tradição germânica moderna, simbolizada pelos três "B": Bach - Beethoven - Brahms. Foi quem assumiu a responsabilidade pela liderança intelectual da questão mais premente para a filosofia da composição musical no início do século XX: como continuar compondo música segundo a tradição ocidental agora que o seu principal eixo estrutural, o sistema tonal, tinha-se dissolvido.

Durante os primeiros anos do século XX Schoenberg compôs obras que hoje classificamos como "atonalismo livre". Este conceito tenta dar sentido a uma prática que abandonou as hierarquias tonais. Não mais uma família de 7 notas centradas na polarização entre tônica e dominante. Agora o total cromático de 12 notas passava a ser usado como se todas tivessem a mesma importância.

Com as obras que compôs neste período inicial do século XX, Schoenberg transformou-se no principal nome da nova geração. Mesmo atonais, tornaram-se verdadeiros clássicos, e continuam até hoje obrigatórios no repertório de concerto:

Verklärte Nacht (Noite transfigurada) - sexteto para cordas - Op. 4 - 1899
Pelleas und Melisande - Poema sinfônico - Op. 5 - 1903
Sinfonia de Câmera - Op. 9 - 1906
15 poemas do Livro dos Jardins Suspensos de Stefan George - Op. 15 - 1909
5 Peças orquestrais - Op. 16 - 1909
Erwartung (A espera) - monodrama em um ato para soprano e orquestra - Op. 17 - 1909
Die Gluckliche Hand (A mão "sortuda") - drama em música para vozes e orquestra - Op . 18 - 1910
6 Pequenas peças para piano - Op. 19 - 1911
Hertzgewächse - para soprano - Op. 20 - 1911
Gurrelieder - conjunto de canções sinfônicas compostas entre 1901-1911
Pierrot Lunaire - cantata cênica para voz e conjunto de câmera - Op. 21 - 1912

Especialmente o período entre 1909 e 1912 foi de uma grande concentração de obras-primas, uma fantástica explosão criativa. O Pierrot Lunaire pode ser considerado como uma das obras mais influentes para a música do século XX. Em contraste com as obras anteriores, em geral para grandes conjuntos instrumentais, o Pierrot Lunaire precisava apenas de um punhado de músicos e um cantor-recitante. Para esta obra Schoenberg trouxe toda sua experiência com os cabarés literários de Berlim. Isso proporcionou que a obra fosse executada em turnê por todas as principais cidades européias, com uma exclente receptividade de um público propenso às experiências de vanguarda.

Esta obra marcou também o esgotamento criativo de Schoenberg, que teve sua vida musical interrompida pela Guerra de 1914-1919. Entre 1912 e 1920 Schoenberg não conseguia concluir nenhuma composição. Tinha chegado ao fim sua verve para criar sem um sistema teórico consistente. A liberdade criativa do atonalismo tinha chegado a um beco: a ausência de sistema era para Schoenberg um severo limitador criativo.

Devido a isso, quase como uma conseqüência lógica de toda tradição tonal da qual se sentia continuador, Schoenberg sistematizou em 1921 a técnica dodecafônica.

Ao publicar a Suíte para piano Op.25, Schoenberg estava lançando a teoria composicional mais polêmica do século - talvez de todos os séculos. Doravante passaria a compor pelo seguinte processo:

1) cria uma série de 12 notas, usando todas as 12 notas do total cromático. A série não repete nenhuma nota. Não há distinção de enarmonia ou de tessitura. Evitam-se os intervalos capazes de sugerir relações tonais ou acordes diatônicos.

2) a partir da série original, cria uma série invertida (repetindo os mesmos intervalos na direção oposta), uma série retrogradada (de trás para frente) e outra retrogradada da inversão (a invertida de trás para frente). Transpõe as quatro formas da série para todas as 12 alturas existentes, obtendo um total de 48 formas possíveis. Elas podem ser colocada numa tabela chamada de matriz serial.

3) a partir das formas da série disponíveis, faz a composição musical.

O processo (1) é de fundamental importância, no sentido em que a série funciona como os antigos temas musicais, e será a base de um processo de desenvolvimeno temático. Todas as relações harmônicas da composição irão derivar da série, uma vez que as simultaneidades sonoras serão todas derivadas da superposição de diferentes formas da série num trabalho de contraponto.

O processo (2) é totalmente mecânico, e hoje é feito por computador

O processo (3) é totalmente criativo. A observação de várias obras de Schoenberg e de outros compositores torna ridículas as acusações de que o dodecafonismo impede a criatividade do compositor por ser "muito matemático".

Eis a série do Op. 25 (clique para ampliar):



Aqui, no Aula Contemporánea, tem a matriz serial. E links que não funcionam para a gravação e a paritura da obra.

Um software para calcular on-line uma matriz serial está aqui
. (Também uma dica do Aula Contemporánea)

A seguir, vídeos da Suíte Op. 25 no youtube, executadas por um dos maiores especialistas em música de vanguarda - Glenn Gould.











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Veja também:

Dodecafonismo em Schoenberg, Webern, Berg e Guerra Peixe

Stravinski - Sagração da Primavera

A carta aberta de Camargo Guarnieri


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Um comentário:

Carolina Jung disse...

Ótimo texto, muito bem escrito! :)