terça-feira, 14 de abril de 2009
Sigismund Neukomm
Foi um importante compositor que viveu no Rio de Janeiro durante o período da corte joanina. É apontado por Maurício Monteiro como um dos integrantes da "trindade tropical", juntamente com José Maurício Nunes Garcia e Marcos Portugal.
Para uma introdução à biografia do músico austríaco, recomendo o verbete que estou ajudando a construir na wikipedia.
Aqui vou dar apenas algumas dicas interessantes para ouvir na internet a música deste importante mas pouco conhecido personagem, tudo em vídeos disponíveis no youtube.
Em duas partes, os vídeos da execução do Libera me Domine que Neukomm compôs para integrar o programa de concerto no qual foi estreado no Brasil o Requiem de Mozart, em 1819.
Cena da ópera Misera, dove son? de 1804. O vídeo foi montado com imagens ilustrativas, a partir da obra gravada neste CD.
E mais um víedo, com trecho de uma peça para flauta e forte-piano, composta no Brasil. A obra também faz parte deste CD gravado por Rosana Lanzelotte e Ricardo Kanji para a Biscoito Fino.
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sábado, 11 de abril de 2009
A páscoa cristã
Reza a tradição que a Páscoa foi uma festa judaica instituída por ocasião do Êxodo. Segundo a narrativa do Pentateuco, os hebreus eram cativos no Egito, e seu Deus os libertou assolando os escravizadores com pragas. A última era a morte dos primogênitos, da qual os lares judeus escapariam matando um cordeiro e aspergindo sangue nos umbrais. O Anjo-do-Senhor passaria reto pelas casas que tivessem o sinal. O cordeiro imolado seria comido numa refeição ritual, a qual incluiria os pães sem fermento e as ervas amargas.
Acontece que esses relatos nunca pretenderam ser "históricos". São símbolos religiosos, rituais. Não se sabe se foram escritos no século VIII ou no século V antes da era cristã. Acredito que os hebreus escravos não teriam cordeiros suficientes para uma celebração deste tipo no Egito. Trata-se, na verdade, de instituir a refeição ritual como memória de um momento fundador do passado de um povo - mesmo que ele não tenha existido. Isso não importa.
De qualquer forma, celebrar a páscoa tornou-se um dos ritos mais importantes do judaísmo.
Mas houve um tempo em que um certo herege, um galileu capaz de amealhar seguidores por todos os lados, entrou em Jerusalém com alguns discípulos. Com eles celebrou uma ceia de páscoa sem cordeiro, somente com pão e vinho. Anunciou aos discípulos que morreria naqueles dias, e recomendou-lhes que tomassem aquela refeição ritual em sua memória sempre que se reunissem.
O galileu foi crucificado exatamente nos dias da páscoa. E os seus seguidores passaram a celebrar sua memória por ocasião da festa judaica. Com o passar dos anos, à medida que a presença do Cristo ia ficando distante no tempo, começam a surgir e ser discutidas idéias a respeito da ressureição e da divindade daquele a quem seguiam. Certo era que para os primeiros discípulos ele estava muito vivo, apesar de ter sido morto. Sua morte tinha gravado com fogo seus ensinamentos e seu exemplo nos corações daqueles pobres palestinos.
Algumas gerações depois, aquele movimento espontâneo, radical e herege que tinha sido a comunidade dos discípulos começava a se institucionalizar. Agora um bispado monárquico, não mais uma liderança plural. Agora uma ortodoxia e textos sagrados pelos quais morrer, não mais apenas uma comunidade de fé e amor. Ao invés do igualitarismo radical de antes, hierarquias. Os evangelhos vão sendo escritos entre o final do primeiro século e o início do segundo - quatro foram aceitos como canônicos pela magistratura da igreja, os muitos outros existentes foram recusados por vários motivos. Conhecê-los (o que já é possível hoje) diz muito sobre essa igreja que surgia.
Do século IV ao VIII os concílios da igreja definiram a doutrina oficial e congelaram uma memória do passado a ser preservada conforme seus interesses institucionais.
Cristo totalmente divino e humano concebido virginalmente do Espírito Santo morreu e ressucitou ao terceiro dia e foi para a destra do pai compondo os três uma única pessoa divina chamada de trindade.
Assim, cristalino e claro.
Questione qualquer um desses pontos e serás morto. Porque desde Agostinho o magistério da igreja é também apoiado pela força do Estado e os hereges tem que ser submetidos ou mortos.
No século XV, quando os Otomanos tomaram Constantinopla, a Itália começou a receber refugiados da igreja grega. Fundam-se academias e o grego antigo é descoberto, passa a ser ensinado. Os ignorantes latinos começam a descobrir a igreja antiga e percebem o quanto se afastaram dela. O lema dos humanistas passa a ser Ad fontes. As escrituras e os pais da igreja antiga, se possível depurados do entulho medieval. Erasmus publica um Novo Testamento grego, a partir do qual Lutero faz sua tradução para o alemão. O motivo? A Vulgata, tradução latina coordenada por Jerônimo no século V era a única versão aceita pela igreja. Mas continha erros grosseiros.
Lorenzo Valla, secretário do papa começou a estudar documentos oficiais para determinar sua autenticidade. Demonstrando a falsidade da Doação de Constantino inaugurou a crítica documental. Disciplina fundamental para o surgimento da história como disciplina acadêmica no século XIX.
A mesma disciplina histórica que começou a ser aplicada pelos luteranos à crítica das Sagradas Escrituras, demonstrando que não podiam ser aceitas como documento histórico confiável, pelo menos não na medida em que vinham sendo usadas pela tradição. Começaram a ser determinados os períodos de confecção dos livros bíblicos e as autorias, processo até hoje em andamento. A veracidade factual dos milagres foi contestada.
Hoje a Bíblia já pode ser lida como o que realmente é. Uma coleção de livros de testemunho, escritos em diferentes épocas, sem uma versão oficial, sem autores definidos e sem qualquer pretensão factual ou científica. Para ser lido como literatura. Para ser tido como inspiração.
No século XX uns teimosos sulistas dos EUA, e os campos missionários sob sua influência erigiram uma coleção de fundamentos inegáveis da fé. Entre os quais o nascimento virginal, a divindade e a morte e a ressureição de Cristo. Os mesmos dogmas que a igreja romana também sustenta com base na autoridade não das Escrituras, mas de uma pretensa magistratura derivada do apóstolo Pedro. Mas os fundamentalistas acrescentaram mais uma novidade - a iminência da volta de Cristo, que passou a ser também o principal tema de seus livros e de sua pregação radical e intolerante.
Fica difícil celebrar o Cristo vivo, quando tanto entulho institucional já se sobrepôs ao signficado de renovação que ele trouxe há dois mil anos. Tem muita gente tentando fazer isso - jutemo-nos a eles.
P.S. Sobre os modos de ler a Bíblia recomendo, de novo, o texto na Trilha: Reticências. Também já está lá uma leitura da Páscoa: As três páscoas.
P.S.2 De certa forma este texto aqui pode ser uma resposta a outro do Catatau: A páscoa e a radicalidade do cristão.
P.S.3 No Soda cáustica, algo sobre a morbidez com que se celebra a paixão de Cristo: A acusação.
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quinta-feira, 2 de abril de 2009
O mesmo amor a mesma chuva - e o caso da imprensa argentina
Li um post do Idelber Avelar sobre o projeto de lei que muda a regulmantação da atividade da imprensa na Argentina e me lembrei de um filme que já assisti faz um tempo: O mesmo amor a mesma chuva.
O filme já tem uma bela resenha no antigo blog do Maurício Santoro. O diretor, Juan José Campanella, estudou cinema nos EUA, dirigiu séries de TV e acertou a mão no cinema principalmente com O filho da noiva (2001), com o mesmo Ricardo Darín no papel principal.
O mesmo amor a mesma chuva, de 1999, não é, no meu entender, tão bom quanto O filho da noiva, que vi no cinema e que fez merecido sucesso (se você ainda não viu não perca tempo). Mas é um filme muito interessante e bem feito, que valeu muito a pena de ser assistido.
As relações humanas são muito bem exploradas no filme (acho que isso é a qualidade que mais me atrai em qualquer filme, talvez junto com a qualidade estética de fotografia, direção, trilha sonora, roteiro, etc.). Não apenas a paixão improvável dos personagens principais, mas, especialmente, as relações de trabalho dentro de um órgão de imprensa argentino - fictício, que fique bem claro.
Mas realístico. É na Argentina, mas podia ser no Brasil ou em qualquer outro lugar. Muito instrutivo para quem quer saber com quantos paus se faz uma notícia ou uma crítica de arte em jornais e revistas.
E é por isso que a leitura do post do Idelber me remeteu ao filme...
P.S. Não achei um trailler do filme, mas tem muitos trechos dele no youtube, para quem tiver curiosidade.
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quarta-feira, 1 de abril de 2009
Reavaliando o legado da ditadura
Acompanhei de longe a polêmica sobre o papel ridículo da Folha de São Paulo no episódio da "ditabranda".
Há importantes setores da classe média brasileira que são saudosos do tempo dos milicos. Não é difícil identificar nesta turma os leitores da Veja. O episódio da Folha indica que ela tem percepção de que são também uma parte importante do seu público (a Folha já não é como nos anos 1980 e 1990, quando se consolidou como um jornal em favor da democratização). Aliás, acompanhar, como eu faço, esporadicamente estes dois veículos é constatar a perda de massa encefálica deste estrato social no Brasil.
Nos últimos dias duas matérias interessantes reavaliando o legado da "ditadura". (Coloco o termo entre aspas devido à impropriedade sociológica do termo para um regime que teve eleições e troca de governantes, economia de mercado e funcionamento normal do judiciário - na verdade continuamos quase tão arbitrários como naquela época, e os figurões da política são quase os mesmos até hoje.)
Recomendo as duas:
Os anos de proibir são de ontem. Matéria de Flávio Tavares para o Zero Hora, repercutida pelo Luis Nassif. Demonstra a origem da corrupção endêmica nas práticas políticas do regime militar. E comenta os tímidos esforços para superar a impunidade nos extratos superiores da política e das finanças.
"Milagre" pós-64 concentrou renda em período de expansão econômica. Matéria da Agência Brasil feita com acadêmicos e estatísticos que analisam estudos mostrando que o fantástico crescimento do período militar foi apropriado por setores da elite e da classe média. Aos pobres sobrou apenas porrada.
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No tempo da "ficção científica" - o serviço doméstico
Um dia desses li no Ágora com dazibao no meio um post chamado Para além do meu campo semântico. Tudo que o Ricardo fez foi postar uma charge do Quino que mostra um mendigo ganhando uma polpuda esmola para comer num restaurante de luxo, mas preferindo gastar a quantia em hambúrgueres. O mais interessante é a proverbial caixa de comentários que este post suscitou.
A questão de fundo é a incapacidade humana de compreender conceitos com os quais não está acostumado a lidar. Que valor tem a alta gastronomia para quem não tem papilas capazes de perceber suas nuances? (Na verdade não tem nada a ver com as papilas, mas com o processamento da informação gustativa no cérebro.)
Tá.
E o que isso tem a ver com "ficção científica"?
Acontece que achei outro dia, no Favoritos, uma dica do site Paleo-future, dedicado a mostrar as antigas visões de como seria o futuro. Entre as muitas coisas interessantes que se pode encontrar lá, me chamou a atenção uma cozinha do futuro, cheia de apetrechos para facilitar o trabalho de uma "dona de casa".
Em 1943 os gringos eram capazes de imaginar apetrechos de cozinha para facilitar o serviço doméstico. Provavelmente para que as mulheres pudessem desempenhar melhor a dupla jornada que a guerra lhes impôs: enquanto os maridos foram lutar na Europa, elas assumiram os postos nas fábricas, lojas e escritórios, e continuaram desempenhando os serviços domésticos.
Mas acho que ninguém imaginava ainda uma cozinha sem "dona de casa".
Seria uma coisa muito além do campo semântico...
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quinta-feira, 19 de março de 2009
Cartazes cubanos - um olhar sobre o cinema mundial

Esses cubanos tiveram a petulância de mostrar que riqueza cultural não tem nada a ver com riqueza econômica.
Filmes soviéticos, iugoslavos, tchecos, poloneses, brasileiros, argentinos, mexicanos, norte-americanos, franceses e até cubanos.
Tudo que seria exibido nos cinemas precisava ser divulgado. Como? Não com os artifícios publicitários normalmente usados nos cartazes de filmes (foto de atores, uma frase de efeito para chamar a atenção). A crua informação do nome do filme, do diretor e do país onde foi produzido.
O mais?
Fica a cargo da imaginação artística do cartazista.
Artistas que fizeram, principalmente em fins dos anos 60 início dos 70, da divulgação dos filmes uma arte. Uma linguagem visual concisa e muito imaginativa. Usando pouquíssimos recursos. A pobreza de recursos gráficos não redundava em pobreza visual ou imaginativa. Pelo contrário. Mostra que é da dificuldade que muitas vezes surge a melhor criatividade.
Ja fui ver a exposição. Considero uma grande pedida para quem puder passar pelas redondezas da praça Santos Andrade em Curitiba. Entrada franca. O Espaço Cultural da Caixa fica na Rua Conselheiro Laurindo, entre a praça e a Rua Marechal Deodoro.
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quarta-feira, 18 de março de 2009
Um ranking do futebol brasileiro (II) - Campeonato Brasileiro 71-79
Continuo aqui o comecei em outro post:
Um ranking do futebol brasileiro (I) - Taça Brasil 59-68
O Campeonato Brasileiro começou em 1971, pela primeira vez com a possibilidade de disputa de clubes de todos os estados. Nunca teve a mesma fórmula, exceto a partir de 2004.
Como a fórmula nunca foi a mesma, fica difícil ter um critério, digamos assim, científico para fazer o ranking.
Optei por pontuar assim.
Campeão - 5 pontos
demais semifinalistas - 2 pontos
demais classificados até a 12ª posição - 1 ponto
Em 1971 a final foi um triangular, por isso dei 2 pontos para apenas dois clubes. Depois a coisa ficou mais normal. Final, semifinal. 2ª fase, 3ª fase, 4ª fase. Conforme o número de clubes disputando.
Usei os dados disponíveis na wikipedia.
Ficou assim:
| 1971 | 1972 | 1973 | 1974 | 1975 | 1976 | 1977 | 1978 | 1979 | |||
| 1° | Internacional | 1 | 2 | 2 | 2 | 5 | 5 | 2 | 5 | 24 | |
| 2° | Palmeiras | 1 | 5 | 5 | 1 | 1 | 1 | 1 | 2 | 2 | 19 |
| 3° | Atlético MG | 5 | 1 | 1 | 1 | 2 | 2 | 1 | 13 | ||
| Vasco | 1 | 1 | 5 | 1 | 1 | 2 | 2 | 13 | |||
| 5° | São Paulo | 2 | 1 | 2 | 1 | 1 | 5 | 12 | |||
| 6° | Cruzeiro | 1 | 1 | 2 | 2 | 2 | 1 | 1 | 10 | ||
| 7° | Corinthians | 1 | 2 | 1 | 1 | 2 | 1 | 1 | 9 | ||
| 8° | Guarani | 1 | 1 | 1 | 5 | 8 | |||||
| 9° | Botafogo | 2 | 2 | 1 | 1 | 1 | 7 | ||||
| 10° | Flamengo | 1 | 1 | 1 | 1 | 1 | 1 | 6 | |||
| Grêmio | 1 | 1 | 1 | 1 | 1 | 1 | 6 | ||||
| Coritiba | 1 | 1 | 1 | 1 | 2 | 6 | |||||
| 13° | Santos | 1 | 1 | 1 | 2 | 5 | |||||
| Santa Cruz | 2 | 1 | 1 | 1 | 5 | ||||||
| 15° | Fluminense | 2 | 2 | 4 | |||||||
| 16° | Vitória | 1 | 1 | 1 | 3 | ||||||
| Operário MS | 2 | 1 | 3 | ||||||||
| Bahia | 1 | 1 | 1 | 3 | |||||||
| 19° | Londrina | 2 | 2 | ||||||||
| Sport | 1 | 1 | 2 | ||||||||
| Atlético PR | 1 | 1 | 2 | ||||||||
| América RJ | 1 | 1 | 2 | ||||||||
| Portuguesa | 1 | 1 | 2 | ||||||||
| 24° | Uberlândia | 1 | 1 | ||||||||
| Goiás | 1 | 1 | |||||||||
| Ponte Preta | 1 | 1 | |||||||||
| América MG | 1 | 1 |
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quarta-feira, 4 de março de 2009
Um ranking do futebol brasileiro (I) - Taça Brasil 59-68
Eu cá deste blog estou a organizar, por iniciativa própria extra-oficial e totalmente desautorizada, um ranking histórico do futebol brasileiro.
Começo com este primeiro post onde faço um ranking da Taça Brasil, com base nos dados disponíveis na wikipedia.
Começo o ranking por este torneio, por que não posso considerar brasileiro um torneio Rio-São Paulo, entre muitos motivos porque o Brasil não é só Rio-São Paulo. Nem o Roberto Gomes Pedrosa porque este, além de curta duração, restringia a participação a um Rio-São Paulo mais Minas-Rio Grande do Sul. Como não sou de nenhum destes estados, não posso concordar com esta palhaçada.
A Taça Brasil era disputada em forma de mata-mata, com os clubes do Rio-São Paulo levando a vantagem de entrarem já na semi-final. Desonesto, mas pelo menos existia uma remota possibilidade de um time de outro estado furar a panelinha.
Assim, estabeleço como critério de pontuação para o ranking:
campeão: 5 pontos
vice: 2 pontos
3º e 4º lugares: 1 ponto
Se você discordar ou não gostar da pontuação comente aí embaixo. Vou usar estes pontos aqui para fazer um ranking mais amplo depois, incluindo o Campeonato Brasileiro a partir de 1971.
| campeão | vice | 3º | 4º | |
| 1959 | Bahia | Santos | Grêmio | Vasco |
| 1960 | Palmeiras | Fortaleza | Santa Cruz | Fluminense |
| 1961 | Santos | Bahia | América – RJ | Náutico |
| 1962 | Santos | Botafogo | Sport | Internacional |
| 1963 | Santos | Bahia | Grêmio | Botafogo |
| 1964 | Santos | Flamengo | Ceará | Palmeiras |
| 1965 | Santos | Vasco | Náutico | Palmeiras |
| 1966 | Cruzeiro | Santos | Náutico | Fluminense |
| 1967 | Palmeiras | Náutico | Grêmio | Cruzeiro |
| 1968 | Botafogo | Fortaleza | Cruzeiro | Náutico |
| Ranking | clube | pontos | |
| 1º | Santos | 29 | |
| 2º | Palmeiras | 12 | |
| 3º | Bahia | 9 | |
| 4º | Botafogo | 8 | |
| 5º | Cruzeiro | 7 | |
| 6º | Náutico | 6 | |
| 7º | Fortaleza | 4 | |
| 8º | Grêmio | 3 | |
| 9º | Vasco | 3 | |
| 10º | Fluminense | 2 | |
| 11º | Flamengo | 2 | |
| 12º | Ceará | 1 | |
| 13º | Internacional | 1 | |
| 14º | Santa Cruz | 1 | |
| 15º | América – RJ | 1 | |
| 16º | Sport | 1 |
Só por curiosidade, se quiser fazer um ranking por estados, da pra perceber o seguinte:
SP - 41 pontos
RJ - 16
BA - 9
PE - 8
MG - 7
CE - 5
RS - 4
Em posts futuros, vou incluir outros torneios e chegar ao ranking defitivo, que eliminará todas as possíveis dúvidas sobre quem é quem na história do futebol brasileiro.
Quem viver verá...
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terça-feira, 20 de janeiro de 2009
O circuito italiano de Colombo
Saímos para um passeio de família no último sábado.
Eu pretendia descobrir alguma coisa sobre o turismo rural em Colombo, próximo a Curitiba, mas não encontrava nenhuma informação na internet.
Na página de secretaria estadual de turismo aparece um link para uma página do Circuito Italiano - o trajeto do turismo rural colombense, mas a página está inativa. Procurei ainda pela pousada Quintas de Bocaiúva, da qual fiquei sabendo pelo Guia 4 rodas de 2003. Mas não achava página na internet, e o telefone informado não funcionava.
Depois descobri que a pousada e seu restaurante fecharam há cerca de dois anos.
Decidimos arriscar um passeio de carro pela Rodovia da Uva para tentarmos descobrir alguma coisa. Paramos em uma ótima vinícola, a Franco Italiana, onde compramos um vinho doce pras mulheres e um Merlot produzido a partir de uvas plantadas em Bento Gonçalves (RS). O espumante também era muito bom. Se não me engano, a localização fica aqui (há uma pequena placa dizendo "vinícola" na entrada - uma rua de terra):
Exibir mapa ampliado
Ali conseguimos um folder do circuito italiano, que inclui um mapa tipo croqui. E pegamos a diga de alguns lugares para almoçar.
Fomos olhar o restaurante Bosque Italiano, um pouco mais à frente, e resolvemos ficar por ali. Não nos arrependemos, a não ser pelo fato de ser um dia chuvoso. Por isso, as crianças não puderam aproveitar tão bem o espaço formidável da chácara onde fica o restaurante. A comida foi surpreendentemente boa. O chefe Mello (proprietário do restaurante) transformou a tal "comida rural" numa bela experiência gastronômica. Saladas variadas (alface com manga e morango, ervilhas frescas com bacon, tomate com cebola e orégano, entre outras), a melhor polenta que já comi, espaguete alho-e-óleo. E um frango assado que usei como desculpa para comer com o imperdível molho de pimenta (com calda de laranja, alho, loro e anis estrelado).
O restaurante fica aqui:
Exibir mapa ampliado
Depois seguimos um pouco adiante, e visitamos o centro administrativo de Colombo, com um bom comércio, e uma belíssima igreja. Visitamos ainda uma chácara que vende morango orgânico. Passamos em um café colonial só para ver como era - depois daquele almoço não dava mais para comer tanto.
E voltamos para casa decididos a fazer o passeio de novo, para irmos nos lugares que não conseguimos conhecer desta vez...
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segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
Na senzala uma flor
Já publiquei isso antes aqui no blog, mas como tinha sido em três partes sem os devidos links de ligação, acho que alguns leitores saíram prejudicados. Agora conserto a besteira.
SLENES, Robert. Na senzala uma flor. Esperanças e recordações na formação da família escrava – Brasil. Sudeste, século XIX. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.
Eu li este livro como parte da minha preparação para o exame de seleção do mestrado em História da UFPR, em 2001. Àquela época o livro estava esgotado, ignoro se teve nova edição.
Trata-se de um livro já clássico, que originou uma série de debates na historiografia sobre a escravidão. O historiador Jacob Gorender, militante do partido comunista, foi o que mais se opôs à tese de Slenes, considerando que ela contribuía para “suavizar” a escravidão. Historiadores que pesquisam a escravidão se juntaram a Slenes e fizeram severas críticas a Gorender, pelo fato de ele nunca ter pesquisado diretamente com fontes em arquivos.
À parte as polêmicas que todas as novas interpretações costumam causar em relação a interpretações estabelecidas, trabalhos como o de Slenes têm servido para trazer uma nova concepção da cultura brasileira, especialmente no que toca à influência das classes populares, ainda considervelmente subdimensionada.
Faço aqui no blog uma resenha em três partes, seguindo o roteiro de estudo que fiz quando li o livro para a prova do mestrado:
A família escrava
Um viajante francês do século XIX afirma não ter visto nenhuma flor nas senzalas brasileiras, julgando por isso não haver esperanças nem recordações, e até mesmo negava a exsitência da família no meio dos escravos.
O título da obra de Slenes é a negação da afirmativa deste viajante. Através de sua pesquisa o autor comprova a existência da família escrava, formada por marido e mulher, com filhos morando com o casal, que possui sua própria casa e até uma atividade econômica independente (caça e pesca, criação de animais, cultivo de roça, trabalho assalariado nos dias de folga, artesanato), que lhe permite economizar para melhorar o padrão de vida e até comprar sua liberdade em alguns casos.
Slenes também compara as habitações dos escravos com as da África Central (origem da maioria deles, demonstrando as permanências culturais africanas na arquitetura das habitações e no hábito de ter sempre dentro delas um fogo aceso. Para o autor, é este fogo aceso a flor que o viajante europeu não foi capaz de enxergar nas senzalas.
Com este estudo, Slenes demonstrou que a escravidão no Brasil não pode ser vista apenas como um imposição dos senhores, mas construiu-se um sistema de relações negociado. Os escravos conquistaram um espaço familiar que, apesar de precário e instável, não foi irrelevante. Em meio aos sofrimentos da escravidão, os negros conseguiram formar famílias, nas quais cultivaram suas esperanças (refletidas na sua dedicação à economia doméstica) e recordações (a manutenção e adaptação de importantes traços culturais comuns às sociedades bantus da região do Congo e Angola).
Arquivos e fontes sobre a escravidão
Slenes trabalhou na sua pesquisa com fontes primárias e secundárias. As primárias foram as que ele usou para traçar os padrões demográficos dos escravos do Sudeste do Brasil no século XIX. São registros de casamento e batismo de escravos, inventários pós-morte de fazendeiros (que incluíam a relação de escravos – arrolados entre os “bens” do senhor), processos-crime, anúncios de fuga de escravos nos jornais. Com estas fontes, pesquisadas em Campinas, Sorocaba e Vassouras (RJ), ele deduz percentagens de africanos entre os escravos (haviam os trazidos da África e os nascidos aqui), de homens, de casados, taxas de mortalidade, expectativa de vida, etc.
Comparando os dados obtidos com os resultados de outros pesquisadores para outros municípios do sudeste no mesmo período, o autor faz generalizações possíveis para obter um padrão regional. Com isto ele comprovou a existência de uma família escrava, composta de pai, mãe e filhos.
Outro tipo de fonte primária são os relatos de viajantes europeus, recordações de fazendeiros e imagens literárias da época (romances). Dessas fontes o autor tira a visão branca sobre a escravidão. Comparando com os resultados dos estudos demográficos, Slenes demonstra o quanto esta visão branca é etnocêntrica, distorcida e pouco confiável (como aliás qualquer fonte histórica – que deve ser tratada com o devido treino e muitos cuidados). Uma análise mais profunda pode ler nas entrelinhas informações importantes sobre a cultura negra: padrão de construção das senzalas, alimentação, economia doméstica.
Comparando estas observações de viajantes com estudos etnológicos de sociedades centro-africanas (fontes secundárias), Slenes traçou um panorama da cultura escrava, demonstrando as permanências culturais na família cativa e suas estratégias de resistência.
A história dos vencidos
A partir da década de 1970 houve uma explosão de estudos de historiadores dedicados à vida e à cultura das classes subalternas, dos trabalhadores pobres: operários no caso europeu e escravos no caso do continente americano. Estes trabalhadores foram sempre a classe inferiorizada na estrutura social, e não conseguiram sequer perpetuar sua memória pela produção de documentos escritos. Por causa disso, eles foram quase sempre classes “invisíveis” para o historiador.
O que mudou este estado de “cegueira” em relação às classes trabalhadoras, e causou a explosão de estudos sobre história operária e história da escravidão, foi o trabalho seminal do historiador inglês E. P. Thompson. Em meados da década de 1960 ele publicou sua Formação da classe operária inglesa, em 3 volumes. Escreverei sobre esta obra em outro post, mas devo dizer aqui que foi Thompson começou uma nova metodologia, qual seja ler a história dos vencidos nos documentos produzidos pelos vencedores.
Foi isso que fez Slenes, seguindo a tradição metodológica inaugurada por Thompson no estudo dos operários ingleses do início do século XIX.. Ler processos criminais onde os escravos depõem como réus, inventários de fazendeiros onde eles aparecem como mercadorias, documentos de batismo e casamento onde eles aparecem por acaso, e relatos de viajantes onde os escravos despertam sentimentos mistos de compaixão e desprezo, lançados de um olhar que se julga culturalmente superior. Ler nestes documentos a visão do escravo, que não está ali, precisa ser descoberta nas entrelinhas. Tudo isso para compensar a completa ausência de documentos ou memórias produzidos pelos próprios escravos.
O estudo de Slenes, bem como os trabalhos de outros historiadores que seguiram esta mesma tradição historiográfica, levou a uma mudança de paradigma. Os trabalhadores pobres (ou os escravos) deixaram de ser vistos como seres passivos, e passaram a ser vistos como agentes históricos importantes, com uma cultura própria, que se chocaram e interagiram com outros agentes e com a cultura dominante.
Além desta corrente thompsoniana de estudo das classes trabalhadoras, o estudo de Slenes também segue uma outra tradição historiográfica originada na Nova História praticada pelos franceses: a demografia histórica. Trata-se da reconstituição de padrões populacionais, organização das famílias, estratégias reprodutivas, espectativa de vida. Esta é uma abordagem quantitativa, obtida através da chamada história serial – aquela que se faz pela coleta de dados de mesmo padrão, num mesmo arquivo, de uma mesma localidade, para diferentes datas. Este tipo de estudo permite traçar a evolução da população local por um determinado período de tempo. (Não é à toa que esta abordagem surgiu na França – lá existem séries de documentos eclesiásticos sobre nascimentos, batismos e sepultamentos com séries confiáveis que remontam ao século XII!)
.sábado, 3 de janeiro de 2009
Consumismo
Está muito boa a edição de dezembro do Le monde diplomatique Brasil, com uma série sobre consumismo.
"E de pouco adiantarão leis que coíbam a publicidade dirigida ao público infantil, se os próprios adultos, entregues ao consumismo e à cultura da vaidade, forem às compras, motivados e seduzidos pela imagem que seus filhos, destinatários dos presentes natalinos, terão diante de outras crianças." (Yves de La Taille, "Consumismo infantil", p. 4)
O autor desta frase é professor de psicologia da USP, e seu texto partiu do fato de que hoje se discutem formas de regular em lei a publicidade voltada ao público infantil. As crianças são psicologicamente vulneráveis ao apelo da publicidade e à figura dos heróis ou personagens prediletos. Mas, no fundo, o que leva aos absurdos do consumismo infantil é mesmo a falta de maturidade dos adultos para lidar com o tema. Estamos dispostos a enfrentar essa questão?
"Aquele cara embaixo da ponte não sou eu. Aquele pedindo esmola também não. Aquela senhora desempregada muito menos. Eu não. Eu tenho a oportunidade, se puder comprar um caminhão passo por cima da Pick-up, se puder comprar uma Pick-up passo por cima do Palio, se puder comprar o Palio passo por cima da moto, se puder... Mas ainda não posso." (Ferréz, "Sobre pássaros e lobos", p. 5)
Este segundo texto foi escrito por um autor que conhece bem a periferia onde vive e de onde escreve. Mostra como a lógica do consumo mantém girando uma engrenagem que, ao fim de tudo, termina moendo os próprios consumidores, especialmente os pobres. Depois de constatações deprimentes sobre como as pessoas viciam no consumo e compram esta ideologia que os massacra, Ferréz conta uma linda parábola - um ninho de passarinho encontrado no fundo do quintal o faz pensar: "isso eu não comprei, isso eu não paguei, nem parcelei, muito menos achei num shopping, nem tive que roubar, isso veio de graça, e acho que isso que é a vida."
"A febre de comprar nos faz pensar, como sugeriu Lipovetsky, que "ela seja uma compensação, uma maneira de consolar-se das desventuras da existência, de preencher a vacuidade do presente e do futuro". O frenesi das compras então funciona para nossa longa solidão egóica como "simulacro de aventura", o fantasma da obra, pequena loucura cotidiana, a prótese do prazer." (Gustavo Barcellos, "A alma do consumo", p. 6-7)
O autor deste texto é psicólogo e escreveu um livro sobre Jung. Explica os mecanismos psicológicos arrasadores que esta lógica do consumo está operando. Mostra claramente que o consumismo é uma patologia severa. Que se desdobra em sintomas tão comuns como: "depressão, paranóia, compulsão, baixa auto-estima, competitividade extremada, pânico, suicídio, solidão, medo, estresse, sintomas psicossomáticos, hiperatividade, hipercosumismo. Vulnerabilidade psicológica, desetabilização emocional."
Tudo passou a ser consumo. O prazer, o lazer, as relações humanas. As necessidades básicas. Aliás, quem consegue saber hoje o que é necessidade e o que é supérfluo? Vivemos no mundo do supérfluo onde, no limite, somos nós mesmos supérfluos.
Alguém aí está disposto a tentar parar esta engrenagem?
Tudo isso me faz lembrar do que o Tuco escreveu sobre o vento.
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sexta-feira, 2 de janeiro de 2009
Por um novo Estado na Palestina
Em 1948, foi criado na Palestina o Estado de Israel. Foi uma reação do movimento sionista às brutais perseguições sofridas por judeus na Europa cristã. As perseguições perduraram por todo o período da cristandade, e seguiram com toda a força após as Reformas religiosas do século XVI.
Uma nova situação gerou a possibilidade de um estado judeu, a acolher exilados europeus em massa na terra dos seus ancestrais. Colocava fim a uma tradição que vem desde o século V a.C., com um pequeno interlúdio hasmoneu no século III a.C. - os judeus foram os únicos a conseguir manter coesa uma pátria sem território e sem Estado, isso por cerca de 2300 anos, desde o exílio à Babilônia de Nabucodonosor até a criação do Estado moderno de Israel em 1948.
O novo Estado foi apoiado pelo Ocidente, talvez para aplacar a consciência depois do holocausto nazista. Foi possível por que as potências ocidentais já tinham colocado fim ao domínio do império Otomano na região, desde a chamada "1ª guerra mundial". O Estado judeu seguiu-se à partilha franco-britânica da Palestina, e foi uma forma de garantir os interesses ocidentais numa região rica em petróleo. Afinal, os migrantes que construíram o novo Estado eram, em última instância, europeus - os Askenazim de pele clara não desalojaram apenas os palestinos, mas desalojaram também (politicamente) os Sefardim de pele morena que viveram em equilíbrio na região por milênios.
A história deste jovem Estado foi sempre de guerras com vizinhos. Diversas nações classificadas como "árabes" e confundidas com o islã - mesmo apesar de toda a vizinhança ser multi-cultural, multi-étnica e multi-religiosa, incluindo significativa presença de cristãos do antigo ramo monofisista (grupos de cristãos orientais que não se submeteram ao controle político de Roma ou de Constantinopla, traduzido no dogma da natureza divino-humana de Cristo).
Foi comum ouvir falar no objetivo político do "fim do Estado judeu", propagandeado no Ocidente de forma mentirosa como uma apologia à eliminação física de Israel. O fim do Estado judeu é a proposta de uma partilha da região num estado onde os Palestinos tenham representação política paritária. É a única proposta politicamente decente, mas fere interesses financeiros muito poderosos, não apenas na região, mas em todo capitalismo mundial.
O Ocidente segue mantendo o Oriente Médio como um grande "aterro sanitário" humano, a garantir o conforto do "bem-estar social" do Atlântico Norte.
"A única solução aceitável é um único Estado, para israelenses-palestinenses, no qual os crimes do sionismo possam afinal ser reparados. Não há outra possibilidade. Só essa." (Tareq ali no Guardian, via Carta Maior)
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quinta-feira, 25 de dezembro de 2008
Sobre os símbolos do natal

O natal é a festa mais importante dos cristãos.
Sua simbologia reflete muito do que o cristianismo é. A forma como ele é celebrado revela o que somos e o que não somos como cristãos.
Há muita controvérsia sobre o que seja o verdadeiro cristianismo. Cada um dos milhares de grupos e seitas cristãos tem sua própria definição da fé, e as doutrinas e dogmas a eles relacionados. Sempre excludentes. Se a minha fé é a única certa, por exclusão as outras todas estão erradas. E as divisões do cristianismo tornam-se como brigas de vizinhos.
Se não há acordo sobre as definições da fé e cada um tem suas certezas, parece-me que uma coisa é certa: cristão deriva de Cristo. E Cristo foi uma pessoa sobre a qual se criaram todos os tipos de controvérsia exceto uma - ele viveu na Palestina há cerca de 2000 anos, era um judeu não ligado aos grupos religiosos dominantes e foi um pregador que teve muitos seguidores.
Justamente a esses seguidores é que se atribuiu a pecha de "cristãos". Pecha sim. Porque não era nada digno ser chamado assim naquele tempo. O Cristo era um homem mal-visto. Tinha sido crucificado como um criminoso pelos romanos, após ser incitado pelos saduceus por heresia.
A vergonha de ser seguidor de Cristo era tanta que Pedro, um dos discípulos mais próximos negou 3 vezes que o conhecesse.
Esse Cristo não tinha posses. Pregava o amor e a justiça. Ensinava coisas como auto-negação e sacrifício em prol do próximo. Dar a outra face. Servir ao invés de ser servido. Encontrar Deus nas coisas simples - nas flores, nos passarinhos, nas crianças e não nos templos. Adorar ao Senhor em espírito, e não em Jerusalém. Ter o coração voltado para Deus era mais importante do que guardar os preceitos da religião.
Bem, porque estou dizendo tudo isso?
Ser cristão deveria incluir minimamente o empenho em seguir este exemplo.
Mas não é assim.
Os evangelhos foram escritos pelos seguidores de Jesus. Entre outras coisas, para provar que ele era o filho de Deus, que deveria ser adorado. Acredita-se que o mais antigo dos evangelhos seja o de Marcos, escrito por volta do ano 70 (depois das cartas de Paulo). O último deve ter sido o de João, escrito já no segundo século.
Nos séculos em que ser chamado cristão deixou de ser uma coisa pejorativa, escolheu-se uma data para celebrar o nascimento do agora considerado menino-deus. Nada melhor do que fazer a celebração no dia em que o culto mais popular do império romano - o mitraísmo - celebrava o nascimento de Mitra, o sol invicto. Já que todos os cultos pagãos seriam suprimidos e perseguidos para a implantação da agora religião oficial do império, melhor contemplar os costumes antigos do que tentar suprimi-los totalmente.
Assim como o menino ganhou presentes, damos presentes uns aos outros nesta data.
Era um profeta. Um homem que abalou as estruturas religiosas do judaísmo. Seus seguidores espalharam-se como epidemia pelas regiões urbanas do império romano. Praticavam uma fé radical que considerava todos iguais perante Deus: não havia diferença entre homem e mulher, judeu e gentio, escravo e livre.
Quando eram perseguidos e mortos, o sangue dos mártires se tornava a semente da fé. Os preciosos evangelhos que traziam a memória do Cristo passaram a ser guardados com as próprias vidas, e lidos em reuniões secretas em desertos, bosques e catacumbas - geralmente de madrugada.
A tradição da sucessão apostólica e a concomitante autoridade geográfica dos bispos num sistema hoje conhecido como "bispado monárquico" levou a atrair o império para a nova fé.
A cristianização do império, ou a romanização do cristianismo levou a uma sobrevida de mais 1000 anos às estruturas político-culturais do Mediterrâneo greco-romano. A fé cristã e a política romana sobreviveram aos afluxos de germanos (godos, vândalos, suevos, francos, lombardos) de nórdicos (vinkings ou normandos) e de eslavos (húngaros, búlgaros, russos). Todos foram seduzidos pela magnificência dos templos, das vestes sacerdotais, do mistério das liturgias em latim, das doutrinas mirabolantes nas quais era preciso crer sem entender.
O cristianismo tornou-se, até as reformas do século XVI, o esteio da ordem e da segurança político-militar da Europa.
E o exemplo da vida de Cristo. O que fazemos com ele?
Melhor não falar nisso. Pra que estragar uma festa tão bonita...
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segunda-feira, 22 de dezembro de 2008
Como Saramago vê o Deus dos judeus - a propósito da questão de Gaza
Saramago é comunista. Presume-se que seja ateu, como todo bom comunista. Escreveu um livro interessante sobre o homem Jesus Cristo, que li uns pedaços (está na fila para ser lido inteiro). O livro me chama a atenção por pretender uma versão da vida Cristo sem os milagres da narrativa dos evangelhos e sem os dogmas do cristianismo posterior ao terceiro século (coisas como a divindade de Cristo, seu nascimento virginal, sua morte vicária e sua ressurreição).
Agora há pouco o escritor desabafou em seu blog contra as arbitrariedades que o Estado de Israel impinge aos refugiados palestinos em Gaza, que já estão sem comida enquanto os caminhões de mantimentos da ONU são impedidos de entrar.
"Compreendemos melhor o deus bíblico quando conhecemos os seus seguidores. Jeová, ou Javé, ou como se lhe chame, é um deus rancoroso e feroz que os israelitas mantêm permanentemente actualizado."
Está aí o Deus feito à imagem e semelhança do homem. Boa parte do que nós cristãos chamamos de Antigo Testamento descreve peripécias (nem sempre historicamente verídicas) de um povo com seus reis e exércitos. Protegido de um Deus que lhes dá vitórias militares e manda que pratiquem genocídio contra os infiéis.
Obviamente não é só isso que faz o Deus do Antigo Testamento. Mas isso certamente lhe mancha a reputação. A ponto de grupos cristão recusarem-se a aceitar o Antigo Testamento como parte do cânon. Esses marcionitas (porque seguidores de Márciom) foram devidamente silenciados para a posteridade.
E continuamos a propagar a idéia de um Deus que é "Senhor dos exércitos", pelo qual matamos e morremos. Sejamos judeus, católicos romanos ou protestantes. De Israel, ou dos Estados Unidos.
Saramago simplifica muito a questão, posto que no Estado judeu a opressão sobre os palestinos não é de matriz religiosa - aliás, ortodoxos sempre tiveram pouco peso político em Israel, e os socialistas secularistas são a base da tradição política do jovem Estado.
Poderia o Saramago também comentar algo a respeito do Deus dos muçulmanos e informar que não há inocentes no conflito. Radicais violentos estão dos dois lados, sempre derrotando quem se dispõe a conversar. Sejam ateus bondosos, como o escritor português, ou religiosos que depositam sua fé num Deus que é amor e justiça e que criou os homens iguais para viverem em paz.
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segunda-feira, 10 de novembro de 2008
Refugiados em sua própria terra
Este post é parte de uma blogagem coletiva, promovida pelo portal Blog Catalog - o tema é Unidos para reunir os refugiados. (Tem uma chamada aí do lado)
A proposta era de buscar informação sobre refugiados. O portal deu vários links para páginas em inglês de organismos que trabalham com refugiados pelo mundo.
Não li nada disso por falta de tempo. Certamente, se eu fosse um blogueiro sueco, suíço, finlandês ou canadense, certamente procuraria um organismo que trabalha com refugiados no Sudão ou na Somália, ou na Palestina, ou em outros países com problemas crônicos de refugiados.
Mas não vivo num país com altos índices de desenvolvimento humano e coesão social. Vivo num país de extremos, onde a riqueza e a tecnologia convivem com o atraso, a miséria e a ignorância. Num país em estado crônico de anomia social.
Um país onde abundam os refugiados em sua própria terra.
Desde nosso processo de colonização, nosso sistema econômico foi baseado no latifúndio dedicado à monocultura exportadora. Os senhores da terra mandam e desmandam, sobre agregados e escravos. O povo do meu país é feito de gente que não tem seu lugar.
Gente que não tem terra. Filhos de quem nunca teve terra. Gente que migrou de uma região para outra do país, procurando o coronel mais magnânimo, que permitisse o uso de uma pequena fatia de suas terra para culturas de subsistência. Gente que nunca se apegou a terra por que podia ser despejado do dia para a noite, mesmo que isso significasse perder as colheitas maduras.
Quem quiser saber um pouco do cotidiano deste trabalhador desgraçado leia o romance Seara vermelha de Jorge Amado.
O livro conta a saga de famílias que, cansadas de migrar de uma terra à outra, resolveram migrar para o mundo das novas oportunidades: sumpaulo. A metrópole industrial. Mas poderia ser também Rio de Janeiro. Ou Porto Alegre, ou Santos. Ou Belo Horizonte ou Curitiba (a partir da década de 1970). Ou (mais recentemente) Brasília, Salvador, Recife, Fortaleza.
De refugiados em terras que nunca foram nem seriam suas, os brasileiros foram ser refugiados em cidades que não são nem nunca serão suas.
Sem o direito à moradia digna, acumulam-se em subúrbios fétidos onde grassa a violência. Onde diariamente matamos nossa juventude, sem esperança e sem futuro. Onde ninguém é dono de seu canto. Onde não existe rede de esgoto ou água tratada. Onde a energia elétrica é clandestina.
Ou em área de encosta ou em domínio de rio. Esperando para ver se sobrevive à próxima enchente ou ao próximo desabamento.
Em casas unidas umas às outras, onde os incêndios se alastram como se queimassem palha seca.
Onde o Estado não chega. Não há escola ou hospital. Não há oportunidade de cultura ou lazer.
Onde os filhos dos trabalhadores e das trabalhadoras ficam com vizinhos ou irmãos mais velhos porque não há creches.
Onde quem consegue passar dos 18 anos já é velho.
Refugiados em sua própria terra. Habitantes de um país que não é nem nunca será seu. Um país onde os homens bons crescem pisando nos outros. Onde quem pode manda e quem tem juízo obedece. Onde a lei é para os fracos. O país do "sabe com quem está falando?" - como já bem estudou Roberto DaMatta.
Um país onde um operário nordestino pode até chegar a ser presidente. Mas só se for para deixar os tubarões da indústria paulista ou do mercado financeiro continuarem mandando. E recebendo o pagamento dos juros mais altos do planeta.
Um país onde as classes média e alta interditam qualquer debate político que inclua projeto de distribuição de riqueza. Ou distribuição de terra. Ou distribuição de conhecimento. Aqui não se pode falar em distribuição. Só em acumulação.
Em quem não acumula nada é porque é burro ou incompetente ou preguiçoso.
Mas sempre nos resta o consolo de que tem país pior do que o nosso. Aqui na vizinhança do continente. Ou na África ou na Ásia longínquos.
E continuamos sendo um país não de cidadãos, mas de refugiados em sua própria terra.
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