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Este blog congratula-se com a saída de Gilberto Gil do Ministério da Cultura. Nada contra a pessoa do ministro, e muito menos contra a atuação do ministério, à qual, pelo pouco que acompanhei, só tenho elogios.
Por exemplo, foi muito boa a política do ministério de des-centralizar as iniciativas culturais. Afinal, a cultura brasileira vai muito além do Rio-São Paulo. Houve também ótimas iniciativas para democratizar a cultura, como por exemplo toda a discussão que foi feita em torno das possíveis mudanças na Lei do Audiovisual. Obviamente esta é uma questão que envolve escabrosas disputas de poder, e que portanto têm de ser resolvidas em nível hierárquico superior ao do MINC. Mas pelo menos o setor da cultura iniciou uma discussão com participação da sociedade. Outro fator muito importante foi o engajamento pessoal do artista-ministro na discussão sobre direitos autorais e o apoio ao projeto Creative Commons.
O que me contrariava na gestão de Gilberto Gil era o fato de ele querer ser um ministro-cantor. São duas ocupações excludentes, nas quais ocorrem muitos tipos de conflitos de interesse. É nítido e claro que, mais do que um serviço público prestado à cultura nacional, a atuação de Gil no ministério serviu principalmente como veículo de divulgação e incremento de sua carreira artística, principalmente no exterior. Aliás, o próprio ministro admite isso, e aponta o incremento da carreira como motivo para deixar o cargo, coisa que ele já vem tentando fazer desde 2006, mas sempre ficando mais um pouco a pedido do presidente Lula.
Assim, se o verdadeiro executivo da pasta ficar mesmo no cargo, o Brasil só tem a ganhar. Só espero que o ministério não entre como cota de alguma de negociação política mesquinha como sempre acontece neste governo (não mais do que nos anteriores).
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sábado, 2 de agosto de 2008
segunda-feira, 9 de junho de 2008
Música como disciplina curricular
Recebi esta notícia por e-mail:
Comissão da Câmara aprova por unanimidade Projeto de Lei pela volta da educação musical na educação básica.
O Projeto de Lei 2732/2008, com relatoria do Dep. Frank Aguiar, que determina a obrigatoriedade do ensino musical na educação básica, foi aprovado hoje, dia 28 de maio, ao meio-dia, por unanimidade pela Comissão da Educação, Cultura e Desporto da Câmara dos Deputados. Para ter valor de lei, falta apenas a votação na Comissão de Constituição de Justiça, o que deve acontecer entre uma semana e 15 dias. A votação foi acompanhada pelo Grupo de Articulação Parlamentar Pró-Música (GAP), que é formado por 86 entidades, como universidades, associações e cooperativas de músicos. O Projeto de Lei é fruto de uma mobilização desse grupo.
O Projeto, originado no Senado sob o número 330/2006, é de autoria de Roseana Sarney (PMDB-MA) e relatoria de Marisa Serrano (PSDB-MT). Contou também com o apoio da Comissão de Educação, através dos senadores Roberto Saturnino, Sérgio Zambiasi, Romeu Tuma, Cristóvam Buarque, Juvêncio da Fonseca e Leonel Pavan. A aprovação no Senado também foi unânime.
O ensino de música nas escolas foi retirado do currículo na década de 1970. Com seu retorno, a idéia não é formar músicos profissionais, mas sim um reconhecimento dos benefícios que esse ensino pode trazer para o desenvolvimento e a sociabilidade das crianças.
(Grupo de Articulação Parlamentar Pró Música)
Confira o texto da Relatoria.
O projeto estava em discussão há tempos. Pelo que entendi não precisa passar pelo plenário da casa (se não isso demoraria anos para ser implantado) nem esperar sanção presidencial.
Somado à notícia da implantação da Filosofia e da Sociologia no Ensino Médio, podemos esperar uma geração muito melhor educada vindo por aí.
Só que a aprovação das leis não é o último passo. É apenas o primeiro. Agora é preciso formar professores, desenvolver material didático, um monte de questões práticas.
Por isso, acho que este movimento não vai para por aqui.
Comissão da Câmara aprova por unanimidade Projeto de Lei pela volta da educação musical na educação básica.
O Projeto de Lei 2732/2008, com relatoria do Dep. Frank Aguiar, que determina a obrigatoriedade do ensino musical na educação básica, foi aprovado hoje, dia 28 de maio, ao meio-dia, por unanimidade pela Comissão da Educação, Cultura e Desporto da Câmara dos Deputados. Para ter valor de lei, falta apenas a votação na Comissão de Constituição de Justiça, o que deve acontecer entre uma semana e 15 dias. A votação foi acompanhada pelo Grupo de Articulação Parlamentar Pró-Música (GAP), que é formado por 86 entidades, como universidades, associações e cooperativas de músicos. O Projeto de Lei é fruto de uma mobilização desse grupo.
O Projeto, originado no Senado sob o número 330/2006, é de autoria de Roseana Sarney (PMDB-MA) e relatoria de Marisa Serrano (PSDB-MT). Contou também com o apoio da Comissão de Educação, através dos senadores Roberto Saturnino, Sérgio Zambiasi, Romeu Tuma, Cristóvam Buarque, Juvêncio da Fonseca e Leonel Pavan. A aprovação no Senado também foi unânime.
O ensino de música nas escolas foi retirado do currículo na década de 1970. Com seu retorno, a idéia não é formar músicos profissionais, mas sim um reconhecimento dos benefícios que esse ensino pode trazer para o desenvolvimento e a sociabilidade das crianças.
(Grupo de Articulação Parlamentar Pró Música)
Confira o texto da Relatoria.
O projeto estava em discussão há tempos. Pelo que entendi não precisa passar pelo plenário da casa (se não isso demoraria anos para ser implantado) nem esperar sanção presidencial.
Somado à notícia da implantação da Filosofia e da Sociologia no Ensino Médio, podemos esperar uma geração muito melhor educada vindo por aí.
Só que a aprovação das leis não é o último passo. É apenas o primeiro. Agora é preciso formar professores, desenvolver material didático, um monte de questões práticas.
Por isso, acho que este movimento não vai para por aqui.
Filosofia e Sociologia no Ensino Médio
Fiquei sabendo da notícia pelo Idelber Avelar, que apoia fortemente a medida. Agora é lei - o Ensino Médio incluirá as disciplinas de Sociologia e Filosofia.
Este blog também é a favor.
O próprio Idelber dá lá os links de quem é contra a medida. Inclusive um certo colunista da Veja, que afinal é uma revista acima de qualquer suspeita de doutrinação ideológica. Parece que vai se repetir uma ladainha mentirosa já iniciada pelo chefe de jornalismo da Globo, conforme relata o mesmo Idelber, a respeito do caso de um livro didático de história.
O mesmo discurso falso está no texto Doutrinação barata, escrito por Nelson Ascher para a página E6 do caderno Ilustrada da Folha de hoje. Quando comecei a ler jornais, a Folha não seguia o mesmo caminho de Veja e Globo, mantinha-se um nível jornalístico acima. Faz tempo que já não é mais assim. Tá certo que o texto é uma opinião assinada - e não a opinião do jornal. O mesmo se poderia dizer do Reinaldo Azevedo, ou talvez das falas do Arnaldo Jabor. Alguém acredita que estes caras tem opinião própria? Eles são muito bem pagos para escrever editoriais assinados, livrando a cara dos editores.
Ao que me parece, o Nelson Ascher é médico. Entende muito de educação, filosofia ou sociologia, portanto. Usa uma história pessoal, mostrando como aprendeu a gostar de Dostoievski sem ter aulas de literatura estrangeira no Ensino Médio. E afirma que não se lembra mais do que memorizou dos conteúdos escolares oficiais. Conta que estudou "num dos melhores colégios de São Paulo", que "sabia maximizar nossa capacidade de memorizar", pois ele os colegas passaram em concorridos vestibulares.
Ele provavelmente não sabe, mas faz tempo que a escola não serve mais para "maximizar capcidade de memorização". Para isso temos computadores. Escola serve para preparar para a vida, para as relações humanas, para o aprendizado contínuo, para a construção do conhecimento. Se Sociologia e Filosofia não servirem para isso, não sei o que servirá. Ascher queixa-se de que esqueceu o aprendido em matérias "rigorosas e/ou factuais: trigonometria e geometria analítica, ótica e química orgânica". Estas matérias poderiam ser dispensadas do Ensino Médio e ficar para vestibulares vocacionais das áreas técnicas. Já um engenheiro ou um médico que sabe bem as tais "matérias factuais" pode ser um péssimo profissional (temos deles aos montes por aí) por não saber construir relações humanas, respeitar as diferenças, trabalhar de forma cooperada por um mundo melhor.
Afinal, a melhor doutrinação ideológica que se pode fazer com os estudantes é justamente a que já temos de sobra: sonegar-lhes formação cultural, para que continuem sendo escravos. A certos interesses não vai bem uma formação humanística mais ampla - afinal, pessoas que pensam dão mais trabalho. Não acreditam em tudo que lêem nos jornais ou vêem na televisão...
Este blog também é a favor.
O próprio Idelber dá lá os links de quem é contra a medida. Inclusive um certo colunista da Veja, que afinal é uma revista acima de qualquer suspeita de doutrinação ideológica. Parece que vai se repetir uma ladainha mentirosa já iniciada pelo chefe de jornalismo da Globo, conforme relata o mesmo Idelber, a respeito do caso de um livro didático de história.
O mesmo discurso falso está no texto Doutrinação barata, escrito por Nelson Ascher para a página E6 do caderno Ilustrada da Folha de hoje. Quando comecei a ler jornais, a Folha não seguia o mesmo caminho de Veja e Globo, mantinha-se um nível jornalístico acima. Faz tempo que já não é mais assim. Tá certo que o texto é uma opinião assinada - e não a opinião do jornal. O mesmo se poderia dizer do Reinaldo Azevedo, ou talvez das falas do Arnaldo Jabor. Alguém acredita que estes caras tem opinião própria? Eles são muito bem pagos para escrever editoriais assinados, livrando a cara dos editores.
Ao que me parece, o Nelson Ascher é médico. Entende muito de educação, filosofia ou sociologia, portanto. Usa uma história pessoal, mostrando como aprendeu a gostar de Dostoievski sem ter aulas de literatura estrangeira no Ensino Médio. E afirma que não se lembra mais do que memorizou dos conteúdos escolares oficiais. Conta que estudou "num dos melhores colégios de São Paulo", que "sabia maximizar nossa capacidade de memorizar", pois ele os colegas passaram em concorridos vestibulares.
Ele provavelmente não sabe, mas faz tempo que a escola não serve mais para "maximizar capcidade de memorização". Para isso temos computadores. Escola serve para preparar para a vida, para as relações humanas, para o aprendizado contínuo, para a construção do conhecimento. Se Sociologia e Filosofia não servirem para isso, não sei o que servirá. Ascher queixa-se de que esqueceu o aprendido em matérias "rigorosas e/ou factuais: trigonometria e geometria analítica, ótica e química orgânica". Estas matérias poderiam ser dispensadas do Ensino Médio e ficar para vestibulares vocacionais das áreas técnicas. Já um engenheiro ou um médico que sabe bem as tais "matérias factuais" pode ser um péssimo profissional (temos deles aos montes por aí) por não saber construir relações humanas, respeitar as diferenças, trabalhar de forma cooperada por um mundo melhor.
Afinal, a melhor doutrinação ideológica que se pode fazer com os estudantes é justamente a que já temos de sobra: sonegar-lhes formação cultural, para que continuem sendo escravos. A certos interesses não vai bem uma formação humanística mais ampla - afinal, pessoas que pensam dão mais trabalho. Não acreditam em tudo que lêem nos jornais ou vêem na televisão...
sexta-feira, 30 de maio de 2008
UNASUL
Esta semana foi criada, por decisão conjunta de chefes de Estado dos países sul-americanos, em reunião realizada no Brasil, a União das Nações Sul-americanas. Esta decisão tem uma importância estratégica difícil de medir, reflete mudanças recentes da geopolítica regional, e pode significar o começo de um importante processo para os países do sub-continente.
A América do Sul é, desde o século XVI, um quintal de pontências colonialistas. Portugal e Espanha, ligeira presença francesa, inglesa e holandesa na região amazônica das Guianas, e esporádicas invasões de franceses e holandeses nos territórios portugueses. Com as independências no início do século XIX, que foram parte de um processo maior de crise do Antigo Regime na Europa, precipitado pela dupla revolução (Revolução Industrial e Revolução Francesa - usando uma análise de Eric Hobsbawn em A era das revoluções), as novas nações sul-americanas saíram do âmbito colonial direto. Da sujeição total às metrópoles espanhola e portuguesa, passou a uma sujeição velada às duas novas grandes potências européias (não por acaso os países que lideraram a dupla revolução) - Inglaterra e França. A Inglaterra apoiou as independências nacionais e o fim do tráfico de escravos. Beneficiou-se do fim das restrições comerciais que davam exclusividade ao comércio com as metrópoles ibéricas e fez grandes investimentos na região. A França tornou-se o modelo cultural por excelência, ditando a moda para os conservatórios de música, os movimentos literários, as academias de Belas Artes, os colégios para moças, as reformas urbanísticas (que criaram várias "Paris" no continente - Buenos Aires, Santiago, Motevidéu, Rio de Janeiro).
Até a década de 1920 os países sul-americanos continuaram na órbita dos interesses de França e Inglaterra, com alguma influência também da Itália (país que forneceu grandes fluxos humanos, especialmente para Brasil, Argentina e Uruguai, bem como ditou o gosto musical através do predomínio da ópera). Mas as nações que dominaram o século XIX europeu e mundial começaram a sofrer a concorrência forte de duas novas potências: Alemanha e Estados Unidos. Ambos os países já eram as mais poderosas economias industriais por volta de 1870, mas ainda não tinham nenhuma influência geo-política de alcance maior. A entrada da Alemanha na disputa pelos domínios coloniais europeus na África e na Ásia foi um dos fatores causadores da grande guerra de 1914-1945 (novamente usando uma idéia de Eric Hobsbawn em A era dos extremos. O breve século XX - livro no qual o autor propõe a idéia de que não existiram duas guerras separadas por um período de paz, mas um período de guerra mais ou menos constante com concentração de conflitos no início e no fim).
A outra potência, os Estados Unidos, não tinha qualquer condição de entrar em disputa pela hegemonia no continente europeu. Tratou então de tentam disputar com os europeus a hegemonia no continente americano. A princípio, a própria constituição territorial norte-americana foi um processo de disputa com espanhóis e franceses, desde o fim do século XVIII. No século XIX os EUA trataram de garantir sua hegemonia sobre os países da América Central, aonde as grandes companhias monopolistas norte-americanas foram ostensivamente apoiadas pelas tropas do país, gerando o fenômeno apelidado de "repúblicas de banana", numa alusão ao poder da International Fruit Company, que fazia e desfazia governos na região conforme seus interesses e usando sempre o apoio militar norte-americano.
A partir da crise de 1929, houve nos EUA uma política intesiva de indução ao desenvolvimento, posta em prática pelo governo de F. D. Roosevelt. Entre outras medidas, foi criado um programa que recebeu bilhões de dólares do governo federal (numa época em que bilhões valiam talvez o que valem hoje os trilhões), chamado WPA - sigla para um programa de incentivo ao emprego. Isso foi necessário no momento em que a maior cirse do capitalismo deixou milhões de desempregados, de falidos e de miseráveis. Outra parte do programa para ressucitar a economia norte-americana incluiu um programa pesado para estimular a presença cultural e econômica na América do Sul. Foi chamado de OCIAA (Office of the Coordinator for Inter American Affairs), e foi o início do que ficou conhecido como "política da boa vizinhança". A ação deste organismo foi bem estudada por Antônio Pedro Tota em seu livro Imperialismo sedutor.
Em 1939, com o início oficial da Guerra na Europa, os EUA passaram a se preocupar com a grande influência que os nazistas tinham na América do Sul, especialmente os significativos enclaves alemães no sul do Brasil e na Argentina, bem como uma política muito bem organizada de cooperação com governos e difusão cultural, que deixava os americanos em desvantagem. Para combater esta influência alemã, os EUA lançaram um programa ainda mais ambicioso - a União Panamericana. Apesar do nome indicar um organismo multi-lateral, que envolveu efetivamente a participação dos vários países do continente, a liderança era exercida indubitavelmente pelos norte-americanos, que inclusive eram os principais mantenedores de todos os programas da Instituição. Em 1947, com o início da Guerra Fria os interesses geo-políticos norte americanos deixaram de se concentrar na América, pois passaram a disputar a hegemonia em todos os continentes. A União Panamericana transformou-se em Organização dos Estados Americanos - OEA. Através da OEA os Estados Unidos continuaram a exercer sua total hegemonia no continente, onde agora não tinham mais a concorrência das potências européias destruídas pela guerra. Na década de 1960 o continente voltou a atrair a atenção dos EUA por causa da revolução cubana. O medo de que várias Sierra Maestra pipocassem pelo continente levou à Aliança para o Progresso e ao apoio às sanguinárias ditaduras impostas por golpes militares em toda a América Latina. As revoluções socialistas tinahm que ser evitadas a qualquer custo, e os custos foram bem altos como já sabemos.
Acontece que na década atual, os jovens sonhadores dos anos 1960, esquerdistas porra-loucas que sobreviveram às torturas e assassinatos políticos das ditaduras do continente, são presidentes das repúblicas, ministros de Estado, etc. Essa onda vermelha vem ganhando todas as eleições na América do Sul após o total fracasso das políticas neo-liberais da década de 1990. E esses novos governos Sul-americanos decidiram tomar medidas efetivas para que a região deixe de ser o quintal dos Estados Unidos. para isso tiveram que resolver ridículas picuinhas regionais. Brasil e Argentina, as maiores potências da região ciraram uma solução definitiva para sua rivalidade militar e uniram-se no Mercosul (que anda aos trancos e barrancos mas cumpre um papel importantíssimo para ambos os países). Depois foi preciso vencer a resistência da Colômbia, o único país da região que ainda mantinha fortes interesses em continuar sob a órbita norte-americana, intoxicado pelos bilhões de dólares recebidos para estúpidos programas anti-drogas (na verdade programas anti-guerrilha de esquerda pois os cartéis de drogas continuam mandando nos grupos para-militares e no governo colombiano como sempre).
Para encurtar a história, UNASUL significa o fim da hegemonia norte-americana exercida pela OEA. Isto ficou claro quando os países da região sentaram à mesa para uma solução negociada da crise gerada pela invasão do território equatoriano por tropas colombianas no episódio em que um lider das FARC foi morto. É paradigmático que, pela primeira vez, os EUA não foram nem convidados para a conversa. Resolvemos tudo por aqui mesmo.
Hoje, os estrategistas norte-americanos reconhecem que não se pode mais pensar na geo-política para a América do Sul sem levar em conta a liderança do Brasil. E o Brasil precisa ter a coragem de fazer o que os EUA não fizeram no período em que lideraram a região. Ouvir e respeitar os vizinhos e, principalmente, beneficiar-se com um corajoso programa de desenvolvimento econômico e social que somente a liderança do Brasil pode implantar na região.
É isso que significa esta sigla UNASUL
A América do Sul é, desde o século XVI, um quintal de pontências colonialistas. Portugal e Espanha, ligeira presença francesa, inglesa e holandesa na região amazônica das Guianas, e esporádicas invasões de franceses e holandeses nos territórios portugueses. Com as independências no início do século XIX, que foram parte de um processo maior de crise do Antigo Regime na Europa, precipitado pela dupla revolução (Revolução Industrial e Revolução Francesa - usando uma análise de Eric Hobsbawn em A era das revoluções), as novas nações sul-americanas saíram do âmbito colonial direto. Da sujeição total às metrópoles espanhola e portuguesa, passou a uma sujeição velada às duas novas grandes potências européias (não por acaso os países que lideraram a dupla revolução) - Inglaterra e França. A Inglaterra apoiou as independências nacionais e o fim do tráfico de escravos. Beneficiou-se do fim das restrições comerciais que davam exclusividade ao comércio com as metrópoles ibéricas e fez grandes investimentos na região. A França tornou-se o modelo cultural por excelência, ditando a moda para os conservatórios de música, os movimentos literários, as academias de Belas Artes, os colégios para moças, as reformas urbanísticas (que criaram várias "Paris" no continente - Buenos Aires, Santiago, Motevidéu, Rio de Janeiro).
Até a década de 1920 os países sul-americanos continuaram na órbita dos interesses de França e Inglaterra, com alguma influência também da Itália (país que forneceu grandes fluxos humanos, especialmente para Brasil, Argentina e Uruguai, bem como ditou o gosto musical através do predomínio da ópera). Mas as nações que dominaram o século XIX europeu e mundial começaram a sofrer a concorrência forte de duas novas potências: Alemanha e Estados Unidos. Ambos os países já eram as mais poderosas economias industriais por volta de 1870, mas ainda não tinham nenhuma influência geo-política de alcance maior. A entrada da Alemanha na disputa pelos domínios coloniais europeus na África e na Ásia foi um dos fatores causadores da grande guerra de 1914-1945 (novamente usando uma idéia de Eric Hobsbawn em A era dos extremos. O breve século XX - livro no qual o autor propõe a idéia de que não existiram duas guerras separadas por um período de paz, mas um período de guerra mais ou menos constante com concentração de conflitos no início e no fim).
A outra potência, os Estados Unidos, não tinha qualquer condição de entrar em disputa pela hegemonia no continente europeu. Tratou então de tentam disputar com os europeus a hegemonia no continente americano. A princípio, a própria constituição territorial norte-americana foi um processo de disputa com espanhóis e franceses, desde o fim do século XVIII. No século XIX os EUA trataram de garantir sua hegemonia sobre os países da América Central, aonde as grandes companhias monopolistas norte-americanas foram ostensivamente apoiadas pelas tropas do país, gerando o fenômeno apelidado de "repúblicas de banana", numa alusão ao poder da International Fruit Company, que fazia e desfazia governos na região conforme seus interesses e usando sempre o apoio militar norte-americano.
A partir da crise de 1929, houve nos EUA uma política intesiva de indução ao desenvolvimento, posta em prática pelo governo de F. D. Roosevelt. Entre outras medidas, foi criado um programa que recebeu bilhões de dólares do governo federal (numa época em que bilhões valiam talvez o que valem hoje os trilhões), chamado WPA - sigla para um programa de incentivo ao emprego. Isso foi necessário no momento em que a maior cirse do capitalismo deixou milhões de desempregados, de falidos e de miseráveis. Outra parte do programa para ressucitar a economia norte-americana incluiu um programa pesado para estimular a presença cultural e econômica na América do Sul. Foi chamado de OCIAA (Office of the Coordinator for Inter American Affairs), e foi o início do que ficou conhecido como "política da boa vizinhança". A ação deste organismo foi bem estudada por Antônio Pedro Tota em seu livro Imperialismo sedutor.
Em 1939, com o início oficial da Guerra na Europa, os EUA passaram a se preocupar com a grande influência que os nazistas tinham na América do Sul, especialmente os significativos enclaves alemães no sul do Brasil e na Argentina, bem como uma política muito bem organizada de cooperação com governos e difusão cultural, que deixava os americanos em desvantagem. Para combater esta influência alemã, os EUA lançaram um programa ainda mais ambicioso - a União Panamericana. Apesar do nome indicar um organismo multi-lateral, que envolveu efetivamente a participação dos vários países do continente, a liderança era exercida indubitavelmente pelos norte-americanos, que inclusive eram os principais mantenedores de todos os programas da Instituição. Em 1947, com o início da Guerra Fria os interesses geo-políticos norte americanos deixaram de se concentrar na América, pois passaram a disputar a hegemonia em todos os continentes. A União Panamericana transformou-se em Organização dos Estados Americanos - OEA. Através da OEA os Estados Unidos continuaram a exercer sua total hegemonia no continente, onde agora não tinham mais a concorrência das potências européias destruídas pela guerra. Na década de 1960 o continente voltou a atrair a atenção dos EUA por causa da revolução cubana. O medo de que várias Sierra Maestra pipocassem pelo continente levou à Aliança para o Progresso e ao apoio às sanguinárias ditaduras impostas por golpes militares em toda a América Latina. As revoluções socialistas tinahm que ser evitadas a qualquer custo, e os custos foram bem altos como já sabemos.
Acontece que na década atual, os jovens sonhadores dos anos 1960, esquerdistas porra-loucas que sobreviveram às torturas e assassinatos políticos das ditaduras do continente, são presidentes das repúblicas, ministros de Estado, etc. Essa onda vermelha vem ganhando todas as eleições na América do Sul após o total fracasso das políticas neo-liberais da década de 1990. E esses novos governos Sul-americanos decidiram tomar medidas efetivas para que a região deixe de ser o quintal dos Estados Unidos. para isso tiveram que resolver ridículas picuinhas regionais. Brasil e Argentina, as maiores potências da região ciraram uma solução definitiva para sua rivalidade militar e uniram-se no Mercosul (que anda aos trancos e barrancos mas cumpre um papel importantíssimo para ambos os países). Depois foi preciso vencer a resistência da Colômbia, o único país da região que ainda mantinha fortes interesses em continuar sob a órbita norte-americana, intoxicado pelos bilhões de dólares recebidos para estúpidos programas anti-drogas (na verdade programas anti-guerrilha de esquerda pois os cartéis de drogas continuam mandando nos grupos para-militares e no governo colombiano como sempre).
Para encurtar a história, UNASUL significa o fim da hegemonia norte-americana exercida pela OEA. Isto ficou claro quando os países da região sentaram à mesa para uma solução negociada da crise gerada pela invasão do território equatoriano por tropas colombianas no episódio em que um lider das FARC foi morto. É paradigmático que, pela primeira vez, os EUA não foram nem convidados para a conversa. Resolvemos tudo por aqui mesmo.
Hoje, os estrategistas norte-americanos reconhecem que não se pode mais pensar na geo-política para a América do Sul sem levar em conta a liderança do Brasil. E o Brasil precisa ter a coragem de fazer o que os EUA não fizeram no período em que lideraram a região. Ouvir e respeitar os vizinhos e, principalmente, beneficiar-se com um corajoso programa de desenvolvimento econômico e social que somente a liderança do Brasil pode implantar na região.
É isso que significa esta sigla UNASUL
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terça-feira, 20 de maio de 2008
O povo de Deus no exílio
Tempos atrás folheei o livro de Milton Schwantes – Sofrimento e esperança no exílio e fiquei intrigado. Prometi para mim mesmo que leria o livro e faria uma resenha dele no blog. A leitura continua nos meus planos. A resenha não, porque já está feita no Cultura blá, blá, blá .
Só faltou o Eduardo esclarecer um pouquinho mais sobre os porquês de algumas coisas. O livro foi escrito na década de 1980 e merecidamente reeditado agora. Schwantes é luterano, formado em teologia no Rio Grande do Sul e pós-graduado na Alemanha. Assumiu o pastorado de uma paróquia em Santo André no ABC paulista. Diante de uma comunidade operária da periferia de uma das maiores metrópoles industriais do mundo, deve ter ficado se perguntando o que faria com todo seu conhecimento teológico e como poderia aplicá-lo à realidade local de pobreza, exploração e miséria.
Encontrou o nexo entre o exílio babilônico dos judeus e os pobres latino-americanos, eternamente exilados em sua própria terra.
Schwantes fez como outro importante teólogo. No início do século XX, Karl Barth, então discípulo de Harnak e teólogo liberal de carteirinha assumiu o pastorado de uma comunidade operária. Descobriu que o otimismo liberal só servia aos gentlemans da belle époque e não aos pobres bastardos do mundo industrial. Reformulou sua teologia, sendo um dos primeiros a propor respostas à grave crise que o mundo enfrentava, onde as certezas do século XIX entraram em colapso. Em 1919 publicou seu comentário Aos Romanos, sobre a carta de Paulo. Com certeza o livro de teologia mais influente do século.
Assim como o livro de Barth, o de Schwantes certamente desagrada evangélicos fundamentalistas (uso aqui um pleonasmo), pois relativiza a noção de autoria do Pentateuco e problematiza a falsa noção de inspiração divina literal (uma tese que defende que a Bíblia seja um livro coerente e unitário, psicografado por Deus para seus escolhidos).
Só faltou o Eduardo esclarecer um pouquinho mais sobre os porquês de algumas coisas. O livro foi escrito na década de 1980 e merecidamente reeditado agora. Schwantes é luterano, formado em teologia no Rio Grande do Sul e pós-graduado na Alemanha. Assumiu o pastorado de uma paróquia em Santo André no ABC paulista. Diante de uma comunidade operária da periferia de uma das maiores metrópoles industriais do mundo, deve ter ficado se perguntando o que faria com todo seu conhecimento teológico e como poderia aplicá-lo à realidade local de pobreza, exploração e miséria.
Encontrou o nexo entre o exílio babilônico dos judeus e os pobres latino-americanos, eternamente exilados em sua própria terra.
Schwantes fez como outro importante teólogo. No início do século XX, Karl Barth, então discípulo de Harnak e teólogo liberal de carteirinha assumiu o pastorado de uma comunidade operária. Descobriu que o otimismo liberal só servia aos gentlemans da belle époque e não aos pobres bastardos do mundo industrial. Reformulou sua teologia, sendo um dos primeiros a propor respostas à grave crise que o mundo enfrentava, onde as certezas do século XIX entraram em colapso. Em 1919 publicou seu comentário Aos Romanos, sobre a carta de Paulo. Com certeza o livro de teologia mais influente do século.
Assim como o livro de Barth, o de Schwantes certamente desagrada evangélicos fundamentalistas (uso aqui um pleonasmo), pois relativiza a noção de autoria do Pentateuco e problematiza a falsa noção de inspiração divina literal (uma tese que defende que a Bíblia seja um livro coerente e unitário, psicografado por Deus para seus escolhidos).
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domingo, 18 de maio de 2008
Uma passagem para a vida

Um filme de Patrice Leconte, com uma cativante trilha sonora de Pascal Estèves, e excelente atuação de Jean Rochefort e de Johnny Hallyday (para mim um total desconhecido, mas é um astro do rock francês).
Filmado em 2002, não foi exibido nos cinemas brasileiros. Que bom que existe em DVD, por que é um filme que merece ser assistido.
Um assaltante de banco e um professor aposentado de uma cidadezinha do interior da França se encontram por acaso e tornam-se inusitados amigos. Confrontados pela vida um do outro, cada um descobre o quanto sua vida é monótona e o quanto poderia ser interessante se fosse diferente.
É por causa de filmes como esse que o cinema vale a pena. Porque torna-se uma oportunidade de refletir sobre a vida, sobre o ser humano - as dores e delícias que cada um tem de ser o que é. Se isso pode ser feito com boas doses de humor, grande poesia visual e trilha sonora cativante, melhor ainda.
sábado, 17 de maio de 2008
60 anos
Estou atrasado para escrever sobre isso, mas tudo bem. O aniversário foi semana passada, mas o tema continua atual, e continuará por muito tempo.
Dia 9 de maio completaram-se 60 anos da fundação do Estado de Israel. É uma data que merece vários tipos de comemoração.
Os evangélicos fundamentalistas (pleonasmo) comemoram a data como se fosse um sinal dos tempos, uma claro indício de que Deus está "agindo na história". Quem consagrou esta interpretação escatológica da criação do Estado de Israel foi Hal Lindsey em seu livreto The late great planet Earth, publicado nos EUA em 1970, e cuja primeira edição em português saiu em 1973, com o título A agonia do grande planeta Terra. O livro foi traduzido para muitas línguas e vendeu muitos e muitos exemplares. (A edição que pertence ao meu pai estampa na capa o número de 2 milhões de exemplares vendidos, o que se refere provavelmente à soma das edições em várias línguas.)
Neste livro o autor fez um contorcionismo hermenêutico com a passagem do capítulo 24 do Evangelho de Mateus, para dizer que a figueira a que Jesus se referia no texto era o povo de Israel. Este capítulo do Evangelho de Mateus é terrivelmente apocalíptico, e as descrições feitas por Jesus são interpretadas por muitos como profecias para o fim do mundo. Em certa altura do texto, nos versículos 32 a 34, Jesus afirma:
Aprendei, pois, a parábola da figueira: quando já os seus ramos se renovam e as folhas brotam, sabeis que está próximo o verão. Assim também vós: quando virdes todas estas cousas, sabei que está próximo, às portas. Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que tudo isto aconteça.
Para Lindsey, o texto previa a recriação do Estado de Israel - que corresponde ao rebrotar da figueira descrito no texto. E a afirmação de que não se passará a geração antes que tudo aconteça foi interpretada como sendo uma profecia de que a volta de Cristo (evento que a escatologia considera o fator desencadeador do fim do mundo) não demoraria mais do que 40 anos (uma geração) após 1948.
Como 1988 já passou faz muito tempo, este livro hoje só presta para ser motivo de ridículo. Apesar disso, as idéias a respeito do Estado de Israel como manifestação da vontade divina - apesar de igualmente ridículas - continuam em voga entre os evangélicos até hoje. Os mesmos evangélicos que elegeram Bush por causa do discurso moralista (anti-aborto e anti-pesquisa com células tronco principalmente) são os que também pressionam por uma política externa pró-Israel.
Este é o tipo de comemoração do Estado de Israel com o qual este blog definitivamente não comunga.
Prefiro celebrar o Estado de Israel como o lugar de descanso de um povo que viveu à margem da cristandade ocidental, vivendo perseguido e fugitivo por mais de 2 mil anos. Lugar de descanso entre aspas: desde que conseguiram criam um estado territorial os judeus nunca descansaram pois desde 1948 vivem em permanente estado de guerra com os vizinhos, sofrendo ataques tanto militares quanto do terrorismo civil.
A mim que sou estudioso do tema da identidade nacional (especificamente a relação que isso tem com a música no Brasil), me impressiona como um povo foi capaz de manter uma identidade nacional por tantos séculos, mesmo sem contar com um Estado ou com um território. Tribos nômades que migraram primeiro da Mesopotâmia, depois passando pelo Egito, os hebreus se estabeleceram na Palestina no século XIII a.C. Constituíram uma monarquia com território definido e capital fixa no século X a.C. Logo em seguida dividiram-se em 2 reinos, o do norte sendo totalmente dizimado pelos assírios no século VII a.C. O do sul - o reino de Judá, que ficou com a capital Jerusalém - é o que subsistiu como povo. São os judeus, que desde o século VI a.C. não tem mais um Estado territorial.
Invadidos pelas tropas de Nabucodonosor da Babilônia, os judeus tornaram-se um povo em permanente exílio. Foi no exílio babilônico que se constituiu o juadaísmo, uma religião de estrita observância das leis divinas, da conservação de livros sagrados e das reuniões para adoração em sinagogas. Foi no período do exílio babilônico que os textos sagrados judeus ganharam forma escrita mais ou menos definitiva - o que os cristãos reconhecem hoje como o Antigo Testamento.
Salvo por um curto período no século III a.C., os judeus nunca mais tiveram um Estado. Aprenderam a viver em permanente exílio. Reconheciam-se pela observância da lei divina e pela reunião nas sinagogas, que se expalharam por todo o Oriente Próximo do Império Persa e por toda a região do Mediterrâneo do Império Romano. Foi assim que por séculos mantiveram sua identidade. Eram uma nação sem pátria, sem Estado. Existiram muito antes de surgir a idéia moderna de nação (todas a nações que reconhecemos hoje não têm mais do que 200 anos de existência).
O que lhes deu esta coexão? Alguém diria que foi a religião. Acontece que, a partir do século XVIII começou a surgir um expressivo contingente de judeus não religiosos. Estes judeus secularizados foram parte importante do arcabouço filosófico da modernidade européia. Judeus que não se reconheciam mais na observância da religião judaica. Que pretendiam se incorporar plenamente à vida secular que surgia na Europa após o colapso da cristandade compulsória. E que nunca foram plenamente recebidos na sociedade européia. Parece que o judeu tinha uma marca - mesmo quando ele mesmo já não se reconhecia como judeu a sociedade laica européia continuou a discriminá-lo como fizera quando a cristandade recusava-se a aceitar os nãos cristãos.
Então a coesão tinha motivos étnicos? Também não. A multiplicadade de etnias que se reconhecem como judeus é notória. Afinal o juadaísmo foi sempre uma religião de descendência - os filhos de Abraão - mas sempre uma religião aberta a receber fiéis de outras descendências e a misturar-se no meio dos povos em que habitaram. Por isso temos pelo menos dois grandes grupos reconhecíveis no judaísmo europeu: ashkenazin (em geral de pele clara e idioma ídiche, espalhados pela Europa Central e do Leste) e sefaradim (em geral de pele escura e idioma ladino, espalhados pelo Sul da Europa e pelo Norte da África e Oriente Médio).
Permanece então um grande mistério esta impressionante coesão de um povo, que manteve sua indentidade ao longo de cerca de 2 mil e 500 anos sem ter território, monarquia, idioma oficial ou característica étnica que pudesse identificá-lo.
No fim do século XIX, parte desses judeus secularizados, inspirados pelos muitos movimentos contra a opressão que surgiram em solo europeu (socialistas de vários tipos, anarquistas, nacionalistas, etc.) começaram a cogitar um Estado judeu. O movimento ganhou o nome de sionismo, e foi a primeira forma de reação coordenada que os judeus organizaram para resistir às violências que lhe foram impetradas em mil e quatrocentos anos de perseguição sistemática por parte dos cristãos europeus. Neste período a perseguição se tornou mais aguda na Europa Central e do Leste, criando ondas de migração massiva de judeus para os EUA e, pela primeira vez em muitos séculos, de volta à sua Terra Prometida na Palestina.
O genocídio nazista foi a gota d'água que levou as potências ocidentais a reconhecer um Estado judeu na Palestina. Era uma espécie de "desencargo de consciência" para com um povo tão durante perseguido em toda a história da Europa. Mas não passou disso - um desencargo de consciência, pois logo em seguida a região da Palestina tornou-se um eterno joguete político das potências, que tentaram agradar ao mesmo tempo o nascente nacionalismo pan-árabe e o recém-criado Estado de Israel. Logo estes dois lados do conflito passaram a dividir-se conforme os dois lados da Guerra Fria: União Soviética e seus asseclas comunistas espalhados pelo globo alinharam-se do lado árabe do conflito. Estados Unidos e seus asseclas capitalistas e fundamentalistas (duas faces da mesma moeda) alinharam-se do lado judeu. Ainda atrpalhados pelo arraigado anti-semitismo que continuou forte na Europa, especialmente entre os católicos.
Depois de resisitr a tudo isso, o Estado de Israel comemora 60 anos. Tornou-se a pátria de todos os judeus. Mesmo aqueles que têm outras pátrias e que nunca foram à Palestina. É hoje o único Estado minimamente democrático do continente asiático. Se conseguir desatar o nó do conflito com os Palestinos de forma negociada será o maior exemplo de pluralidade que o mundo precisa para o século XXI.
É este o tipo de comemoração que anima este blog.
Esta foi, leitor, a minha versão da história. Recomendo fortemente que você conheça também a versão do Pedro Dória e a do André Tavares - com uma importante réplica a um comentarista.
Dia 9 de maio completaram-se 60 anos da fundação do Estado de Israel. É uma data que merece vários tipos de comemoração.
Os evangélicos fundamentalistas (pleonasmo) comemoram a data como se fosse um sinal dos tempos, uma claro indício de que Deus está "agindo na história". Quem consagrou esta interpretação escatológica da criação do Estado de Israel foi Hal Lindsey em seu livreto The late great planet Earth, publicado nos EUA em 1970, e cuja primeira edição em português saiu em 1973, com o título A agonia do grande planeta Terra. O livro foi traduzido para muitas línguas e vendeu muitos e muitos exemplares. (A edição que pertence ao meu pai estampa na capa o número de 2 milhões de exemplares vendidos, o que se refere provavelmente à soma das edições em várias línguas.)
Neste livro o autor fez um contorcionismo hermenêutico com a passagem do capítulo 24 do Evangelho de Mateus, para dizer que a figueira a que Jesus se referia no texto era o povo de Israel. Este capítulo do Evangelho de Mateus é terrivelmente apocalíptico, e as descrições feitas por Jesus são interpretadas por muitos como profecias para o fim do mundo. Em certa altura do texto, nos versículos 32 a 34, Jesus afirma:
Aprendei, pois, a parábola da figueira: quando já os seus ramos se renovam e as folhas brotam, sabeis que está próximo o verão. Assim também vós: quando virdes todas estas cousas, sabei que está próximo, às portas. Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que tudo isto aconteça.
Para Lindsey, o texto previa a recriação do Estado de Israel - que corresponde ao rebrotar da figueira descrito no texto. E a afirmação de que não se passará a geração antes que tudo aconteça foi interpretada como sendo uma profecia de que a volta de Cristo (evento que a escatologia considera o fator desencadeador do fim do mundo) não demoraria mais do que 40 anos (uma geração) após 1948.
Como 1988 já passou faz muito tempo, este livro hoje só presta para ser motivo de ridículo. Apesar disso, as idéias a respeito do Estado de Israel como manifestação da vontade divina - apesar de igualmente ridículas - continuam em voga entre os evangélicos até hoje. Os mesmos evangélicos que elegeram Bush por causa do discurso moralista (anti-aborto e anti-pesquisa com células tronco principalmente) são os que também pressionam por uma política externa pró-Israel.
Este é o tipo de comemoração do Estado de Israel com o qual este blog definitivamente não comunga.
Prefiro celebrar o Estado de Israel como o lugar de descanso de um povo que viveu à margem da cristandade ocidental, vivendo perseguido e fugitivo por mais de 2 mil anos. Lugar de descanso entre aspas: desde que conseguiram criam um estado territorial os judeus nunca descansaram pois desde 1948 vivem em permanente estado de guerra com os vizinhos, sofrendo ataques tanto militares quanto do terrorismo civil.
A mim que sou estudioso do tema da identidade nacional (especificamente a relação que isso tem com a música no Brasil), me impressiona como um povo foi capaz de manter uma identidade nacional por tantos séculos, mesmo sem contar com um Estado ou com um território. Tribos nômades que migraram primeiro da Mesopotâmia, depois passando pelo Egito, os hebreus se estabeleceram na Palestina no século XIII a.C. Constituíram uma monarquia com território definido e capital fixa no século X a.C. Logo em seguida dividiram-se em 2 reinos, o do norte sendo totalmente dizimado pelos assírios no século VII a.C. O do sul - o reino de Judá, que ficou com a capital Jerusalém - é o que subsistiu como povo. São os judeus, que desde o século VI a.C. não tem mais um Estado territorial.
Invadidos pelas tropas de Nabucodonosor da Babilônia, os judeus tornaram-se um povo em permanente exílio. Foi no exílio babilônico que se constituiu o juadaísmo, uma religião de estrita observância das leis divinas, da conservação de livros sagrados e das reuniões para adoração em sinagogas. Foi no período do exílio babilônico que os textos sagrados judeus ganharam forma escrita mais ou menos definitiva - o que os cristãos reconhecem hoje como o Antigo Testamento.
Salvo por um curto período no século III a.C., os judeus nunca mais tiveram um Estado. Aprenderam a viver em permanente exílio. Reconheciam-se pela observância da lei divina e pela reunião nas sinagogas, que se expalharam por todo o Oriente Próximo do Império Persa e por toda a região do Mediterrâneo do Império Romano. Foi assim que por séculos mantiveram sua identidade. Eram uma nação sem pátria, sem Estado. Existiram muito antes de surgir a idéia moderna de nação (todas a nações que reconhecemos hoje não têm mais do que 200 anos de existência).
O que lhes deu esta coexão? Alguém diria que foi a religião. Acontece que, a partir do século XVIII começou a surgir um expressivo contingente de judeus não religiosos. Estes judeus secularizados foram parte importante do arcabouço filosófico da modernidade européia. Judeus que não se reconheciam mais na observância da religião judaica. Que pretendiam se incorporar plenamente à vida secular que surgia na Europa após o colapso da cristandade compulsória. E que nunca foram plenamente recebidos na sociedade européia. Parece que o judeu tinha uma marca - mesmo quando ele mesmo já não se reconhecia como judeu a sociedade laica européia continuou a discriminá-lo como fizera quando a cristandade recusava-se a aceitar os nãos cristãos.
Então a coesão tinha motivos étnicos? Também não. A multiplicadade de etnias que se reconhecem como judeus é notória. Afinal o juadaísmo foi sempre uma religião de descendência - os filhos de Abraão - mas sempre uma religião aberta a receber fiéis de outras descendências e a misturar-se no meio dos povos em que habitaram. Por isso temos pelo menos dois grandes grupos reconhecíveis no judaísmo europeu: ashkenazin (em geral de pele clara e idioma ídiche, espalhados pela Europa Central e do Leste) e sefaradim (em geral de pele escura e idioma ladino, espalhados pelo Sul da Europa e pelo Norte da África e Oriente Médio).
Permanece então um grande mistério esta impressionante coesão de um povo, que manteve sua indentidade ao longo de cerca de 2 mil e 500 anos sem ter território, monarquia, idioma oficial ou característica étnica que pudesse identificá-lo.
No fim do século XIX, parte desses judeus secularizados, inspirados pelos muitos movimentos contra a opressão que surgiram em solo europeu (socialistas de vários tipos, anarquistas, nacionalistas, etc.) começaram a cogitar um Estado judeu. O movimento ganhou o nome de sionismo, e foi a primeira forma de reação coordenada que os judeus organizaram para resistir às violências que lhe foram impetradas em mil e quatrocentos anos de perseguição sistemática por parte dos cristãos europeus. Neste período a perseguição se tornou mais aguda na Europa Central e do Leste, criando ondas de migração massiva de judeus para os EUA e, pela primeira vez em muitos séculos, de volta à sua Terra Prometida na Palestina.
O genocídio nazista foi a gota d'água que levou as potências ocidentais a reconhecer um Estado judeu na Palestina. Era uma espécie de "desencargo de consciência" para com um povo tão durante perseguido em toda a história da Europa. Mas não passou disso - um desencargo de consciência, pois logo em seguida a região da Palestina tornou-se um eterno joguete político das potências, que tentaram agradar ao mesmo tempo o nascente nacionalismo pan-árabe e o recém-criado Estado de Israel. Logo estes dois lados do conflito passaram a dividir-se conforme os dois lados da Guerra Fria: União Soviética e seus asseclas comunistas espalhados pelo globo alinharam-se do lado árabe do conflito. Estados Unidos e seus asseclas capitalistas e fundamentalistas (duas faces da mesma moeda) alinharam-se do lado judeu. Ainda atrpalhados pelo arraigado anti-semitismo que continuou forte na Europa, especialmente entre os católicos.
Depois de resisitr a tudo isso, o Estado de Israel comemora 60 anos. Tornou-se a pátria de todos os judeus. Mesmo aqueles que têm outras pátrias e que nunca foram à Palestina. É hoje o único Estado minimamente democrático do continente asiático. Se conseguir desatar o nó do conflito com os Palestinos de forma negociada será o maior exemplo de pluralidade que o mundo precisa para o século XXI.
É este o tipo de comemoração que anima este blog.
Esta foi, leitor, a minha versão da história. Recomendo fortemente que você conheça também a versão do Pedro Dória e a do André Tavares - com uma importante réplica a um comentarista.
quinta-feira, 17 de abril de 2008
Judeus, cristãos e muçulmanos: quem é intolerante?
Nos últimos tempos, me engalfinhei aqui no blog num debate com o André Tavares por causa do conflito Israel Palestina. Escrevi um texto a propósito da discussão entre dois dos meus blogs favoritos, e acabei ganhando um debatedor e mais um blog favorito. Os meus textos estão aqui e aqui, e nos comentários estão as considerações do André Tavares.
Como o tema é muito relevante, e envolve questões históricas muito interessantes, vou prolongar um pouco essa discussão. Em outro comentário, desta vez respondendo um comentário meu no seu blog, André Tavares afirmou:
E não foram exatamente os cruzados que “perturbaram” o Oriente Médio, os muçulmanos já haviam invadido a península ibérica, tomado todo o norte da África (onde havia importantes centros cristãos como Alexandria, Cartago e Hipona) e ameaçavam Constantinopla e a Europa - era um real perigo para o Cristianismo que se concretizou com os otomanos. A iniciativa da expansão pelas armas, meu caro, é do Islam. Tomar Jerusalém e os lugares santos para os cristãos era um símbolo de resistência (veja bem que não estou negando as atrocidades e crimes dos cruzados) cristã.
A frase dele é a propósito de atribuir a quem a iniciativa pela violência no Oriente Médio. Acho que são questões bem diferentes, pois a violência atual tem mais a ver com as interferências colonialistas européias na região, desde fins do século XIX. Especificamente, a atual conjuntura regional decorre da ocupação da Palestina por Inglaterra e França após a derrocada do Império Otomano por ocasião da Primeira Guerra Mundial. A presença do Estado judeu na Palestina é também uma conseqüência direta da perseguição sofrida pelos judeus na Europa.
Além destas questões mais recentes, nossa discussão enveredou por um passado mais remoto. Eu atribuí o início da violência aos cruzados dos séculos XI a XIII, causando ressentimentos e vingança da parte dos muçulmanos. Por isso o André Tavares escreveu a frase acima, afirmando que a violência partiu do Islã na conquista da Palestina e Norte da África nos séculos VII e VIII.
Sobre esta questão, é preciso dizer que as rápidas conquistas militares dos muçulmanos não podem ser explicadas apenas pela lógica da violência e da supremacia militar. Trata-se sobretudo de uma conquista cultural, de uma região em crise – sem um Estado capaz de administra-la eficazmente. Neste pormenor, eu compararia com as conquistas que o império romano fez na Europa nos últimos séculos da era pré-cristã, ou como as conquistas de Alexandre no século IV a.C. Ou mesmo com as “invasões” germânicas ao império romano no século V da era cristã.
Trataram-se de uma vitórias culturais, muito mais do que militares. Não houve destruição em massa ou escravização dos povos subjugados. Nem houve tentativa de revolta dos dominados. Porque os dominadores mantiveram as estruturas políticas, culturais e religiosas pré-existentes, não fizeram grandes mudanças na estrutura populacional, mas apenas substituição nas elites governamentais.
Por isso eu diria que é incorreto atribuir a iniciativa da violência na região às primeiras conquistas muçulmanas. Os muçulmanos aproveitaram um vácuo de poder deixado pelo decadente império bizantino, e respeitaram sempre a diversidade religiosa pré-existente. Cristãos e judeus sempre foram bem tolerados no mundo islâmico, apesar de terem restrições jurídicas e econômicas. Os cristãos é que, a partir de Agostinho, passaram a negar aos não-cristãos e aos não suficientemente ortodoxos (taxados como hereges) o próprio direito à vida. Pergunte a um judeu do século VIII em diante aonde ele preferiria morar – na Europa cristã ou nos territórios muçulmanos? Pergunte aos cristãos monofisistas de Egito, Síria, Pérsia e Armênia o que eles preferiam – se o domínio da ortodoxia bizantina ou os governos muçulmanos.
Além do mais, não há registros de que os invasores muçulmanos tenham promovidos massacres e chacinas de populações inteiras como fizeram abundantemente os cruzados. Aliás, os judeus precisam lembrar que os cruzados começaram impetrando massacres aos judeus na Europa, como “exercício” para invadir a Palestina. Nos territórios bizantinos, os cruzados massacraram cristãos orotodoxos-gregos. E finalmente, terminaram seu rastro de sangue dizimando populações inteiras de cidades muçulmanas. Deixaram a marca indelével da violência e do ódio, coisa que não existia no período muçulmano.
Também é válido lembrar que o Norte da África já era palco de disputas há séculos. Tinha sido ocupado pelos colonizadores fenícios, que fundaram Cartago alguns séculos antes de Cristo. Foi invadida pelos romanos após a vitória nas guerras púnicas. Nos tempo de Agostinho, existia um profundo rancor das populações locais contra a ocupação romana, o que se traduziu nas revoltas donatistas – estudadas muitas vezes como mera heresia teológica. No século V os Vândalos invadiram e assolaram a região impondo o cristianismo ariano e perseguindo e matando o clero niceno. No século VI a região foi conquistada pelos bizantinos do imperador Justiniano. De modo que os muçulmanos no século VII/VIII não foram os iniciadores da violência no Norte da África. Nem tampouco ameaçaram algo que se pudesse considerar como um equilíbrio cristão na região. Vale lembrar que os primeiros a perpetrar violência na região foram os cristãos no século IV, quando começaram a perseguir os pagãos, matando-os e destruindo seus templos. Os cristãos chegaram mesmo a atear fogo à maior biblioteca da Antigüidade, em Alexandria, para impedir o contágio das idéias pagãs.
André Tavares também sugere que o Islã seja uma religião violenta por natureza, e que isso está claramente expresso no Corão. Ora, os textos sagrados judeus são plenos de violências, e mostram um Deus vingativo e impetrador de massacres e genocídios. A mesma lógica da violência religiosa perpassou o cristianismo, apesar de não haver apologia à violência no Novo Testamento. Houve até teólogos como Márciom, que no segundo século considerou que o Deus cristão não era o mesmo dos judeus por conta da violência dos textos do chamado Antigo Testamento. Obviamente as idéias de Márciom foram violentamente suprimidas do meio cristão...
Sobre a questão de ser o Islã uma religião violenta por definição, remeto a alguns textos do blog do Pedro Dória, onde isso está bem explicado.
Neste post Pedro Dória explica por que é incorreto classificar o islã como violento e intolerante. E olha que o Pedro Doria é judeu...
Aqui, também no blog do Pedro Doria, trecho de uma entrevista da historiadora Karen Armstrong, a propósito de seu livro sobre o budismo. Inclui a afirmação de que o monoteísmo tem a tendência para a intolerância, por propor o conceito de Deus único e verdade única. Isso inclui judeus, cristãos e muçulmanos. Daí para matar os que não concordam é um pequeno pulo...
Como se vê, intolerância e imposição violenta de “verdades” religiosas não é característica muçulmana. É característica do judaísmo, aprendida pelo cristianismo (com certeza não tem nada a ver com o exemplo do Cristo) e depois imitada pelo Islã.
Por isso, acho que culpar os muçulmanos pela violência no oriente médio não ajuda em nada a resolver a situação. É, isso sim, argumento de quem se beneficia com a escalada da violência e pretende perpetuá-la. O caminho para a paz passa pelo diálogo, e pela capacidade de compreender o outro. Sobre isso, temos o grande exemplo dado pelo judaísmo na figura de um Martin Buber, por exemplo. Sobre ele, falo em outra oportunidade...
Como o tema é muito relevante, e envolve questões históricas muito interessantes, vou prolongar um pouco essa discussão. Em outro comentário, desta vez respondendo um comentário meu no seu blog, André Tavares afirmou:
E não foram exatamente os cruzados que “perturbaram” o Oriente Médio, os muçulmanos já haviam invadido a península ibérica, tomado todo o norte da África (onde havia importantes centros cristãos como Alexandria, Cartago e Hipona) e ameaçavam Constantinopla e a Europa - era um real perigo para o Cristianismo que se concretizou com os otomanos. A iniciativa da expansão pelas armas, meu caro, é do Islam. Tomar Jerusalém e os lugares santos para os cristãos era um símbolo de resistência (veja bem que não estou negando as atrocidades e crimes dos cruzados) cristã.
A frase dele é a propósito de atribuir a quem a iniciativa pela violência no Oriente Médio. Acho que são questões bem diferentes, pois a violência atual tem mais a ver com as interferências colonialistas européias na região, desde fins do século XIX. Especificamente, a atual conjuntura regional decorre da ocupação da Palestina por Inglaterra e França após a derrocada do Império Otomano por ocasião da Primeira Guerra Mundial. A presença do Estado judeu na Palestina é também uma conseqüência direta da perseguição sofrida pelos judeus na Europa.
Além destas questões mais recentes, nossa discussão enveredou por um passado mais remoto. Eu atribuí o início da violência aos cruzados dos séculos XI a XIII, causando ressentimentos e vingança da parte dos muçulmanos. Por isso o André Tavares escreveu a frase acima, afirmando que a violência partiu do Islã na conquista da Palestina e Norte da África nos séculos VII e VIII.
Sobre esta questão, é preciso dizer que as rápidas conquistas militares dos muçulmanos não podem ser explicadas apenas pela lógica da violência e da supremacia militar. Trata-se sobretudo de uma conquista cultural, de uma região em crise – sem um Estado capaz de administra-la eficazmente. Neste pormenor, eu compararia com as conquistas que o império romano fez na Europa nos últimos séculos da era pré-cristã, ou como as conquistas de Alexandre no século IV a.C. Ou mesmo com as “invasões” germânicas ao império romano no século V da era cristã.
Trataram-se de uma vitórias culturais, muito mais do que militares. Não houve destruição em massa ou escravização dos povos subjugados. Nem houve tentativa de revolta dos dominados. Porque os dominadores mantiveram as estruturas políticas, culturais e religiosas pré-existentes, não fizeram grandes mudanças na estrutura populacional, mas apenas substituição nas elites governamentais.
Por isso eu diria que é incorreto atribuir a iniciativa da violência na região às primeiras conquistas muçulmanas. Os muçulmanos aproveitaram um vácuo de poder deixado pelo decadente império bizantino, e respeitaram sempre a diversidade religiosa pré-existente. Cristãos e judeus sempre foram bem tolerados no mundo islâmico, apesar de terem restrições jurídicas e econômicas. Os cristãos é que, a partir de Agostinho, passaram a negar aos não-cristãos e aos não suficientemente ortodoxos (taxados como hereges) o próprio direito à vida. Pergunte a um judeu do século VIII em diante aonde ele preferiria morar – na Europa cristã ou nos territórios muçulmanos? Pergunte aos cristãos monofisistas de Egito, Síria, Pérsia e Armênia o que eles preferiam – se o domínio da ortodoxia bizantina ou os governos muçulmanos.
Além do mais, não há registros de que os invasores muçulmanos tenham promovidos massacres e chacinas de populações inteiras como fizeram abundantemente os cruzados. Aliás, os judeus precisam lembrar que os cruzados começaram impetrando massacres aos judeus na Europa, como “exercício” para invadir a Palestina. Nos territórios bizantinos, os cruzados massacraram cristãos orotodoxos-gregos. E finalmente, terminaram seu rastro de sangue dizimando populações inteiras de cidades muçulmanas. Deixaram a marca indelével da violência e do ódio, coisa que não existia no período muçulmano.
Também é válido lembrar que o Norte da África já era palco de disputas há séculos. Tinha sido ocupado pelos colonizadores fenícios, que fundaram Cartago alguns séculos antes de Cristo. Foi invadida pelos romanos após a vitória nas guerras púnicas. Nos tempo de Agostinho, existia um profundo rancor das populações locais contra a ocupação romana, o que se traduziu nas revoltas donatistas – estudadas muitas vezes como mera heresia teológica. No século V os Vândalos invadiram e assolaram a região impondo o cristianismo ariano e perseguindo e matando o clero niceno. No século VI a região foi conquistada pelos bizantinos do imperador Justiniano. De modo que os muçulmanos no século VII/VIII não foram os iniciadores da violência no Norte da África. Nem tampouco ameaçaram algo que se pudesse considerar como um equilíbrio cristão na região. Vale lembrar que os primeiros a perpetrar violência na região foram os cristãos no século IV, quando começaram a perseguir os pagãos, matando-os e destruindo seus templos. Os cristãos chegaram mesmo a atear fogo à maior biblioteca da Antigüidade, em Alexandria, para impedir o contágio das idéias pagãs.
André Tavares também sugere que o Islã seja uma religião violenta por natureza, e que isso está claramente expresso no Corão. Ora, os textos sagrados judeus são plenos de violências, e mostram um Deus vingativo e impetrador de massacres e genocídios. A mesma lógica da violência religiosa perpassou o cristianismo, apesar de não haver apologia à violência no Novo Testamento. Houve até teólogos como Márciom, que no segundo século considerou que o Deus cristão não era o mesmo dos judeus por conta da violência dos textos do chamado Antigo Testamento. Obviamente as idéias de Márciom foram violentamente suprimidas do meio cristão...
Sobre a questão de ser o Islã uma religião violenta por definição, remeto a alguns textos do blog do Pedro Dória, onde isso está bem explicado.
Neste post Pedro Dória explica por que é incorreto classificar o islã como violento e intolerante. E olha que o Pedro Doria é judeu...
Aqui, também no blog do Pedro Doria, trecho de uma entrevista da historiadora Karen Armstrong, a propósito de seu livro sobre o budismo. Inclui a afirmação de que o monoteísmo tem a tendência para a intolerância, por propor o conceito de Deus único e verdade única. Isso inclui judeus, cristãos e muçulmanos. Daí para matar os que não concordam é um pequeno pulo...
Como se vê, intolerância e imposição violenta de “verdades” religiosas não é característica muçulmana. É característica do judaísmo, aprendida pelo cristianismo (com certeza não tem nada a ver com o exemplo do Cristo) e depois imitada pelo Islã.
Por isso, acho que culpar os muçulmanos pela violência no oriente médio não ajuda em nada a resolver a situação. É, isso sim, argumento de quem se beneficia com a escalada da violência e pretende perpetuá-la. O caminho para a paz passa pelo diálogo, e pela capacidade de compreender o outro. Sobre isso, temos o grande exemplo dado pelo judaísmo na figura de um Martin Buber, por exemplo. Sobre ele, falo em outra oportunidade...
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terça-feira, 15 de abril de 2008
Zuzu Angel
Uma jovem mãe, separada do marido, com três filhos pequenos para criar. Costura para sustentar a família, mas aos poucos torna-se uma grande estilista de sucesso internacional.
Enquanto isso, durante os “anos de chumbo” do regime militar, seu filho Stuart entra no movimento estudantil e, em seguida, na luta armada e na clandestinidade. Participa do grupo de Carlos Lamarca (o filme não menciona a sigla, mas que eu me lembre é VPR – Vanguarda Popular Revolucionária), termina preso, torturado, morto e tem o corpo jogado ao mar.
Em torno desta tragédia pessoal (e de toda um geração), se passa a narrativa do filme. A luta política de uma mãe para encontrar o filho, garantir sua integridade. Depois de receber a notícia de sua morte, a luta para ter o direito de sepultá-lo e para ver condenados os assassinos de Estado.
O tema é tão melindroso, e ao mesmo tempo rico, que permite ótimos trabalhos artísticos. Lembro de outros que já ficaram clássicos sobre a luta armada no cinema brasileiro: O que é isso companheiro e Lamarca, o capitão da guerrilha. Zuzu Angel está à altura de ambos. É grande cinema, como já estamos ficando acostumados a ver sendo feito no Brasil da última década. É um filme digno da memória de uma mulher de fibra, e digno da luta de uma geração por justiça social e democracia.
O drama de Zuzu é embalado pela belíssima trilha sonora de Cristóvão Bastos, um dos grandes músicos brasileiros, por muito tempo arranjador e líder da banda de Chico Buarque. Imagino que 80 por cento do clima psicológico criado pelo filme é de responsabilidade da trilha sonora.
Enfim, é cinema profissional. Cenários, figurinos, atores, fotografia, direção – tudo de alto nível. E aquela qualidade que só o cinema nacional proporciona: o reconhecer-se na tela, nas paisagens, nas falas dos personagens, nas histórias vividas e narradas.
Mas como o filme trata de um tema histórico de absoluta relevância, não posso deixar de fazer uma leitura da história do Brasil a partir dos eventos que o filme traz. Me parece que há uma clara dicotomia neste filme, e em todos que tratam da luta armada contra o regime militar. Como não existe cineasta disposto a elogiar os milicos, a história será sempre uma glorificação dos jovens quixotescos que tentaram lutar por justiça social, fazer a revolução brasileira.
Mas nesta história não há tanta clareza sobre quem são os mocinhos e quem são os bandidos. Acredito que o cinema brasileiro vai dar mostras de amadurecimento quando puder tratar este tema sem glamourizar a guerrilha e demonizar a “ditadura”. Coloco o termo entre aspas porque sociologicamente incorreto. Não houve ditadura. Houve governantes militares, com congresso funcionando, eleições (não sei se eram menos livres que as que temos hoje), judiciário (era tão conservador como continua sendo) e, obviamente, amplo apoio popular.
Por outro lado, a luta armada era uma dissidência minoritária da esquerda no país. Uma estratégia política burra que serviu para justificar o endurecimento do regime militar, suas arbitrariedades e torturas. Afinal, o “perigo vermelho” era uma ameaça real, intolerável para as classes dominantes do Brasil.
Não deixaria de ser um exercício útil pensar como seria o regime político caso os stalinistas do PCdoB (e de outros grupelhos dissidentes) tivessem tomado o poder do Estado. Para os que tentam vender a imagem de uma esquerda feita de jovens idealistas seria talvez o mundo da justiça e da solução dos problemas sociais do país. Os exemplos que embalavam os sonhos destes jovens (União Soviética, China e Cuba) talvez sejam um bom modelo para reflexão.
Pergunto: quando o cinema nacional vai aprender com Caetano Veloso e outros artistas da época, e colocar a juventude comunista no merecido lugar histórico? Afinal, idealizar este tipo de passado não traz grandes benefícios para nosso futuro.
Enquanto isso, durante os “anos de chumbo” do regime militar, seu filho Stuart entra no movimento estudantil e, em seguida, na luta armada e na clandestinidade. Participa do grupo de Carlos Lamarca (o filme não menciona a sigla, mas que eu me lembre é VPR – Vanguarda Popular Revolucionária), termina preso, torturado, morto e tem o corpo jogado ao mar.
Em torno desta tragédia pessoal (e de toda um geração), se passa a narrativa do filme. A luta política de uma mãe para encontrar o filho, garantir sua integridade. Depois de receber a notícia de sua morte, a luta para ter o direito de sepultá-lo e para ver condenados os assassinos de Estado.
O tema é tão melindroso, e ao mesmo tempo rico, que permite ótimos trabalhos artísticos. Lembro de outros que já ficaram clássicos sobre a luta armada no cinema brasileiro: O que é isso companheiro e Lamarca, o capitão da guerrilha. Zuzu Angel está à altura de ambos. É grande cinema, como já estamos ficando acostumados a ver sendo feito no Brasil da última década. É um filme digno da memória de uma mulher de fibra, e digno da luta de uma geração por justiça social e democracia.
O drama de Zuzu é embalado pela belíssima trilha sonora de Cristóvão Bastos, um dos grandes músicos brasileiros, por muito tempo arranjador e líder da banda de Chico Buarque. Imagino que 80 por cento do clima psicológico criado pelo filme é de responsabilidade da trilha sonora.
Enfim, é cinema profissional. Cenários, figurinos, atores, fotografia, direção – tudo de alto nível. E aquela qualidade que só o cinema nacional proporciona: o reconhecer-se na tela, nas paisagens, nas falas dos personagens, nas histórias vividas e narradas.
Mas como o filme trata de um tema histórico de absoluta relevância, não posso deixar de fazer uma leitura da história do Brasil a partir dos eventos que o filme traz. Me parece que há uma clara dicotomia neste filme, e em todos que tratam da luta armada contra o regime militar. Como não existe cineasta disposto a elogiar os milicos, a história será sempre uma glorificação dos jovens quixotescos que tentaram lutar por justiça social, fazer a revolução brasileira.
Mas nesta história não há tanta clareza sobre quem são os mocinhos e quem são os bandidos. Acredito que o cinema brasileiro vai dar mostras de amadurecimento quando puder tratar este tema sem glamourizar a guerrilha e demonizar a “ditadura”. Coloco o termo entre aspas porque sociologicamente incorreto. Não houve ditadura. Houve governantes militares, com congresso funcionando, eleições (não sei se eram menos livres que as que temos hoje), judiciário (era tão conservador como continua sendo) e, obviamente, amplo apoio popular.
Por outro lado, a luta armada era uma dissidência minoritária da esquerda no país. Uma estratégia política burra que serviu para justificar o endurecimento do regime militar, suas arbitrariedades e torturas. Afinal, o “perigo vermelho” era uma ameaça real, intolerável para as classes dominantes do Brasil.
Não deixaria de ser um exercício útil pensar como seria o regime político caso os stalinistas do PCdoB (e de outros grupelhos dissidentes) tivessem tomado o poder do Estado. Para os que tentam vender a imagem de uma esquerda feita de jovens idealistas seria talvez o mundo da justiça e da solução dos problemas sociais do país. Os exemplos que embalavam os sonhos destes jovens (União Soviética, China e Cuba) talvez sejam um bom modelo para reflexão.
Pergunto: quando o cinema nacional vai aprender com Caetano Veloso e outros artistas da época, e colocar a juventude comunista no merecido lugar histórico? Afinal, idealizar este tipo de passado não traz grandes benefícios para nosso futuro.
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sexta-feira, 28 de março de 2008
A trilogia do sul de Silvio Back
Acabo de assistir à defesa da tese de doutorado da colega Rosane Kaminski sobre três filmes do diretor Silvio Back.
O trabalho foi muito elogiado pelos professores da banca, e prometo colocar o link aqui assim que estiver disponível a tese em versão digital.
Ressalto que os professores comentaram que trata-se de um trabalho fundamental sobre um cineasta injustamente omitido no canon do cinema brasileiro. O trabalho da Rosane resgata um pouco dessa obra através de cuidadosa pesquisa histórica.
Os filmes tratados na tese são Lance maior (1968), Guerra dos pelados (1970) e Aleluia Gretchen (1976). Dialogam com o Cinema Novo, mas tentam oferecer uma visão sulista, em contraposição à temática nordestina (Glauber) ou carioca (Nelson Pereira dos Santos). Por isso chamar ao conjunto dos três filmes de "trilogia do sul".
Fico com a pulga atrás da orelha para ver os filmes e ler a tese.
O trabalho foi muito elogiado pelos professores da banca, e prometo colocar o link aqui assim que estiver disponível a tese em versão digital.
Ressalto que os professores comentaram que trata-se de um trabalho fundamental sobre um cineasta injustamente omitido no canon do cinema brasileiro. O trabalho da Rosane resgata um pouco dessa obra através de cuidadosa pesquisa histórica.
Os filmes tratados na tese são Lance maior (1968), Guerra dos pelados (1970) e Aleluia Gretchen (1976). Dialogam com o Cinema Novo, mas tentam oferecer uma visão sulista, em contraposição à temática nordestina (Glauber) ou carioca (Nelson Pereira dos Santos). Por isso chamar ao conjunto dos três filmes de "trilogia do sul".
Fico com a pulga atrás da orelha para ver os filmes e ler a tese.
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Mais Israel-Palestina
Este blog começa a receber visitas ilustres e provocar algum debate.
Me meti a escrever sobre um tema espinhoso e difícil, e recebi um justo puxão de orelha do meu chará do Contra-senso nos comentários do último post que fiz sobre este tema.
Corrijo-me aqui de alguns escorregões e discuto algumas colocações do comentarista:
Se pode ser exagero do Idelber falar em chacina, por outro lado, comparar o número de mortos em outros conflitos não alivia a barra de Israel. Nunca pretendi dizer, que Israel seja o culpado da situação de conflito. A confiar nas informações de Paul Johnson em sua História dos Judeus, ambos os lados contribuíram muito para o problema. Os árabes vizinhos nunca aceitaram o estado judeu, e, por conta disso, nunca incorporaram os refugiados palestinos deslocados pela migração de judeus europeus (askenazin) que vieram povoar o novo Estado. Por outro lado, dizer que os árabes pretendem a eliminação do Estado de Israel é parcialmente verdadeiro e parcialmente falacioso. Recusar o "Estado Judeu" significa reivindicar um Estado plural como o que existe no Líbano, com pluralidade de representação religiosa na partilha do poder político.
Quando disse que há sobrerrepresentação judaica na imprensa não pretendi mostrar qualquer ponta de anti-semitismo. Não citaria jamais "os protocolos" como afirma o meu chará, subestimando um pouco minha inteligência. Há sim um percentual maior de judeus na atividade jornalística, como em toda atividade intelectual (cientistas, escritores, filósofos, etc) e no comércio. Não é devido a questões de aptidão étnica, mas de tradição de valorização da educação, do debate contraditório (não é à toa que meu amigo chama seu blog de contra-senso) até mesmo pelas inúmeras restriões a se fixar à terra e possuir bens que os judeus sempre enfrentaram na história.
Assim, sobrerrepresentação na imprensa não significa que todos os jornalistas judeus sejam ativamente pró-Israel. Acho que niguém critica mais os judeus do que os próprios judeus. Por outro lado, não há como negar que os judeus têm maior capacidade intelectual e organizativa para preservar sua memória. Inclusive através de uma fabulosa rede de proteção mútua internacional que vêm permitindo a sobrevivência deste povo há milênios. Só para lembrar, homossexuais, comunistas e eslavos (poloneses - 9 milhões de mortos, e russos - 20 milhões) foram vitimizados pelo nazismo até em maior número do que os judeus. Mas estes conseguiram preservar muito melhor a sua memória, de modo que o mundo nunca mais se esqueça.
Há ainda mais um componente que não pode ser esquecido, sobre o qual deixo para escrever em outros posts: o fundamentalismo evangélico e sua escatologia.
Me meti a escrever sobre um tema espinhoso e difícil, e recebi um justo puxão de orelha do meu chará do Contra-senso nos comentários do último post que fiz sobre este tema.
Corrijo-me aqui de alguns escorregões e discuto algumas colocações do comentarista:
Se pode ser exagero do Idelber falar em chacina, por outro lado, comparar o número de mortos em outros conflitos não alivia a barra de Israel. Nunca pretendi dizer, que Israel seja o culpado da situação de conflito. A confiar nas informações de Paul Johnson em sua História dos Judeus, ambos os lados contribuíram muito para o problema. Os árabes vizinhos nunca aceitaram o estado judeu, e, por conta disso, nunca incorporaram os refugiados palestinos deslocados pela migração de judeus europeus (askenazin) que vieram povoar o novo Estado. Por outro lado, dizer que os árabes pretendem a eliminação do Estado de Israel é parcialmente verdadeiro e parcialmente falacioso. Recusar o "Estado Judeu" significa reivindicar um Estado plural como o que existe no Líbano, com pluralidade de representação religiosa na partilha do poder político.
Quando disse que há sobrerrepresentação judaica na imprensa não pretendi mostrar qualquer ponta de anti-semitismo. Não citaria jamais "os protocolos" como afirma o meu chará, subestimando um pouco minha inteligência. Há sim um percentual maior de judeus na atividade jornalística, como em toda atividade intelectual (cientistas, escritores, filósofos, etc) e no comércio. Não é devido a questões de aptidão étnica, mas de tradição de valorização da educação, do debate contraditório (não é à toa que meu amigo chama seu blog de contra-senso) até mesmo pelas inúmeras restriões a se fixar à terra e possuir bens que os judeus sempre enfrentaram na história.
Assim, sobrerrepresentação na imprensa não significa que todos os jornalistas judeus sejam ativamente pró-Israel. Acho que niguém critica mais os judeus do que os próprios judeus. Por outro lado, não há como negar que os judeus têm maior capacidade intelectual e organizativa para preservar sua memória. Inclusive através de uma fabulosa rede de proteção mútua internacional que vêm permitindo a sobrevivência deste povo há milênios. Só para lembrar, homossexuais, comunistas e eslavos (poloneses - 9 milhões de mortos, e russos - 20 milhões) foram vitimizados pelo nazismo até em maior número do que os judeus. Mas estes conseguiram preservar muito melhor a sua memória, de modo que o mundo nunca mais se esqueça.
Há ainda mais um componente que não pode ser esquecido, sobre o qual deixo para escrever em outros posts: o fundamentalismo evangélico e sua escatologia.
terça-feira, 25 de março de 2008
Missões e cultura local – os jesuítas no Brasil
Um dos maiores problemas de enviar um mensageiro religioso para pregar a outras culturas é que é bem difícil saber onde termina a pregação religiosa e começa o massacre cultural.
Além do massacre cultural, a evangelização/colonização de povos “pagãos” pelos cristãos europeus perpetrou também massacres físicos, com a guerra, a escravização, a morte por doenças contagiosas e, até mesmo, a simples chacina dos que se recusaram aderir à nova fé.
Mas, entre as muitas práticas condenáveis dos missionários, alguns fatores positivos chamam a atenção. Entre os indígenas da América, os missionários jesuítas muitas vezes se posicionaram como atenuadores dos horrores da colonização, preocupando-se em olhar para a cultura do outro e não apenas destruí-la.
Eles foram os pioneiros no estudo das línguas indígenas, desenvolvendo as chamadas “línguas gerais” nas colônias portuguesas. Para estas línguas escreveram gramáticas, catecismos e também músicas.
Pelo que indicam os documentos mais antigos, no início de sua atuação, os jesuítas utilizavam-se, além da língua dos índios, também de suas melodias. Uma das críticas do Bispo Sardinha era que os meninos órfãos cantavam “cantares de Nossa Senhora ao tom gentílico” (Car.PeSar.1, 1552, p. 358); em resposta, Nóbrega afirmou que uma forma de atrair os índios era “cantar cantigas de Nosso Senhor em sua língua e pelo seu tom” (Car.MaNob.6, [1552], p. 407). Não foram encontradas referências posteriores ao uso de melodias indígenas ou de cantigas “pelo seu tom”. Exatamente como ocorreu com o uso dos instrumentos dos índios, essa prática provavelmente foi logo abandonada. (Holler, 2006, p. 157)
Car.PeSar.1, 1552.
Carta do Bispo D. Pedro Fernandes Sardinha ao Padre Simão Rodrigues. [Bahia, julho de 1552].
Car.MaNob.6, 1552.
Carta do Padre Manoel da Nóbrega ao Padre Simão Rodrigues. [Bahia, fins de agosto de 1552].
Além do massacre cultural, a evangelização/colonização de povos “pagãos” pelos cristãos europeus perpetrou também massacres físicos, com a guerra, a escravização, a morte por doenças contagiosas e, até mesmo, a simples chacina dos que se recusaram aderir à nova fé.
Mas, entre as muitas práticas condenáveis dos missionários, alguns fatores positivos chamam a atenção. Entre os indígenas da América, os missionários jesuítas muitas vezes se posicionaram como atenuadores dos horrores da colonização, preocupando-se em olhar para a cultura do outro e não apenas destruí-la.
Eles foram os pioneiros no estudo das línguas indígenas, desenvolvendo as chamadas “línguas gerais” nas colônias portuguesas. Para estas línguas escreveram gramáticas, catecismos e também músicas.
Pelo que indicam os documentos mais antigos, no início de sua atuação, os jesuítas utilizavam-se, além da língua dos índios, também de suas melodias. Uma das críticas do Bispo Sardinha era que os meninos órfãos cantavam “cantares de Nossa Senhora ao tom gentílico” (Car.PeSar.1, 1552, p. 358); em resposta, Nóbrega afirmou que uma forma de atrair os índios era “cantar cantigas de Nosso Senhor em sua língua e pelo seu tom” (Car.MaNob.6, [1552], p. 407). Não foram encontradas referências posteriores ao uso de melodias indígenas ou de cantigas “pelo seu tom”. Exatamente como ocorreu com o uso dos instrumentos dos índios, essa prática provavelmente foi logo abandonada. (Holler, 2006, p. 157)
Car.PeSar.1, 1552.
Carta do Bispo D. Pedro Fernandes Sardinha ao Padre Simão Rodrigues. [Bahia, julho de 1552].
Car.MaNob.6, 1552.
Carta do Padre Manoel da Nóbrega ao Padre Simão Rodrigues. [Bahia, fins de agosto de 1552].
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domingo, 23 de março de 2008
O conflito Israel-Palestina
.
(atualização: se você chegou aqui pelo google, este é meu post mais antigo sobre o assunto. O mais atual é este: Propostas de solução para o conflito Israel-Palestina: carta aberta de Uri Avnery a Barak Obama)
O conflito Israel-Palestina é uma das grandes questões do mundo contemporâneo. É polêmica pura. Envolve paixões. Tem origens históricas profundas. Por tudo isso, não é uma questão simples.
Neste início de 2008 a violência teve nova escalada na região, com vários ataques militares israelenses. A última vez que vi publicada uma contagem de mortos palestinos o número já estava em mais de duzentos. Civis. Velhos, mulheres e crianças.
Em decorrência disso, dois grandes blogueiros se engalfinharam numa disputa particular em torno da questão Israel-Palestina. O Pedro Dória escrevendo do ponto de vista judeu e o Idelber Avelar escrevendo do ponto de vista Palestino.
Pedro Dória é um jornalista muito experiente, especialmente dedicado a questões internacionais, tema a respeito do qual seu blog é sempre uma das grandes fontes de informação na internet. Idelber Avelar é professor doutor de literatura latino-americana em universidade nos EUA. É no mínimo um intelectual de altíssimo nível, certamente não apenas conhecedor de literatura, mas também de música, de política e de história.
O Pedro Doria escreveu um post no qual mostra que os dois lados estão errados na questão – uma posição equilibrada que é, a meu ver, a chave para a solução do conflito. Violência se paga com violência – assim grupos de libertação da Palestina e o exército israelense estão num círculo vicioso do qual não existe saída.
O Idelber Avelar se ofendeu e escreveu um post desancando o amigo. Culpa dos dois lados? Nada disso. Israel é que tem o poder e oprime os palestinos (é verdade mesmo), que só reagem. O post do Idelber tem fotos, e faz uma coisa que a imprensa não costuma fazer: mostra o sofrimento dos palestinos, sua humanidade.
Em tempos pós atentado às torres gêmeas de Nova Iorque as únicas imagens que vemos de muçulmanos é a de monstros-assassinos-terroristas-saguinários. Mentira. Propagada por uma imprensa norte-americana muito poderosa e intimamente ligada aos interesses da geo-política do país e de seus governos. Lembremo-nos que existe também um número desproporcionalmente alto de judeus na atividade jornalística em todo o Ocidente, bem como uma incrível parcela de capital de judeus no controle dos grandes grupos de comunicação. O próprio Pedro Dória afirma-se simpático à causa judaica também por origem de família. Por causa disso, acho que o Idelber faz um papel importante no debate: defende o lado mais fraco, sempre sub-representado em todos os debates sobre a questão.
Principalmente depois que os EUA venceram a Guerra Fria, e deixou de existir um forte movimento comunista internacional que sempre se postava a favor dos árabes, se não por outro motivo, pelo menos para ser contra os interesses norte-americanos.
Acontece que o Idelber é amigo do Pedro Doria, e esqueceu de avisar que ia colocar um post tão forte. Isso ofendeu o jornalista, que escreveu um post jogando a toalha. Mais ou menos o que ele diz é que não vale a pena se desgastar num debate tão violento e que sempre deixa profundas marcas. Afinal, é impossível discutir a questão sem receber os respingos do esgoto anti-semita que ainda anda tão forte por este mundo afora.
O Idelber se comoveu com a dor do amigo e tentou contemporizar num outro post. Inclusive foi alertado por leitores que tinha entendido errado algumas coisas que o Doria escreveu. É o típico caso em que o intelecto se turva pelas emoções e as palavras viram símbolos de uma luta intestina.
Passado algum tempo, o Idelber volta à questão. Para sorte dos leitores interessados, os melindres não paralisaram o debate, que é muito necessário. Ainda mais quando envolve dois conhecedores como os nossos blogueiros. Agora ele propôs um livro como leitura para o debate, convidando os leitores do blog a entrarem na dança. O Doria topou. Mas propôs mais livros, onde a questão não fosse vista apenas pelo lado pró Palestina.
Rafael Galvão complementou a questão, ajudando a entender por que não é absurdo comparar a atual política israelense com a dos nazistas.
Aqui do blog, vou acompanhar a questão. Não poderei ler os livros propostos por falta de tempo agora. Mas vou escrever mais sobre o tema, especialmente tentando trazer subsídios históricos que ajudem a elucidar o conflito mais intrincado do século XX, já se desdobrando pelo século XXI adentro...
(atualização: se você chegou aqui pelo google, este é meu post mais antigo sobre o assunto. O mais atual é este: Propostas de solução para o conflito Israel-Palestina: carta aberta de Uri Avnery a Barak Obama)
O conflito Israel-Palestina é uma das grandes questões do mundo contemporâneo. É polêmica pura. Envolve paixões. Tem origens históricas profundas. Por tudo isso, não é uma questão simples.
Neste início de 2008 a violência teve nova escalada na região, com vários ataques militares israelenses. A última vez que vi publicada uma contagem de mortos palestinos o número já estava em mais de duzentos. Civis. Velhos, mulheres e crianças.
Em decorrência disso, dois grandes blogueiros se engalfinharam numa disputa particular em torno da questão Israel-Palestina. O Pedro Dória escrevendo do ponto de vista judeu e o Idelber Avelar escrevendo do ponto de vista Palestino.
Pedro Dória é um jornalista muito experiente, especialmente dedicado a questões internacionais, tema a respeito do qual seu blog é sempre uma das grandes fontes de informação na internet. Idelber Avelar é professor doutor de literatura latino-americana em universidade nos EUA. É no mínimo um intelectual de altíssimo nível, certamente não apenas conhecedor de literatura, mas também de música, de política e de história.
O Pedro Doria escreveu um post no qual mostra que os dois lados estão errados na questão – uma posição equilibrada que é, a meu ver, a chave para a solução do conflito. Violência se paga com violência – assim grupos de libertação da Palestina e o exército israelense estão num círculo vicioso do qual não existe saída.
O Idelber Avelar se ofendeu e escreveu um post desancando o amigo. Culpa dos dois lados? Nada disso. Israel é que tem o poder e oprime os palestinos (é verdade mesmo), que só reagem. O post do Idelber tem fotos, e faz uma coisa que a imprensa não costuma fazer: mostra o sofrimento dos palestinos, sua humanidade.
Em tempos pós atentado às torres gêmeas de Nova Iorque as únicas imagens que vemos de muçulmanos é a de monstros-assassinos-terroristas-saguinários. Mentira. Propagada por uma imprensa norte-americana muito poderosa e intimamente ligada aos interesses da geo-política do país e de seus governos. Lembremo-nos que existe também um número desproporcionalmente alto de judeus na atividade jornalística em todo o Ocidente, bem como uma incrível parcela de capital de judeus no controle dos grandes grupos de comunicação. O próprio Pedro Dória afirma-se simpático à causa judaica também por origem de família. Por causa disso, acho que o Idelber faz um papel importante no debate: defende o lado mais fraco, sempre sub-representado em todos os debates sobre a questão.
Principalmente depois que os EUA venceram a Guerra Fria, e deixou de existir um forte movimento comunista internacional que sempre se postava a favor dos árabes, se não por outro motivo, pelo menos para ser contra os interesses norte-americanos.
Acontece que o Idelber é amigo do Pedro Doria, e esqueceu de avisar que ia colocar um post tão forte. Isso ofendeu o jornalista, que escreveu um post jogando a toalha. Mais ou menos o que ele diz é que não vale a pena se desgastar num debate tão violento e que sempre deixa profundas marcas. Afinal, é impossível discutir a questão sem receber os respingos do esgoto anti-semita que ainda anda tão forte por este mundo afora.
O Idelber se comoveu com a dor do amigo e tentou contemporizar num outro post. Inclusive foi alertado por leitores que tinha entendido errado algumas coisas que o Doria escreveu. É o típico caso em que o intelecto se turva pelas emoções e as palavras viram símbolos de uma luta intestina.
Passado algum tempo, o Idelber volta à questão. Para sorte dos leitores interessados, os melindres não paralisaram o debate, que é muito necessário. Ainda mais quando envolve dois conhecedores como os nossos blogueiros. Agora ele propôs um livro como leitura para o debate, convidando os leitores do blog a entrarem na dança. O Doria topou. Mas propôs mais livros, onde a questão não fosse vista apenas pelo lado pró Palestina.
Rafael Galvão complementou a questão, ajudando a entender por que não é absurdo comparar a atual política israelense com a dos nazistas.
Aqui do blog, vou acompanhar a questão. Não poderei ler os livros propostos por falta de tempo agora. Mas vou escrever mais sobre o tema, especialmente tentando trazer subsídios históricos que ajudem a elucidar o conflito mais intrincado do século XX, já se desdobrando pelo século XXI adentro...
sexta-feira, 21 de março de 2008
Piaf
Quinta-feira fui à locadora escolher um filme para o feriado. Pela primeira vez na vida escolhi um que estava no cartaz de divulgação (normalmente nem alugo lançamento, pois é mais caro, e tem tanto filmão em catálogo).
Trata-se da biografia de um dos grandes nomes da música francesa, a cantora Edith Piaf. História de vida com todos os ingredientes para dar um bom filme: infância trágica, pais problemáticos, criada num bordel da Bretanha enquanto o pai estava na guerra. A mãe não tinha as faculdades mentais em ordem para criar a filha. Adolescência passada na boemia, cantando na rua para conseguir sustento.
Ali descoberta pelo dono de um café-concerto, depois “adotada” por um professor de canto e em passos rápidos para a fama. Carreira norte-americana. Bebida farta. Um reumatismo que a faz parecer octogenária aos 40 anos. A morte trágica aos 48, após passar mal no palco em vários shows.
Eu não tinha idéia de quem fosse esta grande personagem. O nome me dava a vaga noção de ser uma cantora francesa de renome. A história de vida a faz semelhante a tantas outras damas do jazz ou da música popular, como Billie Holiday, nascida no mesmo dia.
O filme é muito bem produzido. Cenários caprichados, bons atores. É claro, ótima música. A crítica talvez exagere um pouco nos elogios.
O que me chama a atenção, sobretudo, é a corda bamba em que se passa a vida de gente como Piaf. Tragédia pessoal aliada a um talento incomum. Um ser à margem do socialmente aceitável, mas ao mesmo tempo admirada e muito rica. O brilhantismo artístico na beira do precipício da loucura. Será que os mais talentosos são também os que têm mais dificuldade de se amoldar a certas convenções sociais?
Trata-se da biografia de um dos grandes nomes da música francesa, a cantora Edith Piaf. História de vida com todos os ingredientes para dar um bom filme: infância trágica, pais problemáticos, criada num bordel da Bretanha enquanto o pai estava na guerra. A mãe não tinha as faculdades mentais em ordem para criar a filha. Adolescência passada na boemia, cantando na rua para conseguir sustento.
Ali descoberta pelo dono de um café-concerto, depois “adotada” por um professor de canto e em passos rápidos para a fama. Carreira norte-americana. Bebida farta. Um reumatismo que a faz parecer octogenária aos 40 anos. A morte trágica aos 48, após passar mal no palco em vários shows.
Eu não tinha idéia de quem fosse esta grande personagem. O nome me dava a vaga noção de ser uma cantora francesa de renome. A história de vida a faz semelhante a tantas outras damas do jazz ou da música popular, como Billie Holiday, nascida no mesmo dia.
O filme é muito bem produzido. Cenários caprichados, bons atores. É claro, ótima música. A crítica talvez exagere um pouco nos elogios.
O que me chama a atenção, sobretudo, é a corda bamba em que se passa a vida de gente como Piaf. Tragédia pessoal aliada a um talento incomum. Um ser à margem do socialmente aceitável, mas ao mesmo tempo admirada e muito rica. O brilhantismo artístico na beira do precipício da loucura. Será que os mais talentosos são também os que têm mais dificuldade de se amoldar a certas convenções sociais?
sábado, 6 de outubro de 2007
Peri Mesquida analisa projeto educacional dos metodistas
Mesquida, Peri. Hegemonia norte-americana e educação protestante no Brasil. Juiz de Fora/São Bernardo do Campo: EDUFJF/Editeo, 1994.
Importante contribuição ao estudo do protestantismo no Brasil. Mais ainda: o autor faz relevantes contribuições ao entendimento da própria história da educação no Brasil e arrisca até mesmo novas interpretações sobre a história política. Segundo ele, o protestantismo teve mais facilidade de se implantar nas regiões mais progressistas do país, nas novas regiões cafeeiras onde os senhores de terras eram também consorciados na construção de estradas de ferro e indústrias e que se tornariam a dissidência republicana dentro da elite econômica do sudeste. Conforme demonstra o autor, o setor mais dinâmico da economia nacional, notadamente nas regiões próximas às cidades de Campinas (SP) e Juiz de Fora (MG) estava nas mãos de uma elite favorável aos processos de modernização do país e, por isso, eram simpáticos ao protestantismo.
O livro analisa como o protestantismo construiu esta identidade modernizadora, pela qual foi aceito na sociedade brasileira. O autor concetra-se na igreja metodista, que se tornou a maior denominação cristã nos EUA e a que mais investiu em educação no Brasil. Há inclusive uma síntese histórica do surgimento do metodismo na inglaterra e sua implantação nos EUA, com uma surpreendente revelação para mim: John Wesley era maçom, assim como George Withefield (estranho que os avivalistas de hoje demonizem a maçonaria - pena que não saibam que os pais do avivalismo eram maçons).
A parte original da pesquisa do autor é a história das instituições de ensino metodistas no Brasil, escolhidas como a principal estratégia de implantação desta denominação no país. A tese do autor é a de que a preocupação com a implantação da hegemonia norte-americana no Brasil foi mais importante do que o crescimento da própria denominação metodista, o que a fez perder a posição de maior igreja protestante no país para presbiterianos e batistas. Vale a pena conferir a argumentação e a documentação apresentadas.
Os capítulos de síntese bibliográfica também são muito bem escritos (sobre implantação do protestantismo no Brasil, sobre metodismo na Inglaterra e nos EUA e até mesmo sobre o movimento republicano no país) aumentando o interesse da obra. Leitura indispensável para entender a história do protestantismo no país, e muito útil também para interessados em história da educãção. Tem na biblioteca da Faculdade Teológica Batista do Paraná.
Importante contribuição ao estudo do protestantismo no Brasil. Mais ainda: o autor faz relevantes contribuições ao entendimento da própria história da educação no Brasil e arrisca até mesmo novas interpretações sobre a história política. Segundo ele, o protestantismo teve mais facilidade de se implantar nas regiões mais progressistas do país, nas novas regiões cafeeiras onde os senhores de terras eram também consorciados na construção de estradas de ferro e indústrias e que se tornariam a dissidência republicana dentro da elite econômica do sudeste. Conforme demonstra o autor, o setor mais dinâmico da economia nacional, notadamente nas regiões próximas às cidades de Campinas (SP) e Juiz de Fora (MG) estava nas mãos de uma elite favorável aos processos de modernização do país e, por isso, eram simpáticos ao protestantismo.
O livro analisa como o protestantismo construiu esta identidade modernizadora, pela qual foi aceito na sociedade brasileira. O autor concetra-se na igreja metodista, que se tornou a maior denominação cristã nos EUA e a que mais investiu em educação no Brasil. Há inclusive uma síntese histórica do surgimento do metodismo na inglaterra e sua implantação nos EUA, com uma surpreendente revelação para mim: John Wesley era maçom, assim como George Withefield (estranho que os avivalistas de hoje demonizem a maçonaria - pena que não saibam que os pais do avivalismo eram maçons).
A parte original da pesquisa do autor é a história das instituições de ensino metodistas no Brasil, escolhidas como a principal estratégia de implantação desta denominação no país. A tese do autor é a de que a preocupação com a implantação da hegemonia norte-americana no Brasil foi mais importante do que o crescimento da própria denominação metodista, o que a fez perder a posição de maior igreja protestante no país para presbiterianos e batistas. Vale a pena conferir a argumentação e a documentação apresentadas.
Os capítulos de síntese bibliográfica também são muito bem escritos (sobre implantação do protestantismo no Brasil, sobre metodismo na Inglaterra e nos EUA e até mesmo sobre o movimento republicano no país) aumentando o interesse da obra. Leitura indispensável para entender a história do protestantismo no país, e muito útil também para interessados em história da educãção. Tem na biblioteca da Faculdade Teológica Batista do Paraná.
José Carlos Barbosa analisa relação dos protestantes com escravidão
Barbosa, José Carlos. Negro não entra na igreja, espia da banda de fora. Protestantismo e escravidão no Brasil Império. Piracicaba: Editora UNIMEP, 2002.
O autor faz necessário e corajoso trabalho, como se pode ver pela introdução do livro (que postei aí embaixo). Vai aos documentos produzidos pelos protestantes ao chegaren no Brasil no século XIX e descobre qual sua atitude em relação à escravidão e quais as motivações para isso. O livro faz uma síntese histórica da chegada dos protestantes no país e das estratégias usadas para implementar a nova religião entre a população brasileira.
Faz uma opção metodológica por trabalhar apenas com o chamado "protestantismo de missão", aquele implantado principalmente por norte-americanos e voltado para a conversão de brasileiros. Deixou de fora assim o chamado "protestantismo de imigração", anglicano, luterano e reformado, voltado para comunidades isoladas de imigrantes ingleses, alemães ou suíços. A justificativa é metodológica, também pelas dificuldades com a extensão da documentação a ser consultada, mas principalmente pelo fato de que os imigrantes protestantes isolaram-se em suas comunidades e não procuraram influenciar o país ao qual estavam chegando. Não tentaram converter niguém, nem implantar sua religião de forma efetiva no país. Desejavam apenas viver em paz com sua consciência religiosa em suas comunidades normalmente fechadas.
Mas há uma idéia subjacente ao autor, de cobrar mais daqueles que se postulam como os portadores do verdadeiro evangelho. Aqueles que proclamavam vir implantar a verdadeira igreja de Cristo, e que consideravam que católicos e imigrantes protestantes europeus não eram verdadeiros cristãos, por não serem adeptos à visão pietista do evangelho, baseada na conversão pessoal.
O livro demistifica esta mesma idéia, ao demonstrar que os missionários estavam apenas preocupados com a implantação de suas instituições, e passaram longe de viver na prático o evangelho. Se não interessava desagradar os senhores de escravos para não atrapalhar a implantação do protestantismo, mesmo os missionários yankees (portanto abolicionistas) deixavam de lado a questão do escravo. Mas o grosso dos missionários e das igrejas protestantes implantadas no século XIX no Brasil vieram dos confederados do Sul dos EUA. Derrotados na Guerra da Secessão (1861-65) eles vieram buscar um país onde pudessem continuar o que eram: grandes proprietários de terras e senhores de escravos, com o beneplácito das igrejas oriundas da sua região.
Assim, o autor demonstra como foram encontradas várias justificativas teológicas para a escravidão. Umas pelos protestantes do sul dos EUA, na sua disputa contra os abolicionstas do norte, que foram repetidas no Brasil. Outras desenvolvidas conforme a realidade local, colocando a estratégia de implantação de igrejas acima do questionamento de estruturas injustas. Qualquer semelhança com o que fazemos hoje como evangélicos não é mera coincidência.
Livro básico e indispensável para entender o protestantismo no Brasil. Apenas sinto falta de um diálogo com a bibliografia especializada em política do Brasil Império e no movimento abolicionista. O autor praticou um sectarismo acadêmico típico dos evangélicos. Preferiu consultar documentação antiga e bibliografia recente produzidas por autores protestantes, ignorando o que os "incrédulos" já escreveram sobre o tema.
O autor faz necessário e corajoso trabalho, como se pode ver pela introdução do livro (que postei aí embaixo). Vai aos documentos produzidos pelos protestantes ao chegaren no Brasil no século XIX e descobre qual sua atitude em relação à escravidão e quais as motivações para isso. O livro faz uma síntese histórica da chegada dos protestantes no país e das estratégias usadas para implementar a nova religião entre a população brasileira.
Faz uma opção metodológica por trabalhar apenas com o chamado "protestantismo de missão", aquele implantado principalmente por norte-americanos e voltado para a conversão de brasileiros. Deixou de fora assim o chamado "protestantismo de imigração", anglicano, luterano e reformado, voltado para comunidades isoladas de imigrantes ingleses, alemães ou suíços. A justificativa é metodológica, também pelas dificuldades com a extensão da documentação a ser consultada, mas principalmente pelo fato de que os imigrantes protestantes isolaram-se em suas comunidades e não procuraram influenciar o país ao qual estavam chegando. Não tentaram converter niguém, nem implantar sua religião de forma efetiva no país. Desejavam apenas viver em paz com sua consciência religiosa em suas comunidades normalmente fechadas.
Mas há uma idéia subjacente ao autor, de cobrar mais daqueles que se postulam como os portadores do verdadeiro evangelho. Aqueles que proclamavam vir implantar a verdadeira igreja de Cristo, e que consideravam que católicos e imigrantes protestantes europeus não eram verdadeiros cristãos, por não serem adeptos à visão pietista do evangelho, baseada na conversão pessoal.
O livro demistifica esta mesma idéia, ao demonstrar que os missionários estavam apenas preocupados com a implantação de suas instituições, e passaram longe de viver na prático o evangelho. Se não interessava desagradar os senhores de escravos para não atrapalhar a implantação do protestantismo, mesmo os missionários yankees (portanto abolicionistas) deixavam de lado a questão do escravo. Mas o grosso dos missionários e das igrejas protestantes implantadas no século XIX no Brasil vieram dos confederados do Sul dos EUA. Derrotados na Guerra da Secessão (1861-65) eles vieram buscar um país onde pudessem continuar o que eram: grandes proprietários de terras e senhores de escravos, com o beneplácito das igrejas oriundas da sua região.
Assim, o autor demonstra como foram encontradas várias justificativas teológicas para a escravidão. Umas pelos protestantes do sul dos EUA, na sua disputa contra os abolicionstas do norte, que foram repetidas no Brasil. Outras desenvolvidas conforme a realidade local, colocando a estratégia de implantação de igrejas acima do questionamento de estruturas injustas. Qualquer semelhança com o que fazemos hoje como evangélicos não é mera coincidência.
Livro básico e indispensável para entender o protestantismo no Brasil. Apenas sinto falta de um diálogo com a bibliografia especializada em política do Brasil Império e no movimento abolicionista. O autor praticou um sectarismo acadêmico típico dos evangélicos. Preferiu consultar documentação antiga e bibliografia recente produzidas por autores protestantes, ignorando o que os "incrédulos" já escreveram sobre o tema.
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