quarta-feira, 24 de junho de 2009

Um ranking do futebol brasileiro (IV) - Campeonato Brasileiro 1990-2002

.

Continuando com a série que irá estabelecer o definitivo e indiscutível ranking do futebol brasileiro.

Como já fiz para os períodos anteriores, este ranking considera 5 pontos para o campeão, 2 para os outros 3 semi-finalistas, e mais 1 ponto para os classificados entre o 5° e o 12° lugares.

A CBF continuou dando show de desorganização e de idéias idiotas. O dificulta o trabalho de gente séria como eu. Além da bagunça proporcionada pela CBF, este período foi o pior da história do meu time. Foi também o período áureo do Corinthians. E foi a pior década da história da seleção brasileira (uma decepção em 1990, um título ridículo em 94, e um semi-fracasso merecido em 98). Fatores que, somados, fizeram com que os anos 90 sejam os que eu considero os piores da história do futebol brasileiro.

Mas tenho que incluir esse período negro no ranking geral, mesmo a contragosto. Os dados usados são os disponíveis na wikipedia.

Para o ano de 2000, considerei os 4 semifinalistas da Copa João Havelange, mais os 9 restantes que completaram os 12 primeiros lugares do "módulo azul" - que equivaleu à primeira divisão. Neste ano a CBF teve a idéia de jerico de fazer uma fase de mata-mata com clubes vindos de todas as 4 divisões, o que favoreceu o São Caetano que, mesmo tendo disputado a 2ª divisão ("módulo amarelo") chegou à final do Brasileirão contra o Vasco. E só perdeu por causa das maracutaias do Eurico Miranda, com direito a desabamento do estádio e tudo mais.

A pontuação ficou assim:


1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002
Corinthians 5 1 1 2 2
1
5 5

2 24
Palmeiras 1 1 1 5 5 1 1 2 1 1 1 1
21
São Paulo 2 5 1 2 1 1 1 1
2 1 1 1 19
Vasco
1 2
1

5 1 1 5 1
17
Atlético MG 1 2

2 1 2 2 1 2
2 1 16
Santos 1 1 1 1 1 2
1 2 1

5 16
Grêmio 2

1 1
5
1
2 1 2 15
Cruzeiro 1
1 1
2 1
2 1 2
1 12
Flamengo 1 1 5 1


1 1 1


11
Botafogo 1 1 2
1 5
1




11
Portuguesa
1
1 1 1 2 1 2



9
Fluminense
2


2



1 2 2 9
Internacional
1 1

1 1 2

1 1
8
Atlético PR





1

1 1 5
8
Goiás 1



1 2


1 1 1 7
Bragantino 1 2 2
1 1






7
Guarani

1 1 2
1
1 1


7
Vitória


2


1
2

1 6
Sport

1


1 1 1
1

5
Bahia 2


1




1 1
5
São Caetano









2 2 1 5
Juventude




1
1



1 3
Ponte Preta








1 1 1
3
Coritiba







1


1 2
Paraná


1








1
Remo


1








1


E o ranking geral:


1958-69 1971-79 1980-89 1990-2002 total
Santos 29 5 7 16 57
Palmeiras 12 19 3 21 55
Vasco 3 13 13 17 46
São Paulo
12 13 19 44
Corinthians
9 8 24 41
Flamengo 2 6 20 11 39
Internacional 1 24 6 8 39
Atlético MG
13 10 16 39
Grêmio 3 6 13 15 37
Cruzeiro 7 10 5 12 34
Botafogo 8 7 4 11 30
Fluminense 2 4 11 9 26
Bahia 9 3 7 5 24
Guarani
8 6 7 21
Sport 1 2 10 5 18
Coritiba
6 9 2 17
Portuguesa
2 5 9 16
Atlético PR
2 5 8 15
Vitória
3 2 6 11
Goiás
1 2 7 10
Ponte Preta
1 4 3 8
Bragantino


7 7
América RJ 1 2 4
7
Náutico 6
1
7
Santa Cruz 1 5

6
Bangu

5
5
São Caetano


5 5
Operário MS
3 1
4
Fortaleza 4


4
Juventude


3 3
Ceará 1
2
3
Inter de Limeira

2
2
Criciúma

2
2
Londrina
2

2
Brasil de Pelotas

2
2
Joinville

1
1
América MG
1

1
Anapolina

1
1
Santo André

1
1
Rio Branco ES

1
1
Ferroviária SP

1
1
Treze PB

1
1
Paraná


1 1
Remo


1 1
São José SP

1
1
Uberlândia
1

1
Atlético GO

1
1


Confira os outros períodos desta série:

Um ranking do futebol brasileiro (I) - Taça Brasil 1958-1969

Um ranking do futebol brasileiro (II) - Campeonato Brasileiro 1971-1979

Um ranking do futebol brasileiro (III) - Campeonato Brasileiro 1980-1989

.

terça-feira, 23 de junho de 2009

O Departamento de História discutindo os problemas da USP

.

Esta carta me chegou por e-mail, visto que sou aluno de doutorado lá do departamento de História da USP. Daria um olho para estar lá, mas não foi possível:

Dando prosseguimento à nossa disposição de abrirmos um diálogo franco e amplo entre todos os membros do Departamento de História nesse momento de tensões que atingem a todos nós, realizaremos outro encontro dia 17/6, quarta-feira próxima, às 17:00 no auditório da História. No xerox há um texto que pode ajudar-nos a pensar, intitulado "A Faculdade no Centenário da Abolição", de Antonio Candido, publicado em "Vários Escritos". Além do que o texto poderá nos inspirar, partiremos do que foi dito na nossa primeira reunião, que em linhas gerais diz respeito a: discutir a democratização da universidade e ampliar o debate a esse respeito, inclusive para fora da universidade; pensar em novas práticas de ação e avaliar os prejuízos trazidos pela
greve; aproveitar a crise vivida para pensar sobre a qualidade do ensino e sua vinculação com a prática, sobre o papel da universidade, sobre a educação pública e a UNIVESP; discutir o papel dos professores fora de sala de aula; discutir as formas violentas de impor as posições; exercitar o poder de argumentação.

Procederemos da mesma forma feita na reunião anterior, aceitando a inscrição de todos até um dado teto de tempo, para que dessa forma possamos conhecer o maior número possível de posições e nos fortalecermos a partir daquilo que nos une.

Aproveito para agradecer a presença de todos na reunião do dia 10/6.

Cordialmente, Chefia do Departamento de História.


Como se pode ver, há gente fazendo a necessária auto-crítica, e espera-se que a maioria possa derrotar esta minoria hiper-ativa que domina o movimento estudantil e sindical. Pergunto se era necessário chegar a tanto para isso acontecer.

Já da reitoria, do comando da polícia, do governo do estado e da imprensa não há que se esperar nenhuma auto-crítica. A truculência é seu modus operandi - que só será mudado com um amplo processo político.

.

sábado, 13 de junho de 2009

Sobre a polícia na USP

.

Todo mundo já deve ter ouvido a notícia.

Tinha uma greve de funcionários na USP.

Aliás, as greves são uma constante lá. O governo do Estado e a reitoria não dialogam com os funcionários. Da última vez houve inclusive uma ocupação da reitoria por mais de 40 dias. Contra uma iniciativa de Serra para cercear a autonomia universitária (na gestão dos recursos).

Essa de agora inclusive era para reivindicar a readimissão de funcionários injustamente demitidos.

A reitoria pediu polícia no campus (coisa que não tinha feito da outra vez, pelo que foi muito criticada por certos setores).

Quando a polícia montou guarda no campus, alunos e professores aderiram ao movimento que antes era apenas de um grupelho de funcionários. Os alunos fizeram uma passeata exigindo que a polícia saísse do campus.

O governo mandou a tropa de chocque. A tropa de choque bateu nos alunos, jogou bombas de gás, perseguiu-os até o prédio de História. Cercou o prédio, não permitiu que ninguém saísse ou entrasse, enquanto continuava o bombardeio e o espancamento. Inclusive de quem não tinha nada a ver com a manifestação.

---

Deve ter gente que acha justificável a ação da polícia.

---

Uma dançarina de boate fazendo estrepitise no altar de uma catedral.

Não é um escândalo? Uma violação? Um sacrilégio?

Tanto quanto colocar a tropa de choque dentro de uma universidade.

E não é uma universidade qualquer.

A USP é a primeira e maior universidade brasileira.

A Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH - ou "fefeléch") surgiu dos departamentos fundados por professores franceses que aqui começaram suas carreiras acadêmicas, entre eles Lévy-Strauss e Braudel. A primeira geração de professores brasileiros incluiu gente como Florestan Fernandes e Antônio Cândido.

O prédio de História, onde a polícia bombardeou, é onde trabalham intelectuais como Boris Fausto, Carlos Guilherme Mota, Nicolau Sevcenko, Lilia Moricz Schwartz, Laura de Mello Souza, entre outros.

Entende o que quero dizer?

Um templo sagrado do saber.

Lugar que deveria estar preservado da presença violenta da tropa de choque.

Que o governador esteja disposto a sucatear este espaço de saber, achatar os salários, dificultar as condições de trabalho e recusar-se a negociar com grevistas é até compreensível. Mas que extrapole tudo isso para mandar a tropa de choque é inaceitável. Nem os governos militares chegaram a tanto.

---

Uma atitude que precisa de repúdio veemente da sociedade.

Sociedade que já repudiava os excessos dos grevistas, mas que agora torna-se solidária com eles diante da truculência injustificável.

Muitos blogs já deram recado semelhante.

Recomendo:


A USP invadida pela PM
(no blog do Guaciara)

Um tweet que virou charge (no Digestivo cultural)




José Serra e Suely Vilela enviam PM contra estudantes e professores (no efeito Joule)

Urgente! Polícia de José Serra espancando e bombardeando estudantes na USP (no Biscoito Fino e a Massa)




Crise na USP. Um estado sem liderança (no blog do Luis Nassif)

A irresponsabilidade de se mandar a polícia a um campus universitário (no blog do Tulio Vianna)

O professor e a PM paulista (no blog do Luis Carlos Azenha)



Deve ter muito mais coisa por aí.

---

Este post vai ficar aqui na primeira página por uns tempos, pra ninguém esquecer tão rápido disso...

.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Uma proposta - proibir que as empresas financiem campanhas eleitorais

.

Nós temos que dialogar, e apresentar as razões para mostrar que é inclusive um projeto que diminui os custos das campanhas eleitorais. Diminui as ilegalidades, o caixa dois, fraudes em licitações e obras públicas. Portanto melhora a qualidade da gestão pública e a qualidade da política no Brasil. A partir dessa convicção, tenho certeza que a sociedade irá compreender e apoiar.

A frase é do deputado federal Flávio Dino, do PCdoB do Maranhão, que recentemente apresentou no Congresso Nacional um Projeto de Lei que proíbe as empresas de financiarem as campanhas eleitorais.

A questão é que doações de empresas, via de regra, são feitas para receber o dinheiro de volta depois, com algum benefício escuso em leis, contratos ou licitações.

O projeto de lei prevê que apenas pessoas físicas possam fazer doações, até um valor limite (para evitar que laranjas doem em nome de empresas).

Veja a entrevista com o deputado no Terra Magazine.

Este blog apoia esta iniciativa. Mas não basta. É preciso muito mais. É preciso interferir também na maneira como as campanhas são estruturadas, senão continuaremos tendo o monopólio do exercício da política por que tem dinheiro para fazer campanhas caras. E também na maneira como os partidos políticos funcionam - via de regra são as instituições menos democráticas da sociedade, o que não deixa de ser uma ironia de muito mau gosto.

Veja também:

Beto Richa e seus financiadores de campanha (no Catatau)

Sobre o caso Celso Daniel (aqui neste blog)

.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Sobre a violência no Brasil

.

(…)Para a maioria da população brasileira, a violência é apenas o ato do bandido e do delinquente que roubam e matam. Por quê? Porque admitir que tortura, racismo e discriminação sexual são violência seria admitir que as “forças da ordem” são violentas e que há violência nas relações sociais brasileiras. Ao contrário, se permanecer miticamente localizada no bandido, a violência conservará a separação entre “nós, brasileiros” e “eles”, além de ficar reduzida à violação da propriedade privada, de sorte que “eles” tenderão a ser os “pobres” e, em casos excepcionais, bandidos de colarinho branco.

Marilena Chauí, via Marjorie Rodrigues.

.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Saiu estudo do IPEA sobre desempenho olímpico do Brasil

.

Li a notícia no blog do Juca. Ele por sua vez pegou da Agência Brasil, mas não deu o link (está aqui).

O estudo mostra que o desempenho do Brasil foi ridículo, se levada em conta a riqueza do país e o tamanho de sua população.

Apenas comprovou o que alguns analistas mais sóbrios já vêm dizendo há tempos, especialmente o próprio Juca Kfouri.

Veja outras coisas que já escrevi sobre isso:

Olimpíada (10 de agosto de 2008)

Mas Olimpíada
(idem - sobre a pouca participação das mulheres brasileiras)

A exceção que confirma a regra
(17 de agosto - sobre o ouro de Cesar Cielo)

Balanço das Olimpíadas (31 de agosto)

.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Joinville e seus projetos culturais - resultados do Simdec 2009

.

Outro dia fui a Joinville compor a banca dos projetos apresentados à lei municipal de incentivo à cultura. A lei apresenta duas modalidades de financiamento de projetos: uma em que o proponente busca o patrocínio de empresas, cujos valores são deduzidos dos impostos municipais; outra em que os recursos da prefeitura são diretamente aplicados no projeto.

Estive na banca desta segunda modalidade, que destinou R$ 800 mil, divididos em diversas categorias. Eu participei da banca dos projetos de música popular, que dispunha de R$ 90 mil a serem distribuídos em projetos de até R$ 20 mil.

Os projetos foram avaliados conforme mérito artístico, currículo dos proponentes, coerência orçamentária e de prazos do cronograma, bem como caráter multiplicador e contrapartidas sociais. No total dos projetos pode-se dizer que anda faltando imaginação para o que sejam contrapartidas sociais. O projeto típico é a gravação de um CD, e o proponente inclui um show em escola pública ou asilo imaginando que isso seja suficiente como contrapartida social. Ainda se confunde contrapartida social com esmola, infelizmente.

Sobre o caráter multiplicador, muitos projetos imaginaram uma aplicação do recursos públicos de uma forma que beneficiava muito pouca gente além do próprio proponente. Ainda precisa-se caminhar muito na direção de projetos que gerem emprego e renda de forma sustentável, que sejam formadores de platéia, que transfiram conhecimento de forma ampla, que dinamizem a utilização de espaços públicos, que contribuam para formação profissional e enriquecimento cultural de uma maior grupo de pessoas.

É preciso que se diga que o SIMDEC (orgão da Fundação Cultural de Joinville responsável pela aplicação da lei) investe alto na capacitação de agentes culturais para incrementar a qualidade dos projetos.

No fim, acabaram sendo aprovados os projetos que conseguiram, apesar dos problemas, imaginar o maior alcance público com a melhor qualidade artística possível. Entre eles: uma série de 40 apresentações de música ao vivo em terminais de ônibus da cidade; uma série de concertos didáticos sobre história da música brasileira em escolas municipais; rodas de choro na Estação da Memória.

Ressalto a seriedade e profissionalismo do SIMDEC, nas pessoas de Luciano Pereira e Rita Silva. Tive ainda o grande prazer de conviver na banca com o Leo Garcia e o Rodrigo Paiva.

Veja na página da FCJ o resultado dos projetos aprovados.

.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Sobre análise musical

.

Lá na coluna de Paulo Costa Lima no Terra Magazine, um interessante texto sobre análise musical. Sobre como surgiu essa disciplina e sobre seus rumos atuais.

Para mim, faltou dizer que a disciplina apareceu como parte de um processo de racionalização ocorrido no Ocidente. O mundo passou a ser compartimentalizado, separado em "caixinhas". Tudo pode ser compreendido, analisado, descrito.

A música recebeu uma teoria "científica", pretensamente universal. Tanto pelo lado da acústica e o conhecimento do som como fenômeno físico, como pelo lado da "teoria musical", sub-entendida como um conjunto de regras derivadas do tonalismo e da sua lógica para hierarquizar a relação entre as alturas do som.

A análise musical foi parte importante do processo. Dissecar corpos. Separar uma melodia em períodos, frases, motivos. Classificá-los quanto a suas qualidades. Entender os acordes e os intervalos (consonantes ou dissonantes, perfeitos ou imperfeitos, etc.). Forma e estrutura.

Tudo tão bonito, tudo tão lógico. Que embriagou os melômanos. Que os fez achar que a música é um discurso autônomo, uma modalidade artística auto-referente. Surgiu em paralelo a noção de uma "história da música", feita de compositores e obras.

Modelo obviamente em crise.

Os caminhos que Paulo Costa Lima aponta são novos e importantes. Mas eu diria que o principal sobre análise musical hoje, é dizer que não se pode mais pretender explicar a música fora do seu tempo, fora do seu mundo. É preciso historicizá-la. Compreender que é feita por homens, que vivem no mundo, têm sua cultura, suas relações sociais e políticas. E que, por mais que exista o discurso do gênio que "compõe para a posteridade", a verdade é que compositores escrevem para ouvintes. E há ainda o intérprete, as editoras, os críticos, as gravadoras.

Para mim o caminho para a análise musical é o que vem dos campos do conhecimento alheios à música, ou fora dela: lingüística, semiótica, sociologia, história. Não mais apenas fraseologia musical, harmonia, contraponto, morfologia musical.

Terão os músicos que sair de seu casulo. Especialmente se quiserem significar alguma coisa no mundo acadêmico e no mundo do conhecimento do século XXI. Pois que a análise musical ainda continua - como toda a teoria tradicional da música, presa ao conhecimento do século XIX.

.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Simone Cit - Pedro e o choro

.

Faz uns dias que aconteceu o lançamento aqui em Curitiba.


A idéia da profª Simone Cit partiu da obra de Prokofiev - Pedro e o lobo. Uma fábula musical, na qual cada personagem da história corresponde ao som de um instrumento da orquestra. O menino Pedro parte à caça do lobo que aterroriza a aldeia, seguido e ajudado por alguns dos animais da fazenda. A obra musical com orquestra e narrador vem sendo usada como importante ferramenta pedagógica para colocar as crianças em contato com o mundo dos sons da orquestra.

Simone Cit fez uma paródia, onde o lobo foi substituído pelo Animal. O jovem Pedro, ao invés de habitante das estepes eurasiáticas, agora é um jovem suburbano do Brasil. O Animal da história é uma referência ao apelido de Alexandre Gonçalves Pinto, autor de Reminescências de chorões antigos, livro publicado no início do século XX, e que até agora continua uma das principais fontes para conhecer o mundo do choro da virada dos séculos XIX e XX.

Tendo a idéia da paródia, o passo seguinte foi a pesquisa de repertório. Encontrar obras clássicas do repertório do choro que fizessem referência a animais. Definido o repertório, Simone Cit construiu uma nova história, em que Pedro escuta sobre o Animal, imagina um monstro terrível, segue em sua busca sempre ajudado por um grupo crescente de bichos que se agregam ao grupo, e termina por descobrir que Animal era apenas o apelido do carteiro, também músico de choro.

Cada animalzinho da história toca um instrumento musical. E corresponde a uma das obras do repertório selecionado. A história é ilustrada por Freekje Veld. A narração e as vozes cantadas infantis são gravadas por crianças de Curitiba. Os choros são reconstituídos pelos fabulosos arranjos de Roberto Gnattali, produzindo e dirigindo o trabalho de músicos que dispensam apresentação, entre eles: Andrea Ernst Dias (flautim), Naomi Kunamoto (flauta), Luis Carlos Justi (oboé), Aloysio Fagerlande (fagote), Oscar Bolão (percussão), Maria Teresa Madeira (piano), Jayme Vignoli (cavaquinho).

A edição é da autora, com patrocínio da Petrobras. A obra se destina ao trabalho dos professores da rede regular de ensino, parte de um projeto maior que a autora vem desenvolvendo, destinado a produzir material didático para apoiar o uso da música popular brasileira como ferramenta educacional. Neste sentido, foi também o outro projeto semelhante da autora: Histórias da música popular brasileira para crianças. Ambos os livros são ilustrados e acompanhados de CD com as gravações.

O lançamento em Curitiba foi no Beto Batata.


Estiveram presentes alguns dos que participaram nas gravações:



O repertório que compõe Pedro e o choro é:

Amigo Pedro (Radamés Gnattali)
Gatinhos no piano (Radamés Gnattali)
Tico-tico no fubá (Zequinha de Abreu)
Marreco quer água (Pixinguinha)
Relógio da vovó (Garoto)
A ronda do Animal (Roberto Gnattali)
Pé-ante-pé (Radamés Gnattali)
Urubu malandro (anônimo)
O vôo da mosca (Jacob do Bandolim)
Camundongo (Waldir Azevedo)
Aí morcego! (Irineu de Almeida)
Pula sapo (Pixinguinha)
Menina da bicicleta (Simone Cit)
Jorrando sem parar (Hermeto Pascoal)
Marcha dos caçadores (João de Barro "Braguinha")

De certa forma, a história parodia também outras histórias musicais infantis, como Os músicos de Brehmen, e a história da festa no céu, na qual o sapo entra escondido dentro do violão.

Algumas das músicas listadas acima foram compostas ou readaptadas especialmente para este projeto, caso das composições de Roberto Gnattali, da própria Simone Cit, e de Hermeto Pascoal que atendeu à encomenda especial da autora.


As fotos do dia do lançamento foram tiradas pela Maris, a quem agradeço.

O contato da autora, para encomenda de livros é materiadesom@yahoo.com.br

O material já esta sendo trabalhado em um projeto da FAP (onde Simone é professora) no Universidade sem Fronteiras, capacitando professores da rede pública de ensino para o uso do material.

.

sábado, 9 de maio de 2009

Tudo sobre o Brasileirão 2009, palpites e uma enquete

.

Daqui a pouco começa o Brasileirão 2009, que tem tudo para ser o melhor dos tempos recentes.

Acho que o melhor guia disponível é esse especial do Lance! que está nas bancas.

Reportagens sobre a história do campeonato brasileiro desde 1971, escritas por Roberto Assaf, autor de um livro que parece muito interessante sobre o assunto. Somente uma equipe dedicada conseguiria compilar tantos dados com tanta precisão de detalhes.

Por exemplo:

1) O São Paulo é o time com mais pontos ganhos. 1719 pontos em 982 jogos, com aproveitamento de 58,3% (p. 18). Este levantamento é feito com base na pontuação atual, de 3 pontos por vitória (durante muito tempo a vitória no brasileirao valia 2 pontos).

2) A defesa menos vazada ente os clubes com mais de 300 jogos disputados é a do Internacional, que tomou 994 gols em 985 jogos - média de 1,009 gols sofridos por jogo.

3) O ataque mais eficiente é o do São Paulo, com 1537 gols em 982 jogos, média de 1,56 gols marcados por jogo.

4) O maior artilheiro da competição é Roberto Dinamite, com 190 gols. Pela wikipedia descubro que ele jogou em 19 campeonatos (1971-1989).

Além disso, há um levantamento das maiores surpresas de cada campeonato, e um comentário das polêmicas de cada decisão.

Além desse minucioso trabalho histórico o guia tem uma reportagem sobre cada clube participante. Percebo que foi mais difícil levantar informações sobre a situação atual dos clubes do que sobre a história do torneio. Sinal de que os clubes talvez ainda não dêem o devido respeito à imprensa e aos seus torcedores - o que não é nenhuma surpresa no Brasil.

--X--

Ano passado eu tentei fazer minha cobertura independente do Brasileirão. Obviamente, não me dedico só a isso. Portanto a cobertura aqui neste blog fica limitada a comentar os poucos jogos que assisto, de preferência aqueles do Coritiba F.C. que assisto no glorioso Couto Pereira. Além disso, dedico-me a dar palpites furados e inevitavelmente errados, como você pode ver aqui.

Então, para não perder o costume, vou exercitar minha capacidade futurológica para o torneio deste ano.

São três candidatos ao título.

O primeiro é o São Paulo. O atual tri-campeão não desmanchou o time e mantém o mesmo técnico. Uma máquina que vem funcionando bem e que será a referência para todos os outros clubes que querem conseguir alguma coisa mais significativa. O que pode atrapalhar um pouco é o interesse do time em voltar a ganhar a Libertadores da América. Quanto mais longe for no torneio continental, mais se atrapalha no Brasileirão.

O segundo é o Internacional. Como no ano passado, começa a temporada com o time mais forte do país. A grande ameaça é a janela de transferências européia. Ano passado o clube desmontou sua equipe no meio do ano. Mesmo tendo conseguido substitutos à altura, perder Rafael Sobis, Fernandão, Yarlei, Alexandre Pato, Tinga causaria estragos em qualquer equipe. Os novos valores estão bem entrosados, e o desempenho colorado no campeonato gaúcho e na Copa do Brasil está mostrando sua força.

O tri-campeonato do São Paulo está servindo para demonstrar a importância da continuidade, do planejamento. Manter um treinador por várias temporadas, manter a mesma base do elenco, revelar novos valores, reforçar o elenco com contratações acertadas, fazer um bom trabalho na parte financeira e de marketing. Ou seja, no sistema de pontos corridos não dá mais para ganhar o campeonato em cima da hora. Ou joga bem o ano todo ou está fora. Um provável título do Internacional serviria para colocar outra questão em público: a relação entre o clube e o torcedor. Uma administração transparente e uma torcida organizada (no bom sentido da palavra) e muito participativa (quase 100 mil sócios) são pontos importantíssimos para fazer avançar o futebol no Brasil. E são qualidades que o São Paulo não tem. Nesse sentido, seria muito útil ao país um tri-campeonato do Internacional.

O terceiro candidato ao título é o Cruzeiro. O primeiro campeão brasileiro dos pontos corridos, o Cruzeiro vem mantendo uma base sólida desde 2003. Com a vantagem de ter se livrado da praga luxemburguense. O desempenho no campeonato mineiro e na Libertadores mostram a força do time para esse ano.

Não tenho nenhum medo de dizer categoricamente que os três ganharão as vagas da Libertadores 2010. Só não me arrisco a dizer qual dos três será o campeão. O desempenho dos três na fase dos pontos corridos mostra que são os melhores clubes do Brasil na atualidade:


2003 2004 2005 2006 2007 2008
São Paulo 3° 3° 11° 1° 1° 1°
Cruzeiro 1° 13° 8° 10° 5° 3°
Internacional 6° 8° 2° 2° 11° 6°

Além disso, o São Paulo foi campeão continental e mundial em 2005 e vice continental em 2006, quando o Inter ganhou os dois títulos internacionais.


Quem tem chances de disputar a 4ª vaga na Libetadores 2010?

O Grêmio, vice-campeão do ano passado, tem um complicador. Tem fortes chances de ganhar a Libertadores esse ano, e não tem fôlego para ser competitivo nos dois torneios. Acho que não fica entre os quatro melhores deste ano.

O Ronaldo, digo Corinthians, pode ser um candidato forte. Aliás, Ronaldo "está virando o que todos desejavam e muitos - como eu - não acreditavam: um Romário tamanho 2,5 litros, um novo gênio do minimalismo futebolístico." É o que diz o Marcelo Damato no texto Ronaldo, o enganador.

Quem mais se habilita? O Luxemburgo está com a validade vencida, não consegue nem ganhar o paulista mais. O Palmeiras este ano vai ficar limitado por este fator.

Os clubes cariocas são a bagunça de sempre. Podem ser como podem não ser. Flamengo, Fluminense e Botafogo tem bom elenco e bons treinadores. Mas até quando? O Flamengo, por exemplo, não paga salários desde janeiro. O Marcelinho Paraíba já veio para o Coritiba por conta disso. O Vasco é o único que está seguro como favorito para vencer a Série B.

Se perder para o Palmeiras na Libertadores e puder se concentrar no Brasileirão, o Sport pode ser uma zebra a correr por fora. Já demonstrou que tem qualidade. Times medianos que podem surpreender de alguma forma são também o Coritiba (quiçá eu esteja errado, e o Renê Simões consiga sair campeão com essa massa amorfa que tem em mãos), o Atlético MG, o Vitória, o Santos e o Atlético PR. Ou não. Se depender da minha torcida o rubro-negro paranaense não escapa de cair este ano.

Os favoritos para jogar a Série B em 2010 são: Avaí, Barueri, Náutico, Santo André e Vitória. Mas gente com capacidade de fazer trapalhada e assumir o posto de algum desses aqui existe de sobra em todos os clubes, menos nos 3 favoritos.

--X--

Como não me furtei a fazer meus palpites, convido o leitor a fazer o mesmo.

Para isso o blog está abrindo sua já tradicional enquete do Brasileirão. Veja como foi a do ano passado, proposta aqui (já em meados do campeonato) e analisada aqui.

Desta vez vou incluir todos os clubes, já que o campeonato ainda nem começou e, pelo menos em tese, todos podem ser campeões.

Só gostaria de lembrar que não é torcida, é palpite "científico". Começo dando o exemplo: o primeiro voto é o meu, e não vai para o meu time (Coritiba), mas para o Internacional.

--X--

Tem mais.

A Série D vai ser uma anomalia daquelas que só a CBF é capaz de fazer.

Série B não é campeonato, é classificatório. Mesmo assim vou arriscar os classificados: Vasco, Bahia, Paraná e Atlético GO.

A cobertura aqui vai ser meio precária. A melhor de todas, não tenha dúvidas, vai ser mais uma vez a que fará o Impedimento.

Leia também o ranking do futebol brasileiro que estou fazendo de forma independente aqui no blog:

Um ranking do futebol brasileiro (I) - Taça Brasil1958-1969

Um ranking do futebol brasileiro (II) - Campeonato Brasileiro 1971-1979

Um ranking do futebol brasileiro (III) - Campeonato Brasileiro 1980-1989

e em breve:

Um ranking do futebol brasileiro (IV) - Campeonato Brasileiro 1990-2002

Um ranking do futebol brasileiro (V) - Campeonato Brasileiro 2003-2008

e mais Copa do Brasil, Roberto Gomes Pedrosa, Estaduais, Libertadores, Mundial, etc, etc, etc. No fim do ano poderei dizer com certeza quem é o maior time brasileiro de todos os tempos.

.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Quando Schoenberg inventou o dodecafonismo

Esclarecimento: este texto é antigo, existe um mais completo e atualizado em http://andreegg.org/2020/04/14/schoenberg-do-inicio-da-carreira-ao-dodecafonismo/

. 

Arnold Schoenberg (1874-1951) é um dos mais proeminentes compositores no panteão da música ocidental. Fortemente ligado à tradição germânica moderna, simbolizada pelos três "B": Bach - Beethoven - Brahms. Foi quem assumiu a responsabilidade pela liderança intelectual da questão mais premente para a filosofia da composição musical no início do século XX: como continuar compondo música segundo a tradição ocidental agora que o seu principal eixo estrutural, o sistema tonal, tinha-se dissolvido. Durante os primeiros anos do século XX Schoenberg compôs obras que hoje classificamos como "atonalismo livre". Este conceito tenta dar sentido a uma prática que abandonou as hierarquias tonais. Não mais uma família de 7 notas centradas na polarização entre tônica e dominante. Agora o total cromático de 12 notas passava a ser usado como se todas tivessem a mesma importância. Com as obras que compôs neste período inicial do século XX, Schoenberg transformou-se no principal nome da nova geração. Mesmo atonais, tornaram-se verdadeiros clássicos, e continuam até hoje obrigatórios no repertório de concerto: Verklärte Nacht (Noite transfigurada) - sexteto para cordas - Op. 4 - 1899 Pelleas und Melisande - Poema sinfônico - Op. 5 - 1903 Sinfonia de Câmera - Op. 9 - 1906 15 poemas do Livro dos Jardins Suspensos de Stefan George - Op. 15 - 1909 5 Peças orquestrais - Op. 16 - 1909 Erwartung (A espera) - monodrama em um ato para soprano e orquestra - Op. 17 - 1909 Die Gluckliche Hand (A mão "sortuda") - drama em música para vozes e orquestra - Op . 18 - 1910 6 Pequenas peças para piano - Op. 19 - 1911 Hertzgewächse - para soprano - Op. 20 - 1911 Gurrelieder - conjunto de canções sinfônicas compostas entre 1901-1911 Pierrot Lunaire - cantata cênica para voz e conjunto de câmera - Op. 21 - 1912 Especialmente o período entre 1909 e 1912 foi de uma grande concentração de obras-primas, uma fantástica explosão criativa. O Pierrot Lunaire pode ser considerado como uma das obras mais influentes para a música do século XX. Em contraste com as obras anteriores, em geral para grandes conjuntos instrumentais, o Pierrot Lunaire precisava apenas de um punhado de músicos e um cantor-recitante. Para esta obra Schoenberg trouxe toda sua experiência com os cabarés literários de Berlim. Isso proporcionou que a obra fosse executada em turnê por todas as principais cidades européias, com uma exclente receptividade de um público propenso às experiências de vanguarda. Esta obra marcou também o esgotamento criativo de Schoenberg, que teve sua vida musical interrompida pela Guerra de 1914-1919. Entre 1912 e 1920 Schoenberg não conseguia concluir nenhuma composição. Tinha chegado ao fim sua verve para criar sem um sistema teórico consistente. A liberdade criativa do atonalismo tinha chegado a um beco: a ausência de sistema era para Schoenberg um severo limitador criativo. Devido a isso, quase como uma conseqüência lógica de toda tradição tonal da qual se sentia continuador, Schoenberg sistematizou em 1921 a técnica dodecafônica. Ao publicar a Suíte para piano Op.25, Schoenberg estava lançando a teoria composicional mais polêmica do século - talvez de todos os séculos. Doravante passaria a compor pelo seguinte processo: 1) cria uma série de 12 notas, usando todas as 12 notas do total cromático. A série não repete nenhuma nota. Não há distinção de enarmonia ou de tessitura. Evitam-se os intervalos capazes de sugerir relações tonais ou acordes diatônicos. 2) a partir da série original, cria uma série invertida (repetindo os mesmos intervalos na direção oposta), uma série retrogradada (de trás para frente) e outra retrogradada da inversão (a invertida de trás para frente). Transpõe as quatro formas da série para todas as 12 alturas existentes, obtendo um total de 48 formas possíveis. Elas podem ser colocada numa tabela chamada de matriz serial. 3) a partir das formas da série disponíveis, faz a composição musical. O processo (1) é de fundamental importância, no sentido em que a série funciona como os antigos temas musicais, e será a base de um processo de desenvolvimeno temático. Todas as relações harmônicas da composição irão derivar da série, uma vez que as simultaneidades sonoras serão todas derivadas da superposição de diferentes formas da série num trabalho de contraponto. O processo (2) é totalmente mecânico, e hoje é feito por computador O processo (3) é totalmente criativo. A observação de várias obras de Schoenberg e de outros compositores torna ridículas as acusações de que o dodecafonismo impede a criatividade do compositor por ser "muito matemático". Eis a série do Op. 25 (clique para ampliar): Aqui, no Aula Contemporánea, tem a matriz serial. E links que não funcionam para a gravação e a paritura da obra. Um software para calcular on-line uma matriz serial está aqui. (Também uma dica do Aula Contemporánea) A seguir, vídeos da Suíte Op. 25 no youtube, executadas por um dos maiores especialistas em música de vanguarda - Glenn Gould. . Veja também: Dodecafonismo em Schoenberg, Webern, Berg e Guerra Peixe Stravinski - Sagração da Primavera A carta aberta de Camargo Guarnieri .

sexta-feira, 1 de maio de 2009

O filme de minha vida

.


Estou participando de mais uma iniciativa da Vanessa. Clicar no banner acima te envia para o post dela e a lista dos blogs participantes.

...

Escolher o filme da minha vida é tão impossível quanto escolher o livro da minha vida.

Mas desta vez não vou me furtar à tarefa.

Para facilitar um pouco vou pensar junto com o leitor.

Antes de escolher o filme, vou escolher o diretor:

























































Se você não conseguiu ligar as imagens aos nomes das feras, clique nas fotos e vá para verbetes deles na wikipedia. São alguns dos mais importantes cineastas vivos, que escolhi indicar aqui pela quantidade de filmes significativos para mim que cada um fez.

Mas tenho que escolher um.

"Minha mãe mandou eu escolher este..."

Win Wenders.

O diretor de:
Asas do desejo
Paris, Texas
Sob o céu de Lisboa
Buena Vista Social Club

O quê? Você ainda não viu nenhum desses filmes? O que está esperando? Corra a uma locadora decente (não sei se você vai encontrar esses filmes em qualquer esquina).


Mas tenho que escolher um.


Escolho o que é talvez o mais belo filme jamais feito sobre relações familiares. Problemáticas como costumam ser. Um filme poético como precisa ser. Cuidado que você vai chorar...




.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Stravinski - Sagração da Primavera

Esclarecimento: este texto é antigo - existe um mais atual e mais completo em http://andreegg.org/2020/05/16/stravinski-da-vanguarda-ao-neoclassicismo/ 

. 

Esta peça é uma das mais importantes obras musicais já escritas. Os críticos e historiadores são unânimes em considerá-la uma obra de grande impacto, quando de sua estréia em 1913. O compositor Igor Stravinski (1882-1971) é considerado por muitos como o compositor mais significativo do século XX. A Sagração é o terceiro balé de uma série composta para ser encenada em Paris, pela companhia Os balés russos de Diaghilev. Os primeiros dois foram O pássaro de fogo e Petrouschka ("Pedrinho" em russo). É a obra mais inovadora de Stravinski, no sentido de rompimento com a tradição musical do século XIX. A obra é atonal (não se baseia nas tonalidades maior e menor que imperaram na música ocidental desde o início do século XVIII), foge à rítmica tradicional do pulso e do compasso e representou uma grande inovação em relação às técnicas de orquestração do século XIX (a escolha dos instrumentos musicais que tocam cada parte - Stravinski privilegia os sopros, e usa as cordas quase como instrumentos de percussão). Para o público de balés, acostumado a obras mais tradicionais (em termos de construção harmônica, orquestração e, principalmente, elementos rítmicos) - como os balés de Tchaikovski, a encenação da obra de Stravinski foi um escândalo. Depois da composição desta obra, Stravinski tomou rumos mais tranqüilos em seu estilo de composição, passando a uma fase chamada neo-clássica (décadas de 1920-1950), onde retomava com ironia os procedimentos harmônicos setecentistas. Somente na década de 1950 o compositor voltaria a escrever obras tão radicais como a Sagração. Mesmo sendo uma obra de 1913, a Sagração continua a ser uma obra radical, moderna, e - porque não dizer - continua escandalizando o público não acostumado a expressões artísticas de vanguarda. Existem miríades de gravações desta peça. Mas hoje a maravilha que é a internet e a disponibilização de trabalhos através dela nos permite algumas descobertas. A San Francisco Synphony e seu regente Michael Tilson Thomas fizeram um trabalho educativo. Clicando aqui você irá para a página em que a obra de Stravinski é destrinchada. Escolhendo a opção A riotous premiere você acessa um documentário (em inglês) sobre os envolvidos na criação da obra: Stravinski (música), Nicolas Roerich (argumento), Nijinski (coreografia), Diaghilev (produção). Escolhendo a opção Explore the score você acompanha a execução de trechos enquanto observa a partitura orquestral em animação. Também é muito interessante assistir à obra completa - música e coreografia. Tempos atrás, fez-se uma reconstituição da coreografia original de Nijinski, com base nos depoimentos de uma dançarina que fez parte da encenação de 1913. Este balé é realmente uma experiência impressionante, com o vigor da música correspondido por uma coreografia igualmente poderosa. Abaixo os vídeos no youtube, em três partes: Tanto o trabalho da San Francisco Synphony como os vídeos do youtube descobri através do excelente verbete da wikipedia em inglês. .

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Sobre as cotas raciais

.

É muito interessante ouvir um argumento não cretino contrário às cotas raciais. Quem o faz (por enquanto o único que conheço) é o Rafael Galvão. Se mostra desconfortável de estar na mesma posição de gente como Demétrio Magnoli ou Ali Kamel. Critica o argumento a favor das cotas por se basear no exemplo norte-americano, diferente demais do caso brasileiro como bem demonstra o Rafael.

Gostei do texto do Rafael, mas continuo a favor das cotas. O grande problema a enfrentar é como definir um negro. Muito sutil, e presta-se a diversos tipos de problemas. Ao contrário do Rafael, que acredita que as cotas sociais (reserva de vagas a alunos oriundos de escola pública) sejam mais eficientes, acredito que deve existir um tipo de combinação entre cotas raciais e sociais. Vale lembrar que também existem cotas para indígenas nas universidades.

E defendo que as cotas não apenas são justas e eficientes, como é necessário ampliá-las. Um negro com diploma de curso superior continuará a ser preterido na disputa por um emprego. É preciso ter cotas para negros nos concursos públicos e nas candidaturas políticas (já existem cotas para candidaturas femininas).

Mas o mais importante mesmo, é a melhora radical na qualidade dos serviços públicos, que seriam a grande tacada pelo desenvolvimento social e humano. O problema é que os mesmo que negam a validade das cotas (caso do Magnoli e do Kamel, mas não do Rafael) - são os que defendem a redução do papel do Estado e que lutam para continuar aplicando o tipo de cota racial que sempre existiu no Brasil: cotas de 100% para brancos bem-nascidos.

Vale a pena ler também o Alex Castro criticando o livro de Ali Kamel sobre um Brasil não racista.

.

sábado, 25 de abril de 2009

Há 40, 50, 60 anos - Miles Davis

.

1949:



1959:



1969:



Clicar nas imagens remete a links para textos do projeto 200 anos de música, do blog Um piano na floresta. Explicações sobre os discos e alguns áudios e vídeos muito interessantes.

.

domingo, 19 de abril de 2009

Uma história de Deus

.

ARMSTRONG, Karen. Uma história de Deus. Quatro milênios de busca do judaísmo, cristianismo e islamismo. São Paulo: Cia. das Letras, 1994.

É um livro muito instrutivo, que serve para repensar muito da idéia que temos de Deus. No Ocidente, temos uma visão pautada pelo racionalismo, uma noção de um Deus pessoal controlando a história e usando seu imenso poder para garantir o sucesso de um texto canônico e de uma ortodoxia a ele associada.

O estudo da história do conceito de Deus nas principais culturas monoteístas leva a uma dimensão mais correta dessa noção de Deus como uma das possíveis e existentes.


O surgimento de Deus: do judaísmo ao cristianismo

Para a autora, a noção de Deus único, universal e criador, consolidou-se entre os judeus no exílio babilônico. É uma idéia claramente semita, desenvolvendo-se a partir do Deus tribal dos patriarcas, e chegando a um Deus nacional institucionalizado pelo clero do tempo do rei Josias (séc. VIII a.C.) e do 2º templo (séc. V a.C.). A este Deus “domesticado” pelo interesse clerical, se opôs o Deus revelado, mistério terrível e fascinante que levou compulsivamente ao ministério de pregação de homens radicais como Isaías (o primeiro e o segundo), Ezequiel, Jeremias ou Oséias. Todos atuantes neste período exílico.

Depois a autora estuda como se desenvolveu o conceito de Deus no círculo dos seguidores de Jesus, em trechos que os ortodoxólatras considerariam anátema, pois a autora sugere que Paulo não tenha afirmado a divindade de Cristo.

A noção de um Cristo divino e humano foi sendo elaborada junto com a ortodoxia e o cânon cristãos, bem como a noção de trindade. Aliás, o cristianismo de fala grega e o de fala latina desenvolveram noções completamente diferentes para cada um desses conceitos.

Para mim foi uma verdadeira epifania a explicação que Armstrong fez do conceito de trindade para os pais gregos do século IV, também conhecidos como “os três capadócios” por causa de sua região de origem – na atual Turquia. Para eles, a trindade era forma de ver Deus como mistério absoluto e inalcançável ao homem. Nenhuma de nossas categorias de pensamento ou análise seria capaz de apreender ou explicar Deus. O ministério da trindade era uma ferramenta pedagógica para lembrar o homem de sua incapacidade diante dessa divindade suprema.

No Ocidente, o conceito foi usado às avessas, principalmente a partir de Agostinho. A cristandade latina desenvolveu a noção de que o conceito de trindade era uma dogma, entendendo essa palavra como sinônimo de uma explicação perfeita, acabada e inquestionável. Assim, Deus passou a ser, no Ocidente, algo que o homem pode conceber racionalmente, aprender-apreender-prender. Daí foi um passo às concepções utilitárias de um Deus a nosso serviço.


Alá: o mesmo Deus numa nova revelação

Em contraposição à consolidação da noção de trindade do cristianismo, a autora narra a história de uma nova revelação de Deus. Após o surgimento do conceito de Deus supremo no mundo semita, e de sua adaptação ao mundo helênico mediterrâneo e, posteriormente, ao mundo latino-germânico europeu, agora eram os árabes que teriam sua própria revelação do ser supremo. Alá era, na revelação recebida por Muhamad (Maomé) o mesmo Deus de judeus e cristãos, que agora se revelava diretamente aos árabes, que aliás, eram também filhos de Abraão.

Para mim que sou cristão de longa tradição familiar e cultural, foi de grande importância aprender com o livro de Karen Armstrong o quanto as três religiões de Deus são próximas e interligadas.

A partir desse momento o livro passa a descrever o pensamento teológico nas três grandes religiões com seus entrelaçamentos e influências mútuas, maiores do que eu poderia pensar. No livro aparece então um capítulo sobre “o Deus dos filósofos” e outro sobre “o Deus dos místicos”, que traçam um histórico dos pensamentos teológicos nas três religiões entre os séculos IX e XIV. Tudo que ela escreveu ali sobre o islã e sobre o judaísmo foram para mim novidades absolutas e intrigantes. Algo que preciso investigar mais para entender melhor.

Segue-se um capítulo sobre “o Deus dos reformadores”, que ressalta a necessidade de reformulação nas teologias das três grandes religiões. Os cristãos, que a essa altura já tinham uma divisão bem consolidada entre cristianismo ocidental e oriental, viram a cristandade medieval fragmentar-se em múltiplas confissões. Este processo é analisado superficialmente pela autora.


O Deus dos modernos

Quando o livro chegou a temas e períodos históricos que me são mais familiares percebo quão limitado pode ser um livro que se pretende escrever uma história de 4 mil anos. Imprecisões e generalizações são inevitáveis, ainda mais que a autora se baseia em grande parte em material de segunda mão. Ou seja, como o livro é uma obra de “vulgarização” científica, não leu as fontes ou estudos originais, mas sempre a partir de outros autores. É sempre perigoso fazer história a partir de compilações, mas obviamente é humanamente impossível fazer pesquisa em arquivos para um “recorte temporal” de 4 milênios.

A partir daí percebe-se que a autora segue um “programa” ou “pregação” doutrinária: propor, e defender, a partir da compreensão da diversidade de concepções do divino, uma visão menos restritiva de Deus. Assim, o racionalismo, que se erigiu a partir do século XVIII como categoria máxima e absoluta de compreensão do mundo e como fundamento da modernidade capitalista, teve como efeito colateral uma simplificação da idéia de Deus. Deus passa a ser o totalmente explicável, redutível a dogmas confessionais, aprisionável a explicações “científicas”.

A história de Deus deveria ser, para alguns, a história dogmática dessa ação divina no mundo. Mas para a autora é a história de como os homens construíram suas noções de uma divindade única. A modernidade seria então a história não de homens que lutam para se libertar de Deus, mas para libertar Deus do homem, combatendo essa noção de Deus fruto da mente racional.


.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Gustavo Dudamel e a Orquestra Sinfônica Jovem Simon Bolívar da Venezuela - a nova sensação da música de concerto

.

BBC Proms é o nome de um dos principais eventos da música de concerto. A edição 2009 terá 95 concertos em duas salas britânicas, entre 17 de julho e 12 de setembro - período das férias de verão no hemisfério norte.

Na edição de 2007 a principal atração foi uma orquestra venezuelana formada com jovens de origem pobre, dirigida por um regente de 28 anos que já é um dos músicos mais brilhantes do mundo do concerto.

A Orquestra Jovem Simon Bolívar é o topo de um sistema musical que tem mais de 100 orquestras, atendendo mais de 250 mil jovens pobres venezuelanos, e que funciona sem interrupções há 34 anos. Tudo isso na América do Sul, num país que nesse meio tempo já viu vários governos derrubados.

Impressionantes os vídeos da orquestra tocando no festival britânico a suíte West Side History, de Leonard Bernstein. São 3, e somam 25 minutos, mas para quem não tiver paciência coloquei um 4° vídeo, só com o trecho do Mambo, a parte mais empolgante da peça do compositor norte-americano. Os músicos tocam vestidos com a bandeira da Venezuela e fazem coreografia. Um antídoto para quem acha que orquestra é sinônimo de música maçante.









(Soube por uma matéria do Irineu Franco Perpétuo na Folha de 8/4/09, Ilustrada E-5)

.